A poesia é vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
-e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio......
A poesia é a vida ? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro, e a morte se meta de permeio.
Alexandre O'Neill
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14 setembro 2011
24 agosto 2011
the moment
THE MOMENT
The moment when, after many years
of hard work and a long voyage
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,
is the same moment when the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.
No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
climbing the hill, planting the flag, proclaiming.
We never belonged to you. You never found us.
It was always the other way round.
The moment when, after many years
of hard work and a long voyage
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,
is the same moment when the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.
No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
climbing the hill, planting the flag, proclaiming.
We never belonged to you. You never found us.
It was always the other way round.
Margaret Atwood
25 julho 2011
a poem a day keeps the devil away
.
o título é de uma página do FB, criada há pouco tempo..
uma ideia feliz, um oasis ..
está aqui
*
Al Berto
o título é de uma página do FB, criada há pouco tempo..
uma ideia feliz, um oasis ..
está aqui
*
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
. Al Berto
23 julho 2011
Poema Pouco Original do Medo
.
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
.
de Alexandre O'Neill
| de J.Jean, 'intervencionado' |
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
.
17 julho 2011
remoto-maremoto-terramoto-moto-too
.
O que é um Romance? Um romance é aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…
Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
.
O que é um Romance? Um romance é aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
.
.
Mais Nada se Move em Cima do Papel
.
mais nada se move em cima do papelnenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto, “O Medo”
texto e poema retirados daqui
.
12 julho 2011
Ora Até que Enfim
Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
mais poemas de A.C. : aqui
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...
Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!
Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
mais poemas de A.C. : aqui
11 julho 2011
escrevo o teu nome ..
.
... e
vou-me,
com um beijo.
.
Ordem e Turbulência do Amor
.
Para começar citarei os elementos
A tua voz os teus olhos as tuas mãos os teus lábios
![]() |
| Paul Éluard |
Eu vivo sobre esta terra e pergunto-me
Se nela viveria se tu nela não estivesses também
Neste banho postado em face
Do mar de água doce
Neste banho que a chama
Edificou nos nossos olhos
Este banho de lágrimas jubilosas
Em que penetrei
Pela virtude das tuas mãos
Pela graça dos teus lábios
Este estado humano primordial
Como uma pradaria dos começos
Os nossos silêncios as nossas palavras
A luz que se vai
A luz que de novo volta
A aurora e o crespúsculo fazem-nos rir
No cerne do nosso corpo
Tudo se torna flor e amadurece
Sobre a palha da tua vida
Onde deito a velha carcaça
Em que me tornei por fim.
.
Paul Éluard, in “últimos poemas de amor” relógio d’água, 2002
trad. Maria Gabriela Llansol
poema retirado daqui
foto retirada daqui .
Liberdade
.
Nos meus cadernos de estudante
Na escrivaninha e nas árvores
Na areia nevada
Escrevo o teu nome
Nas páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome
Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome
Na selva e no deserto
Nos ninhos entre as giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome
Nos meus trapos de caloiro
No açude de sol bafiento
No lago de lua esperta
Escrevo o teu nome
Nos campos no horizonte
Nas asas dos passarinhos
No moinho tenebroso
Escrevo o teu nome
Em cada sopro da manhã
No mar e nos navios
Na insensata montanha
Escrevo o teu nome
Na espuma das nuvens
E nos suores da borrasca
Na chuva densa e insípida
Escrevo o teu nome
Nas formas cintilantes
Nas cores dos sinos
Na verdade física
Escrevo o teu nome
Nos caminhos conscientes
Nas estradas estendidas
Nas praças que trasbordam
Escrevo o teu nome
Na lâmpada que se acende
E naquela que se apaga
Nas minhas razões reunidas
Escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome
No meu cão glutão e terno
De orelhas levantadas
Na sua pata desastrada
Escrevo o teu nome
No limiar da minha porta
Nos objectos familiares
No rolo de fogo sagrado
Escrevo o teu nome
Em toda carne acordada
Na testa dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
Na janela de surpresas
E nos lábios comoventes
Mais longe que o silêncio
Escrevo o teu nome
Nos refúgios destruídos
Nos meus faróis extintos
Nos muros do meu tédio
Escrevo o teu nome
Na vacuidade sem desejo
Na desnuda solidão
Nas escadas da morte
Escrevo o teu nome
Na saúde reencontrada
No risco extraviado
Na fé sem recordação
Escrevo o teu nome
E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear.
Paul Éluard
in Poésies et vérités, 1942
Tradução: Fernando Oliveira
retirado daqui
10 julho 2011
![]() |
| Chagall (i. esticada) |
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição dos seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo,
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho concebê-lo!
