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06 agosto 2010

o pobre portugal dos doutores, continuação

Confesso: eu não queria estar a gastar o tempo do meu (acho q mais que merecido) descanso com o assunto dos 'chumbos'. Neste momento, apetece-me muito mais postar sobre música, poesia, livros, filmes ..por isso deixei incompleto o post abaixo (ver)

Não queria, nem me parecia necessário. Outros se debruçaram sobre as declarações ditas 'polémicas' da ME (não o são, polémico seria qq coisa de novo e não-esperado, a inefável criatura mais não fez do que ler umas páginas da bíblia da antecessora!) . Enfim, os media deram-lhe a costumada cobertura, as associações de pais pronunciaram-se, uma preto, outra branco. Tudo o que havia a dizer foi dito e eu, sinceramente, nem sei se valia a pena gastar cera com mais defuntas ruindades.. Tudo vai ficar-se por isto mesmo, esta 'tosquice' que me traz à memória um título de um livro para crianças, "a sopa toca e foge". Eles brincam, nós entramos no jogo. Pais, professores, jornalistas.

E esperamos que nada aconteça, nada se altere nos próximos (pelo menos) dez anos. Quando os vossos filhos (que o meu já é grande, escapa a estas estatísticas..) tiverem terminado os seus 'bolónhicos'  cursos-seguidos-de-mestrado para UE ver e forem engrossar as filas dos portugueses desempregados. Ou quando, engenheiros e advogados, forem atender telefones num qualquer call centre. Ou quando tiverem de emigrar para outros países, e os únicos que os vão aceitar são aqueles que deixaram de 'chumbar' ainda mais futuros doutores analfabetos do que nós.

Porque o 'chumbo', e agora passo à análise do artigo de Miguel Reis (aqui) , o chumbo NÃO é «a marca mais evidente do falhanço da escola». A marca mais evidente do falhanço da escola é toda uma geração ter passado por lá e ter-se iludido com o facilitismo das passagens sucessivas, ter agora (ou daqui a dez anos) o seu futuro hipotecado. 

E isso é um falhanço, sim, e rotundo, mas da sociedade em que vivemos, muito mais do que da escola.
  • É o falhanço de uma sociedade que menospreza o papel da Educação, mas almeja para os seus rebentos um diploma de estudos superiores. 
  • Uma sociedade que vive de aparências, inclusive a de que se importa com o futuro dos filhos (ou o seu presente, e isso não é apanágio exclusivo, nem talvez particularmente significativo, das classes ditas ‘baixas’). 
  • Uma sociedade que aplaude quando uma ministra da Educação vem publicamente achincalhar os agentes dessa mesma Educação. 
  • Que vê num programa de televisão um homem agredir uma mulher e logo o transforma em herói. 
  • Que sabe de cor os nomes de todos os jogadores, de todos os treinadores de futebol, mas ignora em absoluto quem foi Agostinho da Silva, ou António Egas Moniz, ou José Saramago. 
  • Que tem 4 e 5 aparelhos de televisão em casa, mas nunca leu um livro na vida. 
  • Uma sociedade, enfim, que elege e reelege um primeiro ministro suspeito de burlas várias, paradigma do bem-sucedido cidadão português!
Vivemos num mundo em que o ‘parecer’ prevalece sobre o ‘ser’, onde quem colhe frutos são os oportunistas, os burlões, os chicos-espertos. A escola pública é apenas a ponta mais visível – e mais vulnerável – desta lixeira nauseabunda em que se tornou o nosso país, e também o seu reflexo.

No seu artigo "uma proposta falsa", diz Miguel Reis que «as visões meritocráticas da escola são apanágio da direita conservadora». Pois deviam sê-lo também da esquerda, se por esquerda se entende uma força que não aceita a podridão deste status quo! Uma força que valoriza o trabalho sério e o empenhamento individual como construtores de um mundo melhor e mais justo, e de que possam, os seus agentes, colher os frutos. É que, ser “conservador”, nos tempos que correm, é encarar como natural a indisciplina que grassa nas escolas, e premiá-la. É aplaudir a violência, os maus modos, a displicência, a cabulice, o eduquês. É aceitar a desautorização sistemática dos professores e outros agentes da educação, é dar cobertura ao bullying. “Conservar”, neste momento, é querer manter este estado de coisas. É não perceber, ou não querer ver, o que se passa nas escolas deste país, onde a indisciplina e o desinteresse de grande parte dos alunos são a causa primeira do seu insucesso.

