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26 agosto 2011

do bovino povo português e das novas oportunidades

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Este povo não presta!

Acabava de entrar o ano de 1872. E o novo ano que chegava interrogava o ano velho. "'-Fale-me agora do povo", pedia o novo ano. E o velho: “-É um boi que em Portugal se julga um animal muito livre, porque lhe não montam na anca; e o desgraçado não se lembra da canga!” -"Mas esse povo nunca se revolta?" insistia o ano novo, espantada £ respondia o velho: “-O povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria, nunca" E uma derradeira questão:"- Em resumo, qual é a sua opinião sobre Portugal?" E a resposta lapidar do ano velho:"- Um pais geralmente corrompido, em que aqueles mesmos que sofrem não se indignam por sofrer”. Este diálogo deve-se a Eça de Queirós. O mesmo Eça que escreveu sobre o Portugal de então: "O povo paga e reza. Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam (...) e padres que rezam contra ele. (...) Paga tudo, paga para tudo. E em recompensa, dão-lhe uma farsa" Estávamos, repito, em 1872.

Aquilino, por Artur Bual
Estamos obviamente a falar do povo português. Esta "raça abjecta", congenitamente incapaz, de que falava Oliveira Martins. Este povo cretinizado, obtuso, que se arrasta submisso, sem um lamento, sem um queixume, sem um gesto de insubmissão, tão pouco de indignação e muito menos de revolta. Um povo que se deixa conduzir passivamente por mentirosos compulsivos como Sócrates ou Passos Coelho ou por inutilidades ignorantes como Cavaco Silva, não merece mais que um gesto de comiseração e de desdém. É vê-los nas televisões, por exemplo, filas e filas de gente acomodada, cabisbaixa, servil e absurdamente resignada, a pagar as estradas que a charlatanice dos políticos tinha jurado "que se pagavam a si mesmas"!

Sem qualquer tipo de pejo e com indisfarçável escárnio, o Estado obriga-os a longas filas de espera para conseguirem comprar e pagar o aparelho que lhes vai possibilitar a única forma de pagar as portagens que essa corja de aldrabões, agora no poder, se lembrou de inventar! E eles passam a noite inteira à espera, se preciso for. E lá vão depois, bovinamente, de chapéu na mão, a mendigar a senha redentora que lhes dará o "privilégio de serem esbulhados electrónica e quotidianamente pelo Estado”.
Um povo assim não presta, não passa de uma amálgama amorfa de cobardes. Porque, se esta gentinha "os tivesse no sítio" recusar-se-ia massivamente a pagar as portagens. E isso seria o suficiente para que os planos governamentais ruíssem como um castelo de cartas.

Mas não. Esta gente come e cala. Leva porrada e agradece. E a escumalha de medíocres que detém o poder, rejubila e escarnece desta populaça amodorrada e crassa que paga o que eles quiserem, quando e como eles o definirem. Sem um espirro de protesto, sem um acto de revolta violenta, se preciso for.
Pelo contrário, paga tudo. Paga para tudo. Sem rebuço, dóceis, de chapéu na mão, agradecidos e reverentes, como o poder tanto gosta. E demonstram-no publicamente, disso fazendo gala. Como eu vi, envergonhado, a imagem de um homenzinho ostentando um sorriso desdentado, exibindo perante as câmaras da TV o aparelhinho que acabara de pagar, como se tivesse ganho uma medalha olímpica.


Esta multidão anestesiada espelha claramente o pais que somos e que, irremediavelmente, continuaremos a ser - um pais estúpido, pequeno e desgraçado. O "sítio" de que falava Eça, a "piolheira" a que se referia o rei D. Carlos. "Governado" pelas palavras "sábias" de Alípio Severo, o Conde de Abranhos, essa extraordinariamente actual criação queirosiana, que reflecte bem o segredo das democracias constitucionais.
Dizia o Conde: "Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a soberania ao povo. Mas como a falta de educação o mantém na imbecilidade e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito...”

Nem mais. Eis aqui o segredo da governação. A ilustração perfeita com que o rei D. Carlos nos definia há mais de um século: "Um país de bananas governado por sacanas". Ontem como hoje. O verdadeiro esplendor de Portugal.


Jornal de Barcelos, (Luis Manuel Cunha, Professor – in Jornal de Barcelos de 27/10/2010)


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comentário e texto retirados daqui  e daqui, respectivamente .
comentário de Zé das Esquinas, o Lisboeta:
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Já aqui comentei, a propósito de não sei o quê, que o real povo português está fielmente representado num programa da RTP1 chamado de Preço Certo. Quem quiser ver com olhos sociológicos e de estudo não necessita de ir passear pelo país. Basta-lhe passar uma horas a ver uma dúzia destes programas. Não tem mal, nem tem bem. É assim mesmo, um retrato do País onde incluo o apresentador e os seus quatro assistentes.
E a propósito da afirmação incluída neste post «que a falta de educação mantém o povo na imbecilidade e adormecimento» quero ainda acrescentar uma pequena mas verdadeira «estória».
Uma amiga de infância contou-me no outro dia que tinha sido aconselhada a inscrever-se no programa «Novas Oportunidades» para ter o 12º Ano e assim poder subir um nível na carreira administrativa na Segurança Social onde fez todo o seu percurso laboral e onde, nos anos sessenta e setenta, se entrava com o antigo 5º Ano dos Liceus…
Dizia-me ela que entusiasmada com a ideia, pois está à beira da reforma, que até eu entrava no seu salto académico, pois era referido no seu trabalho que lhe dará a equivalência. E então contou-me que estava a contar a «estória da sua vida» em Word (vê lá tu, eu a escrever num computador…). Concluindo, a equivalência era-lhe atribuída mediante a avaliação de um trabalho com um número de «x» páginas onde ela contaria com palavras e imagens, a sua vida.
Não quero, por agora, fazer comentários a este programa das Novas Oportunidades, que acabei de contar e que, repito, me foi contado pela voz da própria candidata.
Mas tenho a certeza que a minha querida amiga de infância fez bem ao inscrever-se, porque merece de certezinha absoluta ser remunerada um nível acima e um dia ter uma melhor reforma.
Mas se «isto» é um programa de Ensino, que permite o acesso directo à Universidade, como vi à dias um senhor de oitenta e tal anos orgulhosamente manifestar o seu interesse, após obter a equivalência ao 12º Ano neste mesmo programa, aí já tenho as minhas maiores dúvidas.
Mais uma vez, andamos a enganar quem?
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24 agosto 2011

"democracia verdadeira, JÁ!"

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MANIFESTO ABERTO DOS INDIGNADOS LISBOA

Somos pessoas comuns. Pessoas com deveres , direitos e responsabilidades. Pessoas que se levantam todas as manhãs para estudar, trabalhar ou procurar emprego. Pessoas que têm família e contas para pagar. Pessoas que trabalham arduamente para proporcionar um futuro melhor àqueles que os rodeiam.

Este é um movimento aberto, apartidário e não-violento , com uma estrutura horizontal sem líderes. ...Condenamos de forma clara o sistema político, económico e social. Recusamo-nos a ser escravos e reféns de uma classe política privilegiada e corrupta, de um sistema eleitoral fechado às pessoas, e de uma economia de mercado sem regras nem ética, que a todos nos deixa indefesos e sem voz.