Sossega, coração! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
F. Pessoa
Ler mais:
07 julho 2011
a política e Miguel Torga
.
“ A política é para eles uma promoção e para mim uma aflição.
Separa-nos um fosso da largura da verdade …
Ouvir um político é ouvir um papagaio insincero.”
Miguel Torga (1907-1995)
.
Conquista
Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
.Identidade
Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.
Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.
Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório'
..
"Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além."
Fonte - Diário (1937)
.biografia de Miguel Torga: http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=260
.
13 junho 2011
porque ..
A Lucidez Perigosa
![]() |
| de Paula Rego |
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
![]() |
| de Helena Almeida |
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector
*
Estou vivo e escrevo sol
Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
![]() |
| de Artur Bual |
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde
António Ramos Rosa
de Estou Vivo E Escrevo Sol (1966)
*
![]() |
| de Graça Morais |
Vontade de dormir
Fios de oiro puxam por mim
a soerguer-me na poeira —
Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte...
— Ai que saudade da morte...
Quero dormir... ancorar...
Arranquem-me esta grandeza!
— P’ra que me sonha a beleza
Se a não posso transmigrar?...
Mário de Sá-Carneiro
*
Invento
Deponho
![]() |
| de Vieira da Silva |
a pulso
subindo pela fímbria
do despido
Porque nada é verdade
se eu invento
o avesso daquilo que é vestido
Maria Teresa Horta
todos os poemas retirados do site As Tormentas
a criança que fui
no 123.º aniversário do poeta..
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando Pessoa
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935)
06 dezembro 2010
Omar Khayyam
Fazer um post sobre Omar Khayyam é tarefa para muitas horas, de que não disponho agora. Acontece apetecer-me a poesia, necessitá-la hoje como um ar que se sorve, uma onda que me leve, lave. Chega de política e da sua feiura. Anseio pelo dia em que consiga passar-lhe completamente ao lado, felizmente ignorante-íssima dos seus sujos meandros.
*
Khayyam, então: o enigma, o fascínio em volta, começa logo pelo nome, cuja grafia vai divergindo de fonte para fonte, às vezes dentro do mesmo documento:
*
Khayyam, então: o enigma, o fascínio em volta, começa logo pelo nome, cuja grafia vai divergindo de fonte para fonte, às vezes dentro do mesmo documento:
Khayyám, Khayyam, Khayyan, Khayam
Omar Khayyām (1048-1131) foi um poeta, filósofo, matemático e astrónomo da Pérsia (agora Irão). O seu nome completo era Ghiyath al-Din Abu'l-Fath Umar ibn Ibrahim Al-Nishapuri al-Khayyami (em persa: غیاث الدین ابو الفتح عمر بن ابراهیم خیام نیشاپوری).
Khayyām calculou como corrigir o calendário persa, contribuiu em álgebra com o método para resolver equações cúbicas pela intersecção de uma parábola com um círculo, que viria a ser retomada séculos depois por Descartes.
Como poeta é conhecido pelos Rubaiyat - que se calcula rondarem os dois mil - e que ficariam famosos no Ocidente a partir da tradução de Edward Fitzgerald, em 1839. - fonte
*
![]() |
| mausoléu de Omar Khayyam em Nishapur |
Para Khayyam o que existe é o momento presente, o seu ensinamento um carpe diem incontornável - o paraíso, o aqui e agora: o amor, as belas mulheres, e o vinho. O vinho, rubro como os lábios de uma mulher, uma fuga de si, um escapar à consciência do vazio. Tudo é nada: a ciência dos homens, a palavra dos sábios e dos astros.. Sofrimento, desilusão, sombras, morte. Esgotar a taça do prazer, a única, tangível opção: quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as tulipas, os jasmins...
.
«Puesto que ignoras lo que te reserva el mañana,
procura ser dichoso hoy. Toma un jarro de vino,
ven a sentarte al claro de la luna y bebe
pensando que talvez manãna ella te busque en vano.»
*
- de Alfredo Braga, que o estudou e traduziu, toda a informação que segue e a tradução de alguns dos Rubaiyat em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/rubayat.html
- Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; Omar adoptou esse nome em memória do pai, que era fabricante de tendas.
- Rubaiyat é o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. No rubai, o primeiro, o segundo e o quarto versos são rimados, o terceiro é branco.
(...) Se formos ler os Rubaiyat, em qualquer tradução, encontraremos, além de Jorge Luís Borges, Pessoa, ou Whitmam, que não o traduziram, mas que o conheciam. (...)