Pois, sejamos realistas. Mas não exigindo o impossível grau de doutor para todos os nossos jovens (e quem me dera, se isso se traduzisse em mérito, em conhecimento efectivo!!). Na escola (a pública, entenda-se) dificilmente se encontra já o que Miguel Reis chamará de 'elites'. Na escola pública estão os filhos dos professores e outros funcionários públicos, e os dos operários mais bem pagos do que eles. Estão os filhos dos comerciantes, e os dos desempregados. E os das mães solteiras e os dos emigrantes - brasileiros, africanos, ucranianos, moldavos, romenos. Estão os alunos que querem aprender e os que, logo na ficha que entregam ao director de turma, escrevem que não gostam de estudar. Estão os que lêem e os que não lêem, sejam filhos de professores, operários, desempregados, mães solteiras, emigrantes. Na escola (a pública, repito) estão os que vestem roupas de marca, e são basicamente todos. Os que têm televisão e computador no quarto onde dormem - e são basicamente todos. Os que só se alimentam de hamburgers, croissants, gomas, coca-cola - e são basicamente todos. 

A estratificação da sociedade faz-se agora entre os que não têm outro remédio senão frequentar a cada vez mais desacreditada escola pública e os que podem pagar os colégios privados.
Tempos houve em que os alunos se inscreviam nos colégios privados que lhes garantiam a passagem fácil com notas altas - como a realidade se inverteu, não? Tempos, e não tão distantes assim, em que a escola pública tinha qualidade reconhecidamente superior à generalidade dos privados.  Em que os professores de uma davam, também, umas aulas na outra. Ou em que o pessoal docente dos colégios era composto, maioritariamente, pelos candidatos que não conseguiam lugar nas escolas do Estado. Onde há, certamente, "os professores que facilmente desistem" (...) e "os professores que tentam utilizar todos os escassos meios existentes" (...) Mas não me venham com a demagogia do "carimbar prematuramente o destino de certos alunos"!!! e .... "professores que acreditam numa escola que serve para distinguir em vez de ensinar", Miguel Reis ?? que é isso? ?!! Pois se é você mesmo que diz, e cito, " a Ministra faz recair toda a responsabilidade sobre as escolas e sobre os professores, insinuando que dispõem de todo os meios para garantir o sucesso escolar de todos os alunos» - em que ficamos, afinal? A escola não tem toda a responsabilidade mas "desiste de corrigir as desigualdades de partida, deixando que elas se reproduzam e se ampliem."??

Esses 'certos alunos carimbados de incapazes', Miguel, não existem no meu mundo profissional, como não existem os professores 'elitistas' de que fala. Existem, sim, alunos que se estão completamente borrifando para a escola, que agridem verbal e fisicamente colegas e professores. E existem professores que não conseguem ensinar-lhes nada, nem a eles nem ao resto da turma, tal é o desinteresse generalizado, tão inultrapassável a indisciplina dentro da sala de aula.

Não se pode exigir à escola que acabe com a leviana cultura de aparências de toda uma sociedade enformada nos estereótipos virtuais que lhe invadem a casa a toda a hora, muito menos que ‘corrija’, ela só, “as desigualdades de partida”. O que, sim, se lhe deve exigir, é que proporcione um ensino de qualidade, regido por valores humanistas e pautado por critérios de exigência, a todos os seus alunos. Que a todos dê os instrumentos necessários para que possam atingir o sucesso, a nível académico e na sua vida futura.

