30 outubro 2010

— Alexandre, leva o chapéu de chuva.

— Alexandre, leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, pai. Não chove.
— Chove. Leva o chapéu de chuva.
— Não é preciso, Pai.
— Já te disse para levares o guarda-chuva.
— Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço...
.
Esteve 16 anos sem ver o pai e passou a dividir um atelier numas águas-furtadas de um prédio antigo, na Avenida da Liberdade, com Cesariny e António Domingues.


o diálogo, o desenlace, tudo excertos da Biografia * de Alexandre O'Neill, que começa assim:
«Lisboeta com nome de aristocrata irlandês, Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu a 19 de Dezembro de 1924, na Avenida Fontes Pereira de Melo. (...) »

* a ler, mesmo!! - aqui            


do homem que achava que a poesia seria mais séria que a política **, um poema que podia ter sido escrito hoje:

Perfilados de Medo :

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...


foto e poema retirados de uma página que vale a pena! :
.
**
Crocodiletante
lacricrimejante
ou vociferante
ao cri-cri da crítica.
Abaixo a política!
Antes a poesia,
que é coisa mais séria.
Seria?

(retirado daqui - onde há mais poemas do O'Neill ..)

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