*
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
Odes De Ricardo Reis
OS RUBAYAT
de Omar Khayyan
*
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
*
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
*
Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
*
Há tanto tempo giram os astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.
*
O bem e o mal se entrelaçam no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem o acuses:
Ele é indiferente.
*
Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.
Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.
*
O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se consumindo no prazer e na dor.
Cansado de perguntar aos sábios, perguntei à taça:
Para onde irei depois da morte?
Ela me respondeu baixinho: Bebe em minha boca,
bebe longamente: não voltarás
*
O que farei hoje? Ir à taverna? Ler um livro?
Um pássaro passa. Aonde irá? Já não o vejo.
Embriaguez de uma ave no céu azul e morno;
melancolia de um homem que ainda se lembra.
*
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.© 2003 — Omar Khayyan
Versão em português
© 2003 Alfredo Braga
.
30 novembro 2010
Luís Miguel Nava, in memoriam

EM SINTRA
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
Luís Miguel Nava [1957-1995]
Películas (1979) - In Poesia Completa 1979-1994
retirado do site do Instituto Camões
*
Lembro-me dele criança, passeando com a mãe pelas ruas de Viseu. E recordo vagamente o adolescente esquivo, esgalgado, despenteado quase sempre, raramente (a)percebido, um raio atravessando sozinho as gentes e os dias, um vento buscando-se.
.
.
O Perry Nava, nome por que o conhecíamos, era um mito naquela cidade de então, provinciana, tacanha, pequena. Pela boca da minha mãe ia a espaços, ouvindo de desassombros seus que me faziam admirá-lo, invejar-lhe a impetuosidade meio louca, a ousadia precoce, aquela incontrolável franqueza.
E ouvia dessa inteligência aguda que os professores do nosso liceu reconheciam e elogiavam, da sua invulgar aptidão para a escrita, do rótulo de sobredotado, criança, adolescente.
Soube de uma composição sua num teste de português em que o tempo lhe foi escasso, uma única frase que nunca mais esqueci. O tema era o "dia de todos os santos", o Perry Nava (quase criança), poetizou-o assim:
.
E ouvia dessa inteligência aguda que os professores do nosso liceu reconheciam e elogiavam, da sua invulgar aptidão para a escrita, do rótulo de sobredotado, criança, adolescente.
Soube de uma composição sua num teste de português em que o tempo lhe foi escasso, uma única frase que nunca mais esqueci. O tema era o "dia de todos os santos", o Perry Nava (quase criança), poetizou-o assim:
.
Que me importa de morrer, se no cemitério há flores.
Não sei se haverá flores na sua campa, hoje. Sequer, se há uma campa. Luís Miguel Nava foi assassinado em Bruxelas, em 1995. Tinha 38 anos, deixou testamento (*) (- quem, assim jovem, pensa na morte a ponto de o fazer?) Antes, muito antes, publicara um livro de poemas (acho que prefaciado por Eugénio de Andrade), a que chamou "O Perdão da Puberdade", de que mais tarde veio a comprar todos os exemplares, retirando do mercado essa primeira, renegada obra. O Perry Nava de sempre, a inquietação que lhe adivinho constante. Como uma alma buscando-se. Ou como um vento.
(*) Dele resultou uma revista e uma fundação : aqui
*
O céu
.
.
Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
.
Onde há quem tenha a pele tenho a memória, sepultura
nenhuma atingirá profundidade igual à desta
nudez com quem a pele sempre tem sido hospitaleira.
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Sinto a romper na boca os dentes como a ventania.
Luís Miguel Nava
poemas retirados daqui
«Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva que neles caia não se escoa. »
Luís Nava no "Sons da escrita"
"A poesia de Luís Miguel Nava ocupa um lugar de especial relevo na Literatura Portuguesa Contemporânea. Segundo Eduardo Prado Coelho, estamos “perante uma das experiências literárias mais originais, perturbantes e apaixonantes da poesia portuguesa contemporânea”.
Gastão Cruz, falando do estilo de Nava, considera-o “a única presença verdadeiramente forte e diversa afirmada no panorama poético português dos anos 80…”
Nava abriu um caminho: um percurso estranho e contudo reconhecível, que conduz ao interior menos visitado do homem, alargando, ao mesmo tempo, as formas de comunicação com o quotidiano, ao aprofundar intensamente os vínculos que nos unem ao nosso próprio corpo. Habituados a um lirismo muitas vezes feito de metáforas domesticadas pelo uso reiterado, invade-nos uma sensação de desconforto ao entrarmos pela primeira vez no universo de uma poesia que faz do corpo o centro de irradiação de todos os sentidos e de todas as demandas.