Mas que, antes, se criem as condições sine qua non. Condições que passam, não por um megalómano plano tecnológico, muito menos pela despesa de milhares de euros gastos em escolas-mãe de futuros mega agrupamentos. As condições necessárias para que a escola mude passam, sobretudo e quase só, pela alteração radical das mentalidades dos alunos e dos seus progenitores. Passam por se voltar a entender a escola como um lugar de trabalho, em vez do pátio de recreio que agora é. Passam, também, por diferenciar os curricula e os cursos, de acordo, não com a condição social de cada um, mas com as suas apetências, as suas diferentes capacidades, e por que não?, a sua diversa inteligência.
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Na Rua Sésamo, o programa infantil mais didáctico que já vi, ensinavam-se as letras, os números e os valores. Uma das canções que por lá ouvi dizia qualquer coisa do género: “se todos fôssemos doutores e engenheiros, quem é que martelava?”

É que - marca evidente do falhanço da escola (da sociedade!) - é , também, precisarmos de um electricista ou um canalizador e não encontrarmos um que não esteja atafulhado de compromissos. Ou de arranjarmos outro que nos ponha a instalação em curto circuito e as torneiras a vazar. E é termos tantos inúteis diplomas de doutores. Termos uma taxa de desemprego galopante. Termos nas ruas um número cada vez maior de pedintes cada vez mais jovens.

Por isso a minha aluna, que não é filha de cozinheira, deveria, sem complexos de qualquer espécie,  poder cumprir o seu sonho de cozinhar, tal como a filha da empregada de uma amiga cumpriu o sonho de ser médica. Não fossem, também, os preconceitos sociais que (quase) todos ainda temos neste país, e a escola cumpriria muito melhor o seu papel.


E finalizo registando aqui algo que já anteriormente escrevi, e que é fruto da minha experiência de mais de 30 anos com alunos do 3.º ciclo e secundário:

(..) a propósito de um inquérito do jornal Público, em que se inquiriam 'personalidades' sobre as causas do insucesso escolar (efectivo) em Portugal: «Acha que a culpa do insucesso é dos professores?»
A resposta de uma das inquiridas, Inês Pedrosa, escritora e directora da Casa-Museu Fernando Pessoa, mais ou menos isto : « É óbvio que a culpa é dos professores! Os alunos não hão-de ser todos burros!»
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Num ponto tem razão a senhora: os alunos, na sua grande maioria, de 'burros' não têm nada. Nem, de resto, os alunos que reprovam são os que têm 'dificuldades de aprendizagem'.
  • Os alunos que reprovam são aqueles que não querem saber da escola para nada - secundados e incentivados nesta perspectiva pelos seus EE.
  • Os alunos que reprovam são os que se portam muito mal e fazem da sala de aula uma extensão do recreio, prejudicando-se a si e aos colegas.
  • Os alunos que reprovam são aqueles cujos pais só aparecem na escola para insultarem os professores, 'carrascos implicantes' que traumatizam os seus impolutos 'anjos'.
  • Os alunos que reprovam, em última análise, são os que, inteligentemente, intuíram os valores de facilitismo e auto-desresponsabilização subjacentes ao sistema educativo - desenhado e mantido ao longo das últimas décadas - pelo ministério da educação.
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Educação injusta

ou .. um complemento 
ao complemento  
do artigo de Santana Castilho 

O artigo é de Luís Campos e Cunha, e vem publicado no Público de hoje. 
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Resume boa parte daquilo que também eu penso, quer relativamente à urgência de se interiorizar uma política de auto-responsabilização, quer à questão das  pedagogias educativas  com que o ME nos tem brindado nas últimas décadas. 
Políticas desastrosas, quase todas, em parte porque enformadas, ainda, por um complexo dito de "esquerda"  a meu ver absolutamente injustificado, se tivermos em conta a alteração da realidade social do nosso país, mainly and namely, a reflectida pela Escola Pública, muito especialmente a nível dos valores hoje instituídos (ou mais exactamente, da falta deles..). 

É que não se pode levar metade do tempo a clamar contra a indisciplina e o bullying, as agressões físicas e verbais mais a falta de interesse dos alunos, e a outra metade a esgrimir a bandeira das oportunidades iguais, para os 'tontos' que cumprem e os 'coitadinhos' que não cumprem, venham eles do extracto social que vierem.

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O artigo acima referido versa dois assuntos, o da justiça # e o da educação. Transcrevo apenas o referente a este último.

Educação injusta
(...) 