Defendemos uma democracia verdadeira assente nos seguintes princípios e normas de funcionamento:

1. - Estabelecimento gradual de uma democracia participativa em que sejam as pessoas a tomar as decisões relevantes para si próprias.

2. - Reforma da lei eleitoral de modo a que:

- O voto de todos os portugueses tenha o mesmo valor e representatividade.

- As eleições não sejam um exclusivo de partidos mas permitam candidaturas de cidadãos e colectivos.

- Os mandatos sejam revogáveis, o programa eleitoral seja vinculativo e a sua alteração só possa ocorrer mediante referendo.

3. - Fim dos privilégios da classe política (reformas, imunidades, etc). Rigor nas incompatibilidades no exercício de cargos públicos e moldura penal agravada para os crimes cometidos no desempenho destas funções.

4. - Transparência em todos os actos do Estado e acesso dos cidadãos a toda a documentação sobre contratos, receitas e despesas públicas.

5. - Acabar com as práticas públicas de favorecimento dos interesses privados que atravessam o Estado. Regulação efectiva das entidades financeiras (banca, seguradoras, etc), de forma a evitar a especulação dos mercados.

A responsabilidade de refundar a democracia, de construir um mundo diferente, mais justo, mais solidário, recai sobre todos nós. Juntos em Portugal, unidos a todos os que no mundo resistem e se revoltam, devemos lutar por resgatar aquilo que quase já se perdeu - a dignidade humana.

O futuro é de todos nós: dos nossos avós, dos nossos pais, e sobretudo dos nossos filhos.

22 agosto 2011

do nojo

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no ELPAIS, Edición impresa, Sociedad
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Cañizares, 'ministro' del Papa, ve peor abortar 
que abusar de niños

El ex primado de España dice que la reforma de la ley del aborto es parte del proyecto de Zapatero "para hacer una sociedad y una cultura totalmente nuevas"  (ler mais)

JUAN G. BEDOYA - Madrid - 29/05/2009
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de DeLacroix
A notícia acima chegou-me agora via e-mail, já tem dois anos. Calculo que, de então para cá, o catolicismo deste e de outros devotos não se tenha alterado uma vírgula, que se mantenham todos na absoluta margem de uma "sociedade e uma cultura novas". 
Penso nos milhares (milhões?) de jovens que se deslocaram a Madrid para - quê? - rezar com? ver? bajular? - 'sua santidade'. E penso nos indignados ali mesmo ao lado, esses sim lutando por uma sociedade mais justa e mais .. 'cristã'. Penso na opulenta instituição igreja, na influente Opus Dei, no Vaticano dos tesouros imensos, todos os poderosos católicos deste mundo, que em outro decerto não crêem, ou levariam a sério os ensinamentos - cristãos, socialistas: "Mais facilmente passará um camelo pelo buraco de uma agulha que um rico entrará no reino dos céus!" -, daquele que a muitos justifica a existência e cujas contas bancárias engorda, não é, senhor Ratzinger dos sapatos Prada, fiel resgatante do 'tribunal do santo ofício' de má memória?
E pergunto-me: tão estúpida é esta geração de católicos (agora) alfabetizados? - na universidade estudava o outro que (catolicamente) se propunha atentar contra a vida dos manifestantes 'anti-visita papal' - Tão incapazes de pensar são estes jovens, só de portugueses uns milhares? Tão cegos à hipocrisia e à incongruência, onde elas entram pelos olhos dentro? 
Que fazem eles mais a sua santa madre igreja pelos refugiados do presente? Pelas mulheres vítimas da 'sharia'? Ou 'infiéis' para vocês não contam, ainda que massacrados? Que acções concretas - que não enfezadas rezas - pelos que todos os dias morrem de fome, agora de novo na Somália, e sempre, sempre, nesses tantíssimos países africanos, meninos e meninas quase todos, e as TVs não escondem as barrigas inchadas, as bocas cobertas de moscas, os olhos fundos de tristeza. 
Por que ignora a igreja católica mais os seus encerados papas a África dos mártires quotidianos, das mulheres excisadas? O que faz pela  Índia dos pedintes - estropiados para que rendam, às famílias ou às máfias - crianças sem braços e sem pés, os olhos queimados? Que condenação à China pelas meninas afogadas, asfixiadas à nascença, por indesejadas? E não venham dizer que não sabem, padres bispos crentes cardeais!! Violar meninos e meninas vocês aceitam. E vendê-los como escravos, mutilá-los, assassiná-los! A tudo isso fecham os olhos, tudo isso desincluem dos vossos ridículos discursos. Aborto é que nem pensar, homossexualidade é crime, usar preservativo um sacrilégio! - "O que fizerdes aos outros, é a mim que o estais fazendo", clamou o filho do vosso deus. - A vocês não vos pesa a consciência?
de Johann Heinrich Füssli
Vocês, doutores do templo, e vocês, folclóricos seguidores desses sepulcros caiados, que fazem - fizeram - pelos pobres cada dia mais pobres e mais numerosos da vossa terra,  pelos desse outro país dos Reis Católicos, malditos sejam com a sua Inquisição, as suas práticas dementes. "Amai-vos uns aos outros", disse Ele. Que é que vocês aprendem, afinal, nas vossas missas catequeses encontros papais? Que cristianismo é o vosso?!! 
Pergunto-me muitas vezes: vocês papas e super ricos e 'barões' atolhados de benesses, vocês que dizem acreditar - católicos que não cristãos!, pretensos detentores da verdade - vocês não têm medo do inferno? Não vos preocupa o castigo divino, as vossas riquezas acumuladas sobre a miséria de tantos, a vossa soberba, a vossa indiferença? E quem vos dá o direito a essa doutrina deturpada e cúmplice?
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A Verdadeira História da Igreja Católica Romana  - ver aqui imagens elucidativas dos vários instrumentos de tortura usados ao longo da História pela Igreja Católica, Apostólica, Romana 
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do The History Channel:
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10 maio 2011

o torto soalho da casa europeia

in Público, 9/5/11

Conteúdo e contexto
Rui Tavares *

A discussão sobre se o acordo com a troika é “bom” ou “mau” para nós, segue previsivelmente todos os passos dos nossos previsíveis debates domésticos. Antes de nos perguntarmos se os senhores estrangeiros nos trataram bem ou mal, como nós merecíamos ou não, será pedir muito que abandonemos por momentos a nossa subalternidade e que nos atribuamos o direito de analisar o trabalho da troika?

A primeira pergunta seria então: é este acordo realista ou irrealista? Valerá a pena espancar a nossa economia para a pôr na forma estipulada? Já o tentámos com os vários PEC, tal como a Grécia e Irlanda tentaram com os seus resgates, e o resultado foi pior do que o estado inicial. Se este acordo falhar, que se seguirá então? Mais espancamentos?

Espancar a economia significa, é bom lembrar, espancar indiretamente as pessoas. Cortar-lhes nos salários, aumentar-lhes os transportes, diminuir-lhes as redes de segurança em caso de desemprego ou doença, cortar-lhes os sonhos na educação ou no ensino superior, cada vez mais caro. Fazê-lo sem certeza dos resultados está na fronteira entre a futilidade e a crueldade.

Para analisar o acordo, precisamos de olhar para o conteúdo e para o contexto. 