É a partir do corpo que se organiza, de forma meticulosa e obsidiante, o mundo habitável e habitado desta poesia" (ler mais)
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22 novembro 2010
Poema Antigo
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O homem que percorro
com as mãos
e a lua que concebo
na altitude
do tédio
Só
o oceano
penso paralelo — ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio
ciclamens-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo — bússola
com raiz — grito de relevo
O homem que percorro
com as mãos
a estátua que consinto
a lua que concebo.
Maria Teresa Horta
poema retirado daqui
![]() |
| Odessa port-1898 |
O homem que percorro
com as mãos
e a lua que concebo
na altitude
do tédio
Só
o oceano
penso paralelo — ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio
ciclamens-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo — bússola
com raiz — grito de relevo
O homem que percorro
com as mãos
a estátua que consinto
a lua que concebo.
Maria Teresa Horta
poema retirado daqui
a imagem (esticada para abraçar o poema ..) é uma pintura de Wassily Kandinsky
30 outubro 2010
— Alexandre, leva o chapéu de chuva.
— Alexandre, leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, pai. Não chove.
— Chove. Leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, Pai.
— Já te disse para levares o guarda-chuva.
— Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço...
* a ler, mesmo!! - aqui
Perfilados de Medo :
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
foto e poema retirados de uma página que vale a pena! :
lacricrimejante
ou vociferante
ao cri-cri da crítica.
Abaixo a política!
Antes a poesia,
que é coisa mais séria.
Seria?
(retirado daqui - onde há mais poemas do O'Neill ..)
— Não é preciso, pai. Não chove.
— Chove. Leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, Pai.
— Já te disse para levares o guarda-chuva.
— Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço...
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Esteve 16 anos sem ver o pai e passou a dividir um atelier numas águas-furtadas de um prédio antigo, na Avenida da Liberdade, com Cesariny e António Domingues.
Esteve 16 anos sem ver o pai e passou a dividir um atelier numas águas-furtadas de um prédio antigo, na Avenida da Liberdade, com Cesariny e António Domingues.
o diálogo, o desenlace, tudo excertos da Biografia * de Alexandre O'Neill, que começa assim:
«Lisboeta com nome de aristocrata irlandês, Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu a 19 de Dezembro de 1924, na Avenida Fontes Pereira de Melo. (...) »
* a ler, mesmo!! - aqui do homem que achava que a poesia seria mais séria que a política **, um poema que podia ter sido escrito hoje:
Perfilados de Medo :
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
foto e poema retirados de uma página que vale a pena! :
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**
Crocodiletante**
lacricrimejante
ou vociferante
ao cri-cri da crítica.
Abaixo a política!
Antes a poesia,
que é coisa mais séria.
Seria?
(retirado daqui - onde há mais poemas do O'Neill ..)
29 outubro 2010
spectacular "papergirl"
"TENNESSEE" MARY FONS (an Iowa native) has been writing and performing her poetry and other solo works around the country for the better part of 5 years. She has been the featured performer in over 30 poetry slam venues Visit www.maryfons.com for more, more, more! (fonte)
*
Mary Fons is one of the most vulnerable Chicago poets I have ever seen. I say she is vulnerable because she pours her heart and soul into her poetry and examines herself with little self-censorship, and that is not a safe thing to do. It is this vulnerability that makes the poetry in Fons' chapbook the texas EP so rich, heartfelt and dare I say entertaining.
Fons' delightful talent at non-narrative story-telling, along with the shear musicality of the language she chooses, puts an impressive spin on this age old quest for the meaning of love. Through closer examination, however, the quest for the meaning of love becomes but a sub-theme of a much larger point: staying optimistic in a screwed up world. (ler mais)
letra do poema, aqui
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24 outubro 2010
The Sylvia Plath Effect:
A WARM, TORTURED SOUL
Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.
O que vos vem à cabeça quando pensam em Sylvia Plath? (1932-1963)
Que tal Virginia Woolf ? (1982-1941)
Ou .. Sarah Kane ? (1971-1999)
*
Todas elas artistas ímpares, todas extremamente reputadas no mundo da arte e da literatura, todas elas mulheres ... Todas tentaram, e conseguiram, pôr fim às próprias vidas. - ler mais
Sarah Kane by Aleks Sierz:"Haverá algumas pessoas que se matam", escreveu Al Alvarez em The Savage God, o seu clássico estudo sobre o suicídio, de 1971, "com o intuito de alcançarem a calma e o controle que nunca encontram em vida". No caso da poeta Sylvia Plath, uma amiga pessoal que se suicidara em 1963, é sua convicção de que o suicídio "foi um meio desesperado para conseguir sair do 'recanto' em que ela própria se tinha encerrado."