A educação - outro problema calamitoso - também não deu [esta semana] boas notícias com a perspectiva do fim das reprovações. Há uns meses, numa conferência em S. Francisco na Califórnia, um professor americano já reformado, que escreveu muito sobre Espanha e também sobre Portugal, perguntou-me qual a razão dos maus resultados do ensino nacional. Depois de uma longa conversa em que mostrei que os recursos financeiros, humanos e materiais eram dos melhores da Europa, [admiti que] os resultados brilhavam pela ausência. A finalizar, disse-lhe que boa parte da culpa também era deles, americanos. Perante a surpresa, expliquei-lhe que no final dos anos 60 (ou princípios de setenta), um ministro da Educação tivera a ingenuidade de mandar umas dezenas de pessoas estudar "ciências da educação" nos Estados Unidos. Ele interrompeu-me, perguntando: não me diga que foram para Boston! - Exactamente, disse-lhe. O meu amigo respirou fundo e calmamente concluiu: então, o caso é mesmo muito grave. (*)

E é, de facto, muito grave. A filosofia das Escolas de Educação está patente há muitos anos na abordagem ao ensino em Portugal e os resultados estão à vista. Estou certo que a intenção da ministra é a melhor; li a sua entrevista e ouvi atentamente muitas das explicações que se lhe seguiram e não advogou (explicitamente) o fim administrativo dos chumbos. Desejou apenas pôr à discussão; aqui fica o meu contributo.

As reprovações são necessárias e não se avaliam, principalmente, pelos efeitos que têm nos alunos que chumbam. As reprovações são úteis para os alunos que passam porque estudaram. É o prémio; é para evitar a vergonha da reprovação que os alunos se aplicam mais. Qualquer um de nós (incluindo eu próprio) se lembra que esteve, normalmente pelos 14 anos, à beira de chumbar, o que só não terá acontecido pelo esforço final para evitar o vexame. (**)  É a cultura da responsabilidade que está em causa

Educar é preparar para a vida. Não conheço melhor definição de educação. Essa preparação é não só técnica e científica, mas também ética e cívica. É ser capaz de lidar com o stress, com a pressão temporal e até com a injustiça. É ser capaz de definir objectivos, trabalhar por eles e alcançá-los. E esperar o reconhecimento por isso. Os exames e os resultados com aprovações, reprovações e com notas de zero a vinte foram necessários e são importantes. Aguentar a pressão de um exame faz também parte da aprendizagem.

Na vida estamos sempre a aprender e estamos sempre a ser avaliados. Tal como devia ser na escola. Há duas grandes diferenças entre a escola e a vida. Na escola, primeiro temos a lição e depois o exame. Na vida, primeiro temos o exame e só depois temos a lição, se percebermos onde errámos. Em segundo lugar, na escola aprendemos à custa da experiência de outros; na vida aprendemos à nossa custa, à custa dos nossos erros. Por tudo isto é que a escola é o meio mais eficiente de nos preparar para a vida.

Nós, que somos pais, várias vezes ouvimos os nossos filhos queixarem-se da injustiça de uma avaliação. A minha resposta era sempre a mesma: fala com o professor e tenta apresentar as tuas queixas, mas se no fim ficar tudo na mesma, aprendeste que a injustiça existe (***) e vais vê-la todos os dias no resto da tua vida. Aprendeste mais uma coisa.

Sem justiça não há cidadania nem vida democrática #. Sem uma boa escola não há justiça social. Hoje temos um ensino, porque laxista, mais injusto do que há 40 anos: os filhos dos mais pobres ficam condenados a serem pobres. Não sou especialista em educação e sei ainda menos de justiça #. Mas sei ver os resultados. Da mesma forma que não sei cozinhar decentemente, mas sei apreciar uma boa refeição.

Luís Campos e Cunha, professor universitário


notas:

(*) fazia eu os meus dois anos de estágio pedagógico, já nos anos oitenta, e ainda se gozava com as mirabolantes pedagogias dos então chamados  mestrados "da bosta" ..

(**) o que me diz a experiência enquanto professora do 3.º ciclo e secundário.é que poucos são os alunos que, nos tempos que correm, consideram um vexame chumbar por notas; o que, sim, os preocupa, é reprovarem por faltas, não pela vergonha, mas pelo eventual castigo parental.