No conteúdo, o acordo é duro, duríssimo até, mas levemente menos irrealista nas previsões do que nos casos grego e irlandês. Com dois fracassos no saco, a troika admite à partida uma recessão prolongada, e dá-nos mais um ano para atingir os objetivos convencionados. 

quadro de Botero
A partir daí, o contexto é que é determinante — e o contexto está todo errado, condenando a prazo o exercício. Na verdade, nada do que fizerem Sócrates ou Passos Coelho poderá mudar o facto de que é o euro que está em crise. Dilacerantes eventos se anunciam para a moeda única nos próximos tempos. Há estranhas reuniões secretas, depois confirmadas. Na agenda estaria a saída da Grécia — depois negada. Basta uma reestruturação da dívida para que a crise chegue à Espanha.

As nossas culpas (e são muitas: um país desigual, uma elite predadora, uma estrutura fiscal desonesta) toldam-nos a vista de tal forma que não nos deixam ver esta diferença entre conteúdo e contexto, com prevalência para o segundo. Talvez uma metáfora ajude. 

O que nos sugerem que façamos às contas portuguesas, e por extensão à nossa economia e sociedade, é o equivalente a pedir-nos que arrumemos os pratos de outra maneira no armário. Vamos esquecer por momentos se concordamos ou não com a nova arrumação: isso é o conteúdo.

O problema é que o soalho da casa está torto. O soalho é a zona euro. Quanto mais se entorta mais impossível fica arrumar o nosso armário. Na sala há 16 armários, alguns exercendo um peso sobre o soalho que faz afastarem-se as tábuas onde deveríamos pôr os pés. Os planos de há seis meses já não resolvem os problemas de agora, e os planos de agora arriscam-se a piorar os problemas de daqui a seis meses.

É que entretanto já não é só o soalho que está torto. As vigas do teto afastam-se, as paredes perdem o prumo. A casa é a União Europeia, e os seus pilares são o euro, Schengen, a estratégia 2020 (meu Zeus, onde já vai ela...) — todos em crise. Os alicerces da casa estão sobre um pântano de bancocracia e indecisão política.

A casa é o contexto. Vai ser preciso refazer-lhe os pilares, que deveriam passar a ser: coesão, integração, solidariedade e crescimento (ou emprego). E reconstruir tudo sobre o terreno firme da democracia. Enquanto isto não for feito andaremos correndo à volta do armário, apontando histericamente uns para os outros, enquanto tudo se quebra lá dentro. 

*Historiador.
Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo BE (http://twitter.com/ruitavares); 
a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico

18 fevereiro 2011

afinal ... havia outra!!

antes de "Que Parva que eu sou" , dos Deolinda, 

o "TGV" de  Paco Bandeira - alguém a ouviu por aí?


25 janeiro 2011

que tal se trocássemos umas ideias sobre o assunto?

Num post aí abaixo, onde se vêem algumas das razões que levam as pessoas a sentir-se felizes nos seus países, três factores sobressaem no topo do ranking:
  • muito baixos níveis de corrupção
  • ampla distribuição da riqueza
  • óptimos serviços sociais: educação e saúde
Deste somatório resulta uma compreensível inabalável confiança nos respectivos governos - obviamente!! 

Ora acontece que em Portugal há já 37 anos que deixámos de ter uma ditadura, (assumida, entenda-se!..); há 21 que pertencemos a essa almejada e hélas ilusória irmandade chamada União Europeia, e ainda não se vislumbram nem sinais de que alguma vez venhamos a ter menos que uma absoluta e total desconfiança no nosso governo, seja qual for o partido a que ele pertença. Que o mesmo é dizer que os níveis de corrupção fariam inveja a qualquer 'coronel' de uma qualquer 'república das bananas', a distribuição da riqueza é o que se vê e a prestação social do Estado está em aceleradas vias de extinção.

Os culpados? Obviamente - NÓS!
o Estado é cada um de nós
  • Nós que tivemos um Agostinho da Silva a apontar-nos o caminho e paulatinamente o ignorámos por excêntrico, tolos. Ele que, celebrado lá fora, dizia na televisão, para quem o quisesse ouvir - e cito de memória: «Não pago impostos, porque se os pagasse, havia de exigir saber em que é gasto o meu dinheiro!»
  • Nós que tudo comemos, e calamos, e pedimos mais. Que sabemos de todas as poucas-vergonhas e encolhemos os ombros. Que passamos 15 dias a sofrer com o rapazinho assassino e queremos lá saber dos nossos velhos, dos nossos pobres, do futuro dos nossos filhos.
  • Nós que achamos que antes morrer que passar pela vergonha ou a chatice de reclamar - e ele é no café e no restaurante, no sapateiro e no supermercado, no emprego e lá por casa (verdad, mulheres de 'apenas'?)
  • Nós que passamos a vida a suspirar por um dom sebastião e não mexemos uma palha para mudarmos o nosso destino. E o entendemos como um inescapável fado - ontem, hoje, quiçá eternamente.


Pois.
O texto que segue chegou-me por e-mail. Procurando (em vão) a sua autoria, encontrei-o citado em inúmeros blogues. Ainda que repita o que já vimos, ouvimos, lemos até à exaustão, está bem escrito e parece-me bem documentado. Se é em tudo fiável, não sei. Sei que apoio cada uma das 'medidas de contenção', e recomendo que o leiam e o passem, se é que por mero acaso não preferem juntar-se-me numa revolução ..


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«Ora aqui vai outro importante contributo para que o Ministro das Finanças não continue a fazer de nós parvos, dizendo com ar sonso que não sabe em que mais cortar:

Acabou o recreio!

Se todos vocês reencaminharem como eu faço, ao fim do dia seremos centenas de milhar de "olhos mais bem abertos".
Orçamento do Estado:
- Todos os ''governantes'' [a saber: os que se governam...] de Portugal falam em cortes das despesas, mas não dizem quais, e em aumentos de impostos, a pagar pela malta.

Não ouvi foi nenhum governante falar em:

  • Retirar as mordomias (gabinetes, secretárias, adjuntos, assessores, suportes burocráticos respectivos, carros, motoristas, etc.) dos três Presidentes da República retirados.
  • Redução dos deputados da Assembleia da República e seus gabinetes, profissionalizando-os como nos países a sério. Reforma das mordomias na Assembleia da República, como almoços opíparos, com digestivos e outras libações,tudo à custa do pagode
  • Acabar com os milhares de Institutos Públicos e Fundações Públicas que não servem para nada e têm funcionários e administradores com 2º ou 3º emprego.
  • Acabar com as empresas Municipais, com Administradores a auferir milhares de euros mês e que não servem para nada, antes acumulam funções nos municípios, para aumentarem o bolo salarial respectivo.. Redução drástica das Câmaras Municipais e Assembleias Municipais, numa reconversão mais feroz que a da Reforma do Mouzinho da Silveira, em 1821, etc
  • Redução drástica das Juntas de Freguesia.
  • Acabar com o pagamento de 200 € por presença de cada pessoa nas reuniões das Câmaras e 75 € nas Juntas de Freguesia
  • Acabar com o Financiamento aos Partidos. Que devem viver da quotização dos seus associados e da imaginação que aos outros exigem para conseguirem verbas para as suas actividades
  • Acabar com a distribuição de carros a Presidentes, Assessores, etc, das Câmaras, Juntas, etc., que se deslocam em digressões particulares pelo País.
  • Acabar com os motoristas particulares 20 h/dia, com o agravamento das horas extraordinárias... para servir suas excelências, filhos e famílias, e até os filhos das amantes.... Acabar com a renovação sistemática de frotas de carros do Estado e entes públicos menores, mas maiores nos dispêndios públicos.
  • Colocar chapas de identificação em todos os carros do Estado. Não permitir de modo algum que carros oficiais façam serviço particular tal como levar e trazer familiares e filhos às escolas, ir ao mercado a compras, etc. Acabar com o vaivém semanal dos deputados dos Açores e Madeira e respectivas estadias em Lisboa em hotéis de cinco estrelas pagos pelos contribuintes que vivem em tugúrios inabitáveis...
  • Acabar com os "subsídios" de habitação e deslocação a deputados eleitos por circulos fora de Lisboa... que sempre residiram na Capital e nunca tiveram qualquer habitação nos circulos eleitorais a que concorreram!
  • Controlar os altos quadros "colocados" na Função Pública (pagos por nós...) que quase nunca estão no local de trabalho. Então em Lisboa é o regabofe total: HÁ QUADROS QUE, EM VEZ DE ESTAREM NO SERVIÇO PÚBLICO, PASSAM O TEMPO NOS SEUS ESCRITÓRIOS DE ADVOGADOS A CUIDAR DOS SEUS INTERESSES, QUE NÃO OS DA COISA PÚBLICA...
  • Acabar com as administrações numerosíssimas de hospitais públicos que servem para garantir tachos aos apaniguados do poder - há hospitais de província com mais administradores que pessoal administrativo. Só o de PENAFIEL TEM SETE ADMINISTRADORES PRINCEPESCAMENTE PAGOS... pertencentes às oligarquias locais do partido no poder...
  • Acabar com os milhares de pareceres jurídicos e outros, caríssimos, pagos sempre aos mesmos escritórios que têm canais de comunicação fáceis com o Governo no âmbito de um tráfico de influências que há que criminalizar, autuar, julgar e condenar..
  • Acabar com as várias reformas, acumuladas, por pessoa, de entre o pessoal do Estado e de entidades privadas, que passaram fugazmente pelo Estado.
  • Pedir o pagamento dos milhões dos empréstimos dos contribuintes ao BPN e BPP, com os juros devidos!
  • Perseguir os milhões desviados por Rendeiros, Loureiros e quejandos, onde quer que estejam e recuperar essas quantias para os cofres do Estado.

E por aí fora... Recuperaremos depressa a nossa posição, sobretudo a credibilidade tão abalada pela corrupção que grassa e pelo desvario dos dinheiros do Estado .

Quem pode explicar por que é que o Presidente da Assembleia da República tem, ao seu dispor, dois automóveis de serviço? Deve ser um para a "pasta" e outro para a "lancheira"!...


(...) Nós, contribuintes, pagamos tudo. E só temos culpa porque somos frouxos, passivos, indolentes. »


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- mais sobre Agostinho da Silva: aqui
- o título do post é um desvio ao nome de um romance de Mário de Carvalho,  "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto"

    09 janeiro 2011

    salários para quê?

    recebido via mail como "texto da imprensa" :



    A questão não é saber se os cortes nos salários são constitucionais ou inconstitucionais. O buzilis é se, com os cortes, os patrões vão conseguir o trabalho feito.

    Há que perceber, ou re-perceber que « o salário» não é nenhuma esmola. Se os patrões pagam salário é porque querem lá o trabalhador para executar um determinado trabalho. Se não precisassem do trabalho feito não pagavam salário nenhum.

    As reduções nos salários, ou a eliminação do salário por completo, tem a ver com um processo intelectual que tem acontecido na cabeça das pessoas nos últimos anos e que é o desligamento entre «salário» e «trabalho». De uma visão «contratual» de um «salário» pensado como contrapartida de um «trabalho», muitos patrões têm evoluído para imaginarem o trabalho como uma «obrigação» e o salário como uma «esmola» ou um custo para a empresa.

    Os programas públicos de «estagiários à borla» e subsídios «de inserção no mercado de trabalho» têm ajudado este fenómeno. Os patrões habituaram-se a que alguém fizesse o trabalho, automaticamente, e que isso nada tem a ver com aquele acontecimento stressante do final de cada mês (e muitas vezes início e meados do mês seguinte) que é o processamento de salários. As receitas da empresa são todas minhas. «É tudo meu». Os custos são culpa do Estado e da Lei. Malditos impostos! Malditos salários!

    É este raciocínio que está por detrás do discurso de que os desempregados «não querem é trabalhar!» Deviam ser obrigados a trabalhar. À borla!

    24 novembro 2010

    trova do vento que passa com ecos de maio 68

    *

    OSER PENSER, OSER PARLER, OSER SE BATTRE, OSER VAINCRE ! 
    (do Maio de 68)

    *

    oser PENSER, oser PARLER, oser AGIR !

    *

    « (...) dans quelle société vivrions-nous si mai 68 n’avait pas eu lieu ? 
    Mai 68, ce fut l’ouverture et la libéralisation d’une société encore très largement paternaliste, répressive et bureaucratique.
    Mai 68, ce fut un moment décisif pour l’émancipation des femmes, avec le développement du mouvement féministe et des revendications en faveur de la légalisation de l’avortement.
    Mai 68, ce fut la reconnaissance des droits sociaux et politiques des étudiants, la réforme des universités et la fin du mandarinat.
    Mai 68, ce fut une immense aspiration au pluralisme de l’expression politique, dans un pays où le pouvoir contrôlait directement l’information à travers l’ORTF.
    Mai 68, ce fut une lutte des travailleurs pour de meilleurs salaires et de meilleures conditions de travail, sanctionnée par les accords de Grenelle et la création de la section syndicale d’entreprise.
    Mai 68 a été la plus grande grève ouvrière dans l’histoire de la France et fut porteuse d’une volonté de transformation sociale et culturelle qui ne se limitait pas à une « révolution des moeurs».

    Chaque mouvement social a sa propre histoire. C’est aujourd’hui une autre histoire. Ou, plus exactement, la suite lointaine de la même. Mais il n’y a plus de « culture » de 1968. Ou alors il n’y a plus que cela, tant elle est devenue le bien commun de tous. Malgré tout, il subsiste quelque chose d’intemporel que 1968 n’a pas inventé, c’est l’esprit de révolte et le goût de l’utopie. »

    retirado daqui
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    08 novembro 2010

    gracias ao 'engenheiro' !!

    notícia do Público:
    7/11/2010

    A classe média está a chegar à sopa dos pobres 
    Nos refeitórios sociais a procura quase triplicou


    Ficaram sem ter como pôr comida na mesa e começam agora a engrossar as filas nas instituições que prestam ajuda assistencial. Muitos dos 280 mil portugueses que dependem dos cabazes do Banco Alimentar contra a Fome são da classe média. Tinham emprego, férias, acesso à net e tv por cabo, cartão de crédito. Ficaram com uma casa para pagar ao banco, um subsídio de desemprego que tarda a chegar - quando chega - ou que já acabou. Um carro que já não sai da garagem.  (ler mais)

    na imagem, um quadro de Max Ernst


    um povo sem desejo

    Antena 1, entrevista - ouvir aqui

    O filósofo José Gil considera que os portugueses são cada vez mais egoístas, uma tendência que se acentuou depois de perceberem que têm que viver com a crise e com as medidas de austeridade.