A história de Sarah Kane, a dramaturga de 28 anos que se enforcou em 20 de Fevereiro de 1999, faz inevitavelmente pensar em Plath. De novo, aqui tínhamos um jovem talento, precoce mas auto-destrutivo, cuja morte alterou o modo como agora olhamos o seu trabalho... fonte
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alunos de teatro declamam excertos da peça 'Crave', de Sarah Kane: um hino ao amor .. aos seus desencontros .. à plenitude de um sentimento nada linear .. lindo, lindo!
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22 outubro 2010
as moscas sim, que mudam ....
de
JOSÉ RÉGIO, (ver link)
Soneto quase inédito
Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.
Soneto escrito em 1969.
casa museu José Régio: ver
JOSÉ RÉGIO, (ver link)Soneto quase inédito
Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.
Soneto escrito em 1969.
casa museu José Régio: ver
a imagem (esticada), 'cara suspensa', de Artur Bual
Sylvia Plath, in memoriam
Nascida em Boston, USA, em 1932: poetisa, romancista
PALAVRAS
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
.
WORDS
Axes
After whose stroke the wood rings,
And the echoes!
Echoes traveling
Off from the center like horses.
The sap
Wells like tears, like the
Water striving
To re-establish its mirror
Over the rock
That drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens.
Years later I
Encounter them on the road---
Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.
fonte
Em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia Plath , 30 anos de idade, mãe de 2 filhos, suicida-se inspirando gás na cozinha da sua casa em Londres
- Sylvia Plath's website: aqui
- dedicated to Sylvia Plath : aqui
PALAVRAS
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
(tradução de Ana Cristina César)
fonte ![]() |
| campa de Sylvia Plath, em Yorkshire |
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WORDS
Axes
After whose stroke the wood rings,
And the echoes!
Echoes traveling
Off from the center like horses.
The sap
Wells like tears, like the
Water striving
To re-establish its mirror
Over the rock
That drops and turns,
A white skull,
Eaten by weedy greens.
Years later I
Encounter them on the road---
Words dry and riderless,
The indefatigable hoof-taps.
While
From the bottom of the pool, fixed stars
Govern a life.
20 outubro 2010
Rimbaud, poeta simbolista e visionário
ARTHUR RIMBAUD (1854 – 1891) nasceu num dia 20 de Outubro, faz hoje 156 anos.
Sobre o poeta, integralmente retirado daqui:
«O que Mallarmé não parece ter adivinhado é que o "Viajante notável" voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda, o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta, rebelde.»
~ Georges Duhamel ~
«Esta página é um ensaio biográfico de uma das pessoas mais extraordinárias que já apareceram sobre a terra. Arthur Rimbaud foi um milagre, um fenómeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu génio mesmo.
Ficamos desconcertados ao saber da existência de um adolescente que compôs, entre quinze e dezanove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento então inviolados.
Ficamos confusos face à ideia de que este personagem tenha inexoravelmente renunciado à literatura aos dezanove anos e que, na segunda fase de sua breve existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos.
Assim foi a vida trágica de Arthur Rimbaud, um dos únicos na história dos homens. »
citações de Rimbaud:
- Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.
- Acredito que estou no inferno, portanto estou nele.
Ophélia
I
Sur l'onde
calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles ...
On entend dans les bois lointains des hallalis.
Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir.
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir.
Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s'inclinent les roseaux.
Les nénuphars froissés soupirent autour d'elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid d'où s'échappe un petit frisson d'aile:
Un chant mystérieux tombe des astres d'or.
II
Ô pâle Ophélia, belle comme la neige!Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!
- C'est que les vents tombant des grands monts de Norvège
T'avaient parlé tout bas de l'âpre liberté;
C'est qu'un souffle inconnu, fouettant ta chevelure,
A ton esprit rêveur portait d'étranges bruits;
Que ton cœur entendait la voix de la Nature
Dans les plaines de l'arbre et les soupirs des nuits;
C'est que la voix des mers, comme un immense râle,
Brisait ton sein d'enfant trop humain et trop doux;
C'est qu'un matin d'avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s'assit, muet, à tes genoux !
Ciel, Amour, Liberté : quel rêve, ô pauvre Folle!
Tu te fondais à lui comme une neige au feu:
Tes grandes visions étranglaient ta parole
- Et l'Infini terrible effara ton œil bleu.
III
- Et le Poète dit qu'aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis;
Et qu'il a vu sur l'eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys !
A. Rimbaud, Mai 1870
retirado daqui (ver tradução em português)
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