(***) eu acrescentaria: ... ou que, afinal, as tuas queixas eram injustificadas ..

de chumbos e pais

 recebido via mail, ..

Por: João Pereira Coutinho, Colunista (CM)
Desarranjo mental ou a carnificina dos tempos modernos

Que o Ministério da Educação queira acabar com os 'chumbos', não admira. Toda a filosofia do ensino português, nos últimos longos anos, apontava para essa utopia igualitária: o fim da exigência pedagógica e o enterro de qualquer noção de excelência intelectual.

O que admira é a reacção da Confederação Nacional das Associações de Pais, que aplaude a medida e considera a pretensão da dra. Isabel Alçada "a maior revolução na educação desde o 25 de Abril".

Engraçado. Se alguém estivesse a preparar um crime destes sobre a formação académica de um filho meu, a única atitude sensata seria a náusea, a revolta, eventualmente a emigração.

As nossas associações de pais, pelo contrário, sentem orgulho e até gratidão. Porque imaginam que esta simpática fraude irá depositar nas mãos dos filhos o diploma de fantasia com que eles enfrentarão o mundo real.

Não é difícil imaginar a carnificina do arranjo. Difícil é contemplar o sorriso dos pais de hoje pelos filhos analfabetos e imprestáveis que terão amanhã.

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ver também:
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05 agosto 2010

o pobre portugal dos doutores


Sobre o artigo "uma proposta falsa", que eu dividiria em 2 partes, a 1º da autoria de Miguel Reis-professor, e a 2ª, de Miguel Reis-dirigente do BE, vem-me à memória o desabafo de uma aluna da minha DT do 10.º ano:

«O que eu adorava mesmo era ser chefe de cozinha, mas vou para Direito, a minha tia disse que era melhor. Mas depois quero fazer o que me dá prazer, e ainda hei-de realizar o meu sonho, abrir um restaurante meu!»

imagem de Alfred Gockel, Moon Dance


este post continua aqui


04 agosto 2010

Santana Castilho e a 'poucochinha' Isabel

e..  que outro país seria Portugal, se este homem fosse ministro da Educação, melhor ainda, 1º ministro, já pensaram?

Pergunto-me: será que Isabel Alçada, José Sócrates, Cavaco Silva, não o conhecem? Será que nunca o leram? Será que, tendo-o lido, não lhe reconhecem a justeza das ideias, a honestidade das posições? Não os incomoda, a eles, a pequenez dos seus podres intelectos, a risibilidade e a perigosidade das insensatas medidas políticas que teimam em implementar?

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A ministra ignora ou esconde?
Santana Castilho *

Quando exprime certezas, erra grosseiramente. Quando responde, afunda-se em equívocos. Quando analisa, não vê os factos. Catita no vestir e no pentear, eis Isabel, leve no pensar, ministra da Educação e fantasista por compulsão.

A vacuidade e a imprecisão continuada do discurso, primeiro em entrevista ao Expresso de 31 de Julho, depois a vários canais televisivos para emendar a proposta de banir os chumbos, obriga ao exercício penoso de contraditar e esclarecer. Não cabendo tudo, escolho o mais danoso. O Expresso perguntou: pondera então alterar as regras de avaliação durante o seu mandato? A ministra respondeu: pondero. O Expresso insistiu: e está disposta a lançar esse debate para acabar com os chumbos? A ministra respondeu: sem dúvida. O Expresso considerou: muitos dificilmente concordarão com o fim da retenção. A ministra respondeu: por uma questão de tradição. Quando se deu conta da leviandade da proposta e de que muitos não concordavam, a ministra veio às televisões dar o dito por não dito, socorrendo-se dos países do norte da Europa, cuja realidade ignora.