    Nesta entrevista conduzida pelo jornalista José Manuel Rosendo, o filósofo não hesita em falar no regresso do medo. Este facto influencia a acção colectiva e rompe a coesão comunitária, corporativa e profissional.

    José Gil defende ainda que os novos gurus são os economistas, que ocuparam o lugar dos políticos, surgindo como detentores da visão do futuro. O filósofo refere ainda que a responsabilidade dos jornalistas no contexto actual é enorme, visto que é sobre o sistema mediático que assenta a possibilidade de uma nova coesão social.

    2010-11-04
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    artigos de José Gil, a ler - absolutamente!
    • sobre educação, aqui
    • sobre a erosão da democracia, aqui
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      29 setembro 2010

      ora nem mais!

      PRÉ-AVISO DE GREVE

      29 DE SETEMBRO DE 2010

      DAS ZERO ÀS VINTE E QUATRO HORAS

      JORNADA EUROPEIA DE PROTESTO E LUTA


      Os professores e educadores, enquanto trabalhadors, têm sido vítimas de sucessivas medidas impostas pelo Governo, quer no âmbito dos orçamentos de estado quer dos designados PEC. Medidas que se traduzem na degradação das suas condições de trabalho e exercício profissional, na desvalorização dos seus salários e na eliminação ou redução de direitos fundamentais.


      Simultaneamente, e por força de tais medidas, assiste-se a um fortíssimo ataque à qualidade de serviços públicos essenciais, nomeadamente à Escola Pública e às condições em que responde, tanto no plano educativo, como social, às solicitações e exigências que lhe são colocadas. As condições concretas e a grande instabilidade que, neste novo ano lectivo, se abate sobre as escolas, confirmam as preocupações dos professores e justificam a sua luta em defesa de uma Escola Pública de Qualidade, Gratuita e Inclusiva.

      Por estes motivos, os professores e educadores portugueses aderem e participam na Jornada Europeia de Protesto e Luta que, no nosso país, se concretizará com a realização de duas Manifestações, no Porto e em Lisboa, convocadas pela CGTP-IN e a que a FENPROF e os seus Sindicatos aderiram.


      Prevenindo a eventual necessidade de justificar as faltas ao serviço por parte de docentes que não tenham outra forma de o fazer, a FENPROF, em representação dos Sindicatos de Professores que a integram, formaliza, nos termos da lei, o presente Pré-Aviso de Greve para dia 29 de Setembro de 2010, entre as zero e as vinte e quatro horas, abrangendo todos os docentes, de todos os níveis de educação e de ensino. Para os efeitos legais, caso os membros dos órgãos de gestão, usando os seus direitos, adiram à greve agora convocada, ficará responsabilizado pela segurança do edifício e de todas as pessoas que nele permaneçam o docente do quadro de nomeação definitiva mais antigo da escola que não se encontre em greve.


      Lisboa, 20 de Setembro de 2010

      O Secretariado Nacional da FENPROF

      07 setembro 2010

      a Barcelona tot hi cap, però no tot s' hi val

      a frase está em catalão, e quer dizer: 'em Barcelona cabe tudo, mas nem tudo vale' e é a campanha do momento, presente em vídeos e cartazes por tudo quanto é sítio - ver vídeo de sensibilização na página oficial do Ajuntament da cidade: aqui

      -  quem for apanhado a transgredir paga multa, que pode ir de 30 a 2.250 €
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      imagens retiradas daqui
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      E a propósito, fiquei a saber que uma das coisas que recentemente deixou de 'valer' foi a prática de nudismo na cidade, isto apesar de, nestes dias, (eu) ter passado por um impávido resistente a estas proibições - que, de resto, não se aplicam às praias de Barcelona, ali mesmo a ras de la calle marginal ..


      do antes, retirado daqui , e, pelos vistos, aplicável a todo o país:
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      Desde 1989, la práctica del nudismo quedó totalmente despenalizada al abolirse la ley del escándalo público y dejar vacías de contenido las faltas contra la moral, las buenas costumbres o la decencia pública. En teoría, el nudismo está permitido en cualquier playa o en cualquier espacio público.
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      E é... , o Almodóvar só podia mesmo ser espanhol! :-)
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      07 agosto 2010

      obesidade mental

      O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

      Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna:  «Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

      Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»

      O problema central estará basicamente na família: «Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas. Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

      Num dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma: «O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.»
      O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante. «Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»

      Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura: «O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».

      As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras:
      «Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo. Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.»

      divulgado por João César das Neves - 26 de Fev 2010

      imagem (esticada) de Júlio Resende

      06 agosto 2010

      o pobre portugal dos doutores, continuação

      Confesso: eu não queria estar a gastar o tempo do meu (acho q mais que merecido) descanso com o assunto dos 'chumbos'. Neste momento, apetece-me muito mais postar sobre música, poesia, livros, filmes ..por isso deixei incompleto o post abaixo (ver)

      Não queria, nem me parecia necessário. Outros se debruçaram sobre as declarações ditas 'polémicas' da ME (não o são, polémico seria qq coisa de novo e não-esperado, a inefável criatura mais não fez do que ler umas páginas da bíblia da antecessora!) . Enfim, os media deram-lhe a costumada cobertura, as associações de pais pronunciaram-se, uma preto, outra branco. Tudo o que havia a dizer foi dito e eu, sinceramente, nem sei se valia a pena gastar cera com mais defuntas ruindades.. Tudo vai ficar-se por isto mesmo, esta 'tosquice' que me traz à memória um título de um livro para crianças, "a sopa toca e foge". Eles brincam, nós entramos no jogo. Pais, professores, jornalistas.

      E esperamos que nada aconteça, nada se altere nos próximos (pelo menos) dez anos. Quando os vossos filhos (que o meu já é grande, escapa a estas estatísticas..) tiverem terminado os seus 'bolónhicos'  cursos-seguidos-de-mestrado para UE ver e forem engrossar as filas dos portugueses desempregados. Ou quando, engenheiros e advogados, forem atender telefones num qualquer call centre. Ou quando tiverem de emigrar para outros países, e os únicos que os vão aceitar são aqueles que deixaram de 'chumbar' ainda mais futuros doutores analfabetos do que nós.

      Porque o 'chumbo', e agora passo à análise do artigo de Miguel Reis (aqui) , o chumbo NÃO é «a marca mais evidente do falhanço da escola». A marca mais evidente do falhanço da escola é toda uma geração ter passado por lá e ter-se iludido com o facilitismo das passagens sucessivas, ter agora (ou daqui a dez anos) o seu futuro hipotecado. 

