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28 fevereiro 2011

A maior desgraça de uma nação pobre

por
Mia Couto,

POBRES DOS NOSSOS RICOS

A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.
Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos".
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem ... 

Mia Couto


imagem (esticada) de Botero

15 novembro 2009

Vimos à vida para sonhar


Descobri este poema em forma de carta, de Mia Couto, que traduz bem o que eu e muitas pessoas sentimos neste momento. Especificando: o que sentem muitos professores, bem como todos aqueles que se preocupam com o rumo da Educação neste país.
A equipa ministerial de Maria de Lurdes Rodrigues encarregou-se da tenebrosa tarefa de cercear a liberdade criativa de professores,alunos e até Pais, transmitindo , em cada alínea legislativa nova, a vontade de sepultar a iniciativa e a liberdade de um povo que se deseja (ainda mais) amorfo, (ainda mais incapaz) de pensar por si; transformando, através do seu sistema "educativo", os cidadãos do Presente e do Futuro em meras formiguinhas cegas e mudas. Formiguinhas de trabalho sem direitos, de cabeça baixa, sincronizadas.
Não sei em que contexto terá surgido este poema de Mia Couto, mas ele abre-nos, neste momento, a porta possível para quem tenta resistir a toda esta loucura de tirania e corrupção que se apossou do país e que o está a delapidar.
Poderão ver alguns esperança no novo ME, com carinhas novas, mel a escorrer das bocas e promessas mil, mas já se viu há muito (só quem quiser aceitar esse papel de cego expectante é que não vê) que se trata apenas de uma estratégia para ganhar tempo e dar os factos --- as ilegalidades e sevícias mil impostas à Escola Pública-- por "consumados". O mesmo estilo com que facilmente se protelam e arquivam casos escandalosos na nossa Justiça.
Fica-nos o dom de sonhar e de nos nossos sonhos mais ou menos solitários e solidários irem "matando", com armas diferentes, esses traidores de Portugal e da Humanidade.
Eis então:
CARTA
(digo dos que se ditam: a minha defesa são os vossos punhais)
Quando me disseram "não se vem à vida para sonhar" passei a odiar-vos.Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir.
Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas, Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde,quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?
Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente.Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.
O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Erram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.
(Outubro 1981)

07 fevereiro 2009

Mia Couto: e se Obama fosse africano?


Texto do escritor moçambicano Mia Couto. Desapaixonado, lúcido, e dorido. Elucidativo, também .. Não deixem de ler!

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.



postado por ana lima em 16/11/2008

30 maio 2010

o' p'ra mim no Público de ontem! :-)

clicar na foto para ampliar

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A notícia, no P2, era uma efeméride: "No passado 29 de Maio de 1991", e referia-se à atribuição do prémio Camões ao poeta moçambicano José Craveirinha. Tudo certo, até aqui. Só a foto (e eu estou lá e lembro-me! :) não tem nada a ver com o assunto..

Era o dia dos meus anos. Em Estocolmo, José Saramago recebia o Nobel da Literatura 1998 e na Aula Magna da reitoria da Universidade Clássica de Lisboa rendia-se-lhe homenagem. Houve discursos no início - entre eles de Manuel Maria Carrilho, o ministro da Cultura de então, e música no fim, ao que me lembro com o Sérgio Godinho.. Havia um ecrã gigante que permitia acompanhar a cerimónia. Na plateia, muitos anónimos fãs de José Saramago (moi, par ex..) e um punhado de escritores lusófonos, alguns deles identificáveis na foto, nomeadamente o José Craveirinha. E o Mia Couto, que conheci nesse dia.
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25 abril 2010

saudade

.. do futuro, de um sonho a cumprir ..
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.. e uma citação que a Em@ usa em cada mail:


      
      "A saudade 
       é uma tatuagem na alma
       só nos livramos dela 
       perdendo um pedaço de nós."
 .

   in "O outro pé da sereia", Mia Couto 
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07 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: venenos de deus, remédios do diabo

  • Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias.
  • Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias.
  • Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias.
  • Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas.
  • Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias.
  • Aos 6o ainda temos ideias, mas esquecemos do que estávamos a pensar.
  • Aos 70, só pensar já nos faz dormir.
  • Aos 80 só pensamos quando dormimos.
fala de Bartolomeu Sozinho, mais filósofo que marinheiro, personagem de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, o último romance do escritor moçambicano Mia Couto. (clicar no nome para ler entrevista no JL)

a.l., em 28/11/2008