O objectivo de qualquer sistema de ensino é que todos aprendam. Mas em todos os sistemas há os que falham. A quantidade dos que falham é consequência de uma gama enorme de variáveis. Umas podem ser intervencionadas directamente pela escola e pelos professores. Outras não. Dependem dos próprios alunos. Das famílias. Da cultura vigente. Da consciência cívica dominante. Da qualidade dos sistemas políticos, da competência dos que mandam, da natureza das escolhas que são feitas e das prioridades que se estabelecem. Os métodos pedagógicos variam. Mas nenhum sistema sério diploma a ignorância como tem sido feito pelos dois últimos governos de Portugal. Esta é a questão e este é o conceito do tradicional chumbo: enquanto um cidadão não sabe o que está estipulado, o Estado sério não diz que ele sabe. E assim postas as coisas, obviamente que há chumbos nos países do norte da Europa. 
Invoco, por todos, o caso da Noruega e socorro-me da publicação oficial “Facts About Education in Norway, 2010”. Na página 11 verifica-se que só 56 por cento dos alunos do secundário completaram o respectivo ciclo de estudos no tempo previsto. Houve 27 por cento de abandonos ou chumbos, 12 por cento que necessitaram de mais tempo e 6 por cento que ainda o tentavam concluir no momento da recolha dos dados (27+12+6 dá 45 e não 44, mas o erro é da própria publicação citada). Não se chumba lá? Nas páginas 22 e 23 estão as tabelas da relação do número de alunos para cada professor: 4 no pré-escolar, 12 no básico, 8,5 no secundário e 11,9 no superior. 
Ora a nossa ministra da Educação disse ao Expresso que turmas de 15 e menos alunos apresentam baixas taxas de sucesso, quando ela sabe bem que essas são turmas com os alunos mais problemáticos do nosso sistema e só por isso, que não pela dimensão, registam baixos índices de aproveitamento. Foi séria tal referência? Na página 8 da publicação que cito, verificamos que mais de 40 por cento das escolas básicas da Noruega são de reduzida dimensão, tendo crianças de idades e níveis diferentes a serem leccionadas na mesma sala (escândalo, paradigma de outro século, segundo os cânones de Isabel Alçada). Se formos à Suécia, a situação é análoga. Os países do norte fazem o contrário do que aqui acaba de ser imposto. Como comentaria a ministra se a tivessem confrontado com a realidade que ignora ou manipula? 

Referindo-se às competências que os alunos devem adquirir no ensino básico, a ministra teve o topete de dizer ao Expresso que “nem existe documento que as defina”. Grosseira mentira. Existe e sobre ele correram rios de tinta.

Isabel Alçada distorceu os factos quando falou de Inglaterra, onde o insucesso escolar está na ordem do dia. Basta só ver o número dos que não obtêm o certificado que lhes abre as portas das universidades.

Isabel Alçada não faz a mínima ideia do que se passa na Finlândia ou finge que não sabe, o que é pior. Mais de um quarto dos alunos do sistema tem apoios complementares e 8,5 por cento são objecto de educação especial, segundo uma tipologia rigorosa que aqui foi banida. Todo o ensino é totalmente gratuito e a profissão de professor é das mais prestigiadas. Os normativos duram décadas. O direito ao ensino obrigatório pode ser revogado se os alunos não cumprirem as regras. Um comité aprecia as infracções e pode determinar soluções alternativas. Esta é uma questão tabu que não se discute entre nós, por complexos políticos. Boa parte dos alunos que não aprende nem deixa aprender não quer estar na escola. As famílias desses alunos pensam e agem como eles. Faltam, agridem, perturbam e nada acontece. Realidade bem diferente da dos países do norte da Europa, onde a fortíssima consciência e cultura cívicas impedem situação semelhante.

Termino com números, colhidos das estatísticas oficiais da OCDE e relativos a 2006, expressos em dólares americanos. Portugal gastou com cada aluno do básico, secundário e superior, por ano, respectivamente, 5908, 7052 e 9724. Pela mesma ordem, eis os gastos dos nórdicos. Finlândia: 7570, 6585 e 12845. Noruega: 9781, 12559 e 16235. Dinamarca: 8854, 10400 e 15391. Suécia: 8032, 8610 e 16991. Se atendermos ainda a que desde 2005 as nossas despesas com a educação diminuíram sempre e fortemente, o contraste diz o que Isabel Alçada escondeu.


* Professor do ensino superior

in jornal Público, 4/8/2010