      E isso é um falhanço, sim, e rotundo, mas da sociedade em que vivemos, muito mais do que da escola.
      • É o falhanço de uma sociedade que menospreza o papel da Educação, mas almeja para os seus rebentos um diploma de estudos superiores. 
      • Uma sociedade que vive de aparências, inclusive a de que se importa com o futuro dos filhos (ou o seu presente, e isso não é apanágio exclusivo, nem talvez particularmente significativo, das classes ditas ‘baixas’). 
      • Uma sociedade que aplaude quando uma ministra da Educação vem publicamente achincalhar os agentes dessa mesma Educação. 
      • Que vê num programa de televisão um homem agredir uma mulher e logo o transforma em herói. 
      • Que sabe de cor os nomes de todos os jogadores, de todos os treinadores de futebol, mas ignora em absoluto quem foi Agostinho da Silva, ou António Egas Moniz, ou José Saramago. 
      • Que tem 4 e 5 aparelhos de televisão em casa, mas nunca leu um livro na vida. 
      • Uma sociedade, enfim, que elege e reelege um primeiro ministro suspeito de burlas várias, paradigma do bem-sucedido cidadão português!
      Vivemos num mundo em que o ‘parecer’ prevalece sobre o ‘ser’, onde quem colhe frutos são os oportunistas, os burlões, os chicos-espertos. A escola pública é apenas a ponta mais visível – e mais vulnerável – desta lixeira nauseabunda em que se tornou o nosso país, e também o seu reflexo.

      No seu artigo "uma proposta falsa", diz Miguel Reis que «as visões meritocráticas da escola são apanágio da direita conservadora». Pois deviam sê-lo também da esquerda, se por esquerda se entende uma força que não aceita a podridão deste status quo! Uma força que valoriza o trabalho sério e o empenhamento individual como construtores de um mundo melhor e mais justo, e de que possam, os seus agentes, colher os frutos. É que, ser “conservador”, nos tempos que correm, é encarar como natural a indisciplina que grassa nas escolas, e premiá-la. É aplaudir a violência, os maus modos, a displicência, a cabulice, o eduquês. É aceitar a desautorização sistemática dos professores e outros agentes da educação, é dar cobertura ao bullying. “Conservar”, neste momento, é querer manter este estado de coisas. É não perceber, ou não querer ver, o que se passa nas escolas deste país, onde a indisciplina e o desinteresse de grande parte dos alunos são a causa primeira do seu insucesso.

      Pois, sejamos realistas. Mas não exigindo o impossível grau de doutor para todos os nossos jovens (e quem me dera, se isso se traduzisse em mérito, em conhecimento efectivo!!). Na escola (a pública, entenda-se) dificilmente se encontra já o que Miguel Reis chamará de 'elites'. Na escola pública estão os filhos dos professores e outros funcionários públicos, e os dos operários mais bem pagos do que eles. Estão os filhos dos comerciantes, e os dos desempregados. E os das mães solteiras e os dos emigrantes - brasileiros, africanos, ucranianos, moldavos, romenos. Estão os alunos que querem aprender e os que, logo na ficha que entregam ao director de turma, escrevem que não gostam de estudar. Estão os que lêem e os que não lêem, sejam filhos de professores, operários, desempregados, mães solteiras, emigrantes. Na escola (a pública, repito) estão os que vestem roupas de marca, e são basicamente todos. Os que têm televisão e computador no quarto onde dormem - e são basicamente todos. Os que só se alimentam de hamburgers, croissants, gomas, coca-cola - e são basicamente todos. 

      A estratificação da sociedade faz-se agora entre os que não têm outro remédio senão frequentar a cada vez mais desacreditada escola pública e os que podem pagar os colégios privados.
      Tempos houve em que os alunos se inscreviam nos colégios privados que lhes garantiam a passagem fácil com notas altas - como a realidade se inverteu, não? Tempos, e não tão distantes assim, em que a escola pública tinha qualidade reconhecidamente superior à generalidade dos privados.  Em que os professores de uma davam, também, umas aulas na outra. Ou em que o pessoal docente dos colégios era composto, maioritariamente, pelos candidatos que não conseguiam lugar nas escolas do Estado. Onde há, certamente, "os professores que facilmente desistem" (...) e "os professores que tentam utilizar todos os escassos meios existentes" (...) Mas não me venham com a demagogia do "carimbar prematuramente o destino de certos alunos"!!! e .... "professores que acreditam numa escola que serve para distinguir em vez de ensinar", Miguel Reis ?? que é isso? ?!! Pois se é você mesmo que diz, e cito, " a Ministra faz recair toda a responsabilidade sobre as escolas e sobre os professores, insinuando que dispõem de todo os meios para garantir o sucesso escolar de todos os alunos» - em que ficamos, afinal? A escola não tem toda a responsabilidade mas "desiste de corrigir as desigualdades de partida, deixando que elas se reproduzam e se ampliem."??

      Esses 'certos alunos carimbados de incapazes', Miguel, não existem no meu mundo profissional, como não existem os professores 'elitistas' de que fala. Existem, sim, alunos que se estão completamente borrifando para a escola, que agridem verbal e fisicamente colegas e professores. E existem professores que não conseguem ensinar-lhes nada, nem a eles nem ao resto da turma, tal é o desinteresse generalizado, tão inultrapassável a indisciplina dentro da sala de aula.

      Não se pode exigir à escola que acabe com a leviana cultura de aparências de toda uma sociedade enformada nos estereótipos virtuais que lhe invadem a casa a toda a hora, muito menos que ‘corrija’, ela só, “as desigualdades de partida”. O que, sim, se lhe deve exigir, é que proporcione um ensino de qualidade, regido por valores humanistas e pautado por critérios de exigência, a todos os seus alunos. Que a todos dê os instrumentos necessários para que possam atingir o sucesso, a nível académico e na sua vida futura.

      Mas que, antes, se criem as condições sine qua non. Condições que passam, não por um megalómano plano tecnológico, muito menos pela despesa de milhares de euros gastos em escolas-mãe de futuros mega agrupamentos. As condições necessárias para que a escola mude passam, sobretudo e quase só, pela alteração radical das mentalidades dos alunos e dos seus progenitores. Passam por se voltar a entender a escola como um lugar de trabalho, em vez do pátio de recreio que agora é. Passam, também, por diferenciar os curricula e os cursos, de acordo, não com a condição social de cada um, mas com as suas apetências, as suas diferentes capacidades, e por que não?, a sua diversa inteligência.
      .
      Na Rua Sésamo, o programa infantil mais didáctico que já vi, ensinavam-se as letras, os números e os valores. Uma das canções que por lá ouvi dizia qualquer coisa do género: “se todos fôssemos doutores e engenheiros, quem é que martelava?”

      É que - marca evidente do falhanço da escola (da sociedade!) - é , também, precisarmos de um electricista ou um canalizador e não encontrarmos um que não esteja atafulhado de compromissos. Ou de arranjarmos outro que nos ponha a instalação em curto circuito e as torneiras a vazar. E é termos tantos inúteis diplomas de doutores. Termos uma taxa de desemprego galopante. Termos nas ruas um número cada vez maior de pedintes cada vez mais jovens.

      Por isso a minha aluna, que não é filha de cozinheira, deveria, sem complexos de qualquer espécie,  poder cumprir o seu sonho de cozinhar, tal como a filha da empregada de uma amiga cumpriu o sonho de ser médica. Não fossem, também, os preconceitos sociais que (quase) todos ainda temos neste país, e a escola cumpriria muito melhor o seu papel.


      E finalizo registando aqui algo que já anteriormente escrevi, e que é fruto da minha experiência de mais de 30 anos com alunos do 3.º ciclo e secundário:

      (..) a propósito de um inquérito do jornal Público, em que se inquiriam 'personalidades' sobre as causas do insucesso escolar (efectivo) em Portugal: «Acha que a culpa do insucesso é dos professores?»
      A resposta de uma das inquiridas, Inês Pedrosa, escritora e directora da Casa-Museu Fernando Pessoa, mais ou menos isto : « É óbvio que a culpa é dos professores! Os alunos não hão-de ser todos burros!»
      .
      Num ponto tem razão a senhora: os alunos, na sua grande maioria, de 'burros' não têm nada. Nem, de resto, os alunos que reprovam são os que têm 'dificuldades de aprendizagem'.
      • Os alunos que reprovam são aqueles que não querem saber da escola para nada - secundados e incentivados nesta perspectiva pelos seus EE.
      • Os alunos que reprovam são os que se portam muito mal e fazem da sala de aula uma extensão do recreio, prejudicando-se a si e aos colegas.
      • Os alunos que reprovam são aqueles cujos pais só aparecem na escola para insultarem os professores, 'carrascos implicantes' que traumatizam os seus impolutos 'anjos'.
      • Os alunos que reprovam, em última análise, são os que, inteligentemente, intuíram os valores de facilitismo e auto-desresponsabilização subjacentes ao sistema educativo - desenhado e mantido ao longo das últimas décadas - pelo ministério da educação.
      .

      Educação injusta

      ou .. um complemento 
      ao complemento  
      do artigo de Santana Castilho 

      O artigo é de Luís Campos e Cunha, e vem publicado no Público de hoje. 
      .
      Resume boa parte daquilo que também eu penso, quer relativamente à urgência de se interiorizar uma política de auto-responsabilização, quer à questão das  pedagogias educativas  com que o ME nos tem brindado nas últimas décadas. 
      Políticas desastrosas, quase todas, em parte porque enformadas, ainda, por um complexo dito de "esquerda"  a meu ver absolutamente injustificado, se tivermos em conta a alteração da realidade social do nosso país, mainly and namely, a reflectida pela Escola Pública, muito especialmente a nível dos valores hoje instituídos (ou mais exactamente, da falta deles..). 

      É que não se pode levar metade do tempo a clamar contra a indisciplina e o bullying, as agressões físicas e verbais mais a falta de interesse dos alunos, e a outra metade a esgrimir a bandeira das oportunidades iguais, para os 'tontos' que cumprem e os 'coitadinhos' que não cumprem, venham eles do extracto social que vierem.

      *

      O artigo acima referido versa dois assuntos, o da justiça # e o da educação. Transcrevo apenas o referente a este último.

      Educação injusta
      (...) 

      A educação - outro problema calamitoso - também não deu [esta semana] boas notícias com a perspectiva do fim das reprovações. Há uns meses, numa conferência em S. Francisco na Califórnia, um professor americano já reformado, que escreveu muito sobre Espanha e também sobre Portugal, perguntou-me qual a razão dos maus resultados do ensino nacional. Depois de uma longa conversa em que mostrei que os recursos financeiros, humanos e materiais eram dos melhores da Europa, [admiti que] os resultados brilhavam pela ausência. A finalizar, disse-lhe que boa parte da culpa também era deles, americanos. Perante a surpresa, expliquei-lhe que no final dos anos 60 (ou princípios de setenta), um ministro da Educação tivera a ingenuidade de mandar umas dezenas de pessoas estudar "ciências da educação" nos Estados Unidos. Ele interrompeu-me, perguntando: não me diga que foram para Boston! - Exactamente, disse-lhe. O meu amigo respirou fundo e calmamente concluiu: então, o caso é mesmo muito grave. (*)

      E é, de facto, muito grave. A filosofia das Escolas de Educação está patente há muitos anos na abordagem ao ensino em Portugal e os resultados estão à vista. Estou certo que a intenção da ministra é a melhor; li a sua entrevista e ouvi atentamente muitas das explicações que se lhe seguiram e não advogou (explicitamente) o fim administrativo dos chumbos. Desejou apenas pôr à discussão; aqui fica o meu contributo.

      As reprovações são necessárias e não se avaliam, principalmente, pelos efeitos que têm nos alunos que chumbam. As reprovações são úteis para os alunos que passam porque estudaram. É o prémio; é para evitar a vergonha da reprovação que os alunos se aplicam mais. Qualquer um de nós (incluindo eu próprio) se lembra que esteve, normalmente pelos 14 anos, à beira de chumbar, o que só não terá acontecido pelo esforço final para evitar o vexame. (**)  É a cultura da responsabilidade que está em causa. 

      Educar é preparar para a vida. Não conheço melhor definição de educação. Essa preparação é não só técnica e científica, mas também ética e cívica. É ser capaz de lidar com o stress, com a pressão temporal e até com a injustiça. É ser capaz de definir objectivos, trabalhar por eles e alcançá-los. E esperar o reconhecimento por isso. Os exames e os resultados com aprovações, reprovações e com notas de zero a vinte foram necessários e são importantes. Aguentar a pressão de um exame faz também parte da aprendizagem.

      Na vida estamos sempre a aprender e estamos sempre a ser avaliados. Tal como devia ser na escola. Há duas grandes diferenças entre a escola e a vida. Na escola, primeiro temos a lição e depois o exame. Na vida, primeiro temos o exame e só depois temos a lição, se percebermos onde errámos. Em segundo lugar, na escola aprendemos à custa da experiência de outros; na vida aprendemos à nossa custa, à custa dos nossos erros. Por tudo isto é que a escola é o meio mais eficiente de nos preparar para a vida.

      Nós, que somos pais, várias vezes ouvimos os nossos filhos queixarem-se da injustiça de uma avaliação. A minha resposta era sempre a mesma: fala com o professor e tenta apresentar as tuas queixas, mas se no fim ficar tudo na mesma, aprendeste que a injustiça existe (***) e vais vê-la todos os dias no resto da tua vida. Aprendeste mais uma coisa.

      Sem justiça não há cidadania nem vida democrática #. Sem uma boa escola não há justiça social. Hoje temos um ensino, porque laxista, mais injusto do que há 40 anos: os filhos dos mais pobres ficam condenados a serem pobres. Não sou especialista em educação e sei ainda menos de justiça #. Mas sei ver os resultados. Da mesma forma que não sei cozinhar decentemente, mas sei apreciar uma boa refeição.

      Luís Campos e Cunha, professor universitário


      notas:

      (*) fazia eu os meus dois anos de estágio pedagógico, já nos anos oitenta, e ainda se gozava com as mirabolantes pedagogias dos então chamados  mestrados "da bosta" ..

      (**) o que me diz a experiência enquanto professora do 3.º ciclo e secundário.é que poucos são os alunos que, nos tempos que correm, consideram um vexame chumbar por notas; o que, sim, os preocupa, é reprovarem por faltas, não pela vergonha, mas pelo eventual castigo parental.

      (***) eu acrescentaria: ... ou que, afinal, as tuas queixas eram injustificadas ..

      04 agosto 2010

      "um complemento ao texto do SC "

      - com a intenção transcrita no título me foi enviado, via mail, o artigo que segue, e que comentarei brevemente.

      publicado aqui,    Uma proposta falsa

      Author(s): Miguel Reis *



      A proposta da Ministra da Educação de acabar com os chumbos parece progressista mas não é. Parece colocar-se no campo dos que defendem o direito ao sucesso de todos os alunos, mas não passa de ilusionismo, confirmando uma das marcas fortes deste governo: aparências, joguetes de comunicação e produção da imagem, um pacote sofisticado que esconde sempre a política do cifrão.

      O discurso de Isabel Alçada é mais ou menos este: “é preciso acabar com os chumbos e isso é possível com os meios já existentes nas escolas - aulas de poio e afins – o que falta mesmo é direccionar de forma correcta esses instrumentos”. E apoia-se no exemplo nórdico, ignorando olimpicamente que os meios das escolas nórdicas estão a milhas de distância da realidade das escolas portuguesas. Mais à frente, a ministra lá se descai, repetindo os argumentos da sua antecessora: os chumbos são muito caros e pouparíamos muito dinheiro acabando com eles. De facto, o governo PS está também a milhas de distância de qualquer social democracia nórdica. Está mais interessado em gastar menos dinheiro com a educação do que em investir nela. O PS quer acabar com os chumbos porque isso lhe permitiria poupar muito dinheiro, nos países nórdicos investiu-se muito na Educação para tornar os chumbos desnecessários.

      A proposta da Ministra é falsa porque não é amiga do sucesso escolar real. E faz recair toda a responsabilidade sobre as escolas e sobre os professores, insinuando que dispõem de todo os meios para garantir o sucesso escolar de todos os alunos. Mas ela sabe que isso nunca vai acontecer. O seu verdadeiro interesse é poupar dinheiro e melhorar nas estatísticas. Este é um governo de má-fé. Se estivesse de boa-fé não se oporia – ainda por cima de forma patética – à redução do número máximo de alunos por turma, à presença de equipas multidisciplinares nas escolas, ao investimento no ensino especial, e ao reforço de meios humanos e materiais para acompanhar de forma consistente cada aluno em dificuldades. Se estivesse de boa-fé não adiava uma urgente revisão curricular para as calendas gregas. Isso sim, seriam medidas que poderiam abrir caminho para que os chumbos passassem à história. Mas, em vez disso, em vez de tomar medidas concretas, a Ministra prefere atirar barro à parede.

      A conclusão é que o “economês” deste PS está por cima do debate ideológico tradicional sobre a escola. Não se trata de defender o direito ao sucesso de todos os alunos contra as visões meritocráticas e elitistas da escola que são apanágio da direita conservadora. Trata-se simplesmente de poupar dinheiro olhando para a escola como uma empresa que produz ou não resultados. De facto, o neoliberalismo deste governo quer mascarar-se de esquerda colocando-se vagamente do lado emancipatório, mas ao deixar tudo na mesma relativamente ao sucesso escolar real dos alunos, está de facto a tomar o lado conservador. No fundo, se passarem todos os alunos mas uns terminarem sabendo muito mais do que outros, fica garantida a estratificação social. A escola desiste de corrigir as desigualdades de partida, deixando que elas se reproduzam e se ampliem. É por isso que o discurso contra os chumbos deste governo, apesar de levantar o histerismo fanático de sectores conservadores que pensam que o chumbo é uma inevitabilidade necessária para distinguir os melhores dos piores, acaba por se colocar no plano dos que defendem a perpetuação dessa diferenciação, tentando apenas escondê-la acabando com a catalogação tradicional do aprovado/reprovado, que sai cara ao sistema.

      Finalmente, importa dizer duas coisas. A primeira é que a defesa sincera do fim dos chumbos, ou seja, a ideia de que é possível que praticamente todos os alunos possam atingir competências e conhecimentos essenciais, não é nenhuma utopia romântica. Ela é hoje uma realidade em muitos países e não há como negá-lo. A segunda é que não há como fugir a uma disputa ideológica em cada escola entre os professores que facilmente desistem de certos alunos carimbando-lhes prematuramente o destino porque acreditam numa escola que serve para distinguir em vez de ensinar, e os professores que tentam utilizar todos os escassos meios existentes para melhorar o sucesso escolar de todos os alunos e que compreendem que em certas circunstâncias o chumbo pode ser pior para um aluno, dado que a desmotivação de perder sua turma e de ser catalogado como incapaz pode atirá-lo para o poço do insucesso permanente. Na verdade, o chumbo é a marca mais evidente do falhanço da escola e muitas vezes contribui para ampliar esse falhanço. Mas para acabar totalmente com o chumbo há primeiro que corrigir esse falhanço original da escola, algo que o governo nunca se mostrou honestamente interessado em fazer.

      * dirigente do BE e professor

      nota: sublinhados meus

      03 agosto 2010

      assim vai Portugal, com muitos muito mal

      enviado por QYOZOU ENOLM, título e tudo
       

      "Era mau, vai ficar pior"
      Por Ana Cristina Pereira (Publico)

      O marido ainda não chegou do trabalho. Alzira está só com a filha mais nova. "Enquanto pude trabalhar, trabalhei. Gostava de trabalhar. Queria pintar a casa e tudo." Doenças com nomes estranhos dominam os seus dias. Sofre de dislipidemia, níveis anormais de lípidos no sangue. Sofre de depressão reactiva. Sofre de discopatia, alterações nos discos intervertebrais que lhe provocam dores. É portadora de hemangioma hepático, tumores benignos do fígado. E apareceram-lhe uns quistos na cabeça.

      A empregada de limpeza deixou de trabalhar há quatro anos. Recebe 133,2 euros de Rendimento Social de Inserção - recebia um pouco mais quando tinha outra filha em casa, só que essa juntou-se a um rapaz de etnia cigana. "Há dois anos que não pago a alimentação na escola. Não posso pagar. A professora da minha filha, que passou agora para a 4.ª, sabe as dificuldades."

      O marido, polidor de metais, entra no apartamento camarário. Junta-se à conversa que se desenrola em torno da mesa da sala. "Ganho 500 e tal euros. Para que chega? Às vezes, nem dá para os medicamentos. Há duas semanas, deu-lhe um ataque. Estava a ver que ela ficava de vez."

      Recebem RSI há uns três anos - o abono atrasou-se, o marido deslocou-se à Segurança Social; a assistente social viu o rendimento da família, o tamanho do agregado e deu-lhe os impressos. Ainda não têm informação oficial, mas já viram na televisão. "Era mau, vai ficar pior", diz ela.

      O Decreto-Lei n.º 70/10 considera todos os apoios públicos à habitação - pecuniários ou em espécie - com carácter regular. A Lei 46/85 criou um subsídio de renda que tem hoje o valor máximo de 46,36 euros. Agora, esse montante foi adaptado como valor do apoio público. No primeiro ano a receber RSI, conta-se um terço desse valor; no segundo ano, metade; no terceiro, tudo. Como Alzira está há oito anos nesta casa, vai ficar sem 46 euros.

      O marido solta uma ânsia: "Eu gosto de trabalhar. Trabalho desde os 14 anos como polidor de metais. O meu pai já era polidor." Aos 47 anos, com o 4.º ano de escolaridade e tal experiência profissional, como vai aumentar o rendimento? Alzira solta uma ânsia: "Às vezes, não compro a medicação. Quantas vezes a minha filha quer um pacote de bolachas e eu não compro?..."