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15 maio 2010

Caio Fernando Abreu


Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago (RS). Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico (...)
No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas (SP). 
Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais .. - morreu em 1996.     ler mais aqui  (site que recomendo, com belos textos seus, alguns ilustrados) 


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um texto seu que acho muito bonito, retirado daqui :

Dois ou três almoços, uns silêncios
Fragmentos disso que chamados de "minha vida"

(por Caio Fernando Abreu)


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)
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a não perder, também: citações de Caio Fernando Abreu, aqui
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06 fevereiro 2010

pandora and the angelic darkness ..

O romance de Richard Zimler (The Angelic Darkness /  Trevas de Luz, 1998) , e o filme de James Cameron (Avatar, 2009) cativaram-me, comoveram-me, pela mesma razão: o resgatar da possibilidade. 
A possibilidade de retorno a uma inocência primordial, a um mundo novo; a possibilidade do despedir-se de si , 'eu'-gaiola, prisão. A possibilidade de, enfim, nascer de novo. redesenhado, limpo, espantado de existir. a vida toda oferecendo-se futuro, descoberta, branco.
[ não sei por que escolhi a imagem acima, entre todas as possibilidades. chama-se 'le vent'.. ]

Há, no romance e no filme, uma aprendizagem, uma viagem para dentro que conduz os personagens principais a uma redescoberta, um aceitar-se, um querer-se outro: em Trevas de luz, a consciência / vivência da homossexualidade, em Avatar, a rejeição da predadora condição humana, o regresso ao mito do bom selvagem. São viagens penosas, semeadas de escolhos e de escombros: "tens de passar pelo inverno para chegar à primavera" (Trevas de Luz) - que nos envolvem, leitor, espectador, como uma pertença, cada um levando a cabo a sua própria viagem. E a possibilidade, a possibilidade! .. voltarmos outro, começar de novo..

E depois há o maravilhoso que perpassa pelo livro, pelo filme, improváveis anjos visitando-nos o caminho,   árvores  mágicas capazes de desvendarem  histórias, sementes que são almas e voam, a floresta-mãe, o início dos tempos. 
E há o sonho, criador de vida, construtor de memórias. Há a enigmática natureza das aves, " seres tão sagrados que as suas almas não podem estar acorrentadas à terra, por isso têm asas." (Trevas de Luz)
Há a beleza inquietante de Peter-andrógino, Peter-anjo, português de Angola. E há o povo azul de Pandora, comungando daquela natureza intocada, deslumbrante, a recordação idealizada e índia, o primitivo ansiado,  perdido, e o homem que louco, insaciável,  burro, 'matou a mãe', o planeta terra agora sem verde. 
E há a dança e a vertigem dos pássaros, cavalgados de azul.
Há a dança, a aprendizagem primeira.
A dança-libertação, a transfiguradora dança, sufi-swirling num ritual de apagamento, morte, vida. 
A Fénix renascida, eles, possivelmente, eu.




http://www.avatarmovie.com/index.html

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02 janeiro 2010

leituras

da Alexandra, que vive em Bruxelas, veio a sugestão, em forma de comentário ..


sugestões de leitura, hummmm que bom, doce como o chocolate belga! deixo uma sugestão tb: acabei de ler "A vida em surdina", David Lodge, irónico e delicado, divertido e às vezes patético,bem humorado até nos momentos difíceis - uma pequena lição de vida, uma boa dose de compreensão do mundo, uma mão pelo ombro, um sorriso inteligente, e em surdina reconciliamo-nos com o mundo; e até o poderás ler em inglês, é sempre bonito ler na língua original e cumpres o teu papel académico. bom natal, tchimtchim pra ti, e não te rales, o natal acaba depressa!

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16 dezembro 2009

Le Petit Prince, Antoine de St. Exupéry



un
extrait
du

dialogue

du

renard



(...) si tu m'apprivoises, ma vie sera comme ensoleillée.
Je connaîtrai un bruit de pas qui sera différent de tous les autres. Les autres pas me font rentrer sous terre.
Le tien m' appellera hors du terrier, comme une musique. Et puis regarde! Tu vois, là-bas, les champs de blé? Je ne mange pas de pain. Le blé pour moi est inutile. Les champs de blé ne me rappellent rien. Et ça, c'est triste!
Mais tu a des cheveux couleur d'or. Alors ce sera merveilleux quand tu m'aura apprivoisé! Le blé, qui est doré, me fera souvenir de toi. Et j'aimerai le bruit du vent dans le blé...

Le renard se tut et regarda longtemps le petit prince :

- S'il te plaît ... apprivoise-moi!
tradução aqui

15 dezembro 2009

Kahlil Gibran, poeta e filósofo

 poema dedicado aos filhos, dirigido aos pais  - tradução, aqui

And a woman who held a babe against her bosom said, "Speak to us of children."
And he said:

Your children are not your children.
They are the sons and daughters
of Life’s longing for itself.
They come through you
but not from you,
And though they are with you,
yet they belong not to you.
You may give them your love,
but not your thoughts,
For they have their own thoughts.
You may house their bodies
but not their souls,
For their souls dwell in the
house of tomorrow,
which you cannot visit, not
 even in your dreams.
You may strive to be like them,
but seek not to make them like you.
For life goes not backward
nor tarries with yesterday.
You are the bows from which
 your children as living arrows are sent forth.
The archer sees the mark upon
 the path of the infinite,
and He bends you with His might
that His arrows may go swift and far.
Let your bending in the Archer’s hand be
for gladness;
For even as He loves the arrow that flies,
so He loves the bow that is stable.


in 'The Prophet ' 



Caminho eternamente sobre estas margens, entre a areia e a espuma.
O fluxo do mar apagará a impressão dos meus passos,
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a margem permanecerão eternamente.

 
  
pintura e auto-retrato, por K. Gibran

14 dezembro 2009

Leda e o cisne

da mitologia grega




by Yeats, Leda and the swan

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.

Being so caught up,

So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

tradução, aqui

W. B. Yeats (1865-1939) poeta irlandês, prémio Nobel da Literatura em 1923


por Botero




de / com Fernando Botero, artista colombiano, videoclips  1   e  2


13 dezembro 2009

Álvaro de Campos, em descoberta

delícias de (re)descobrir Álvaro de Campos, coisas que não lhe sabia, nomeadamente o desassombrado vernáculo:

de Álvaro de Campos, "A alma humana é porca como um ânus" - Livro de Versos. Fernando Pessoa, Estampa, 1993.

A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!


também de A. Campos:




Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


  • sobre Álvaro de Campos, aqui
  • mais poemas de Álvaro de Campos, aqui 
  • sobre o período modernista em Portugal, ler/ ver aqui e aqui

02 dezembro 2009

novo romance de Paul Auster: Invisible


Escritor, argumentista, tradutor, ensaísta, realizador, marinheiro, inventor de um curioso jogo de cartas e muito mais, Paul Auster é considerado um nome cimeiro da literatura dos nossos dias. Nascido em 1947 em Newark, frequentou a Universidade de Columbia e residiu durante quatro anos em França, antes de se radicar em Nova Iorque, onde vive com a mulher, Siri Hustvedt. Distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura 2006, Paul Auster foi nomeado Comendador da Ordem das Artes e das Letras de França em 2007. Em 1993 a sua obra Leviathan recebeu o Prémio Médicis para o melhor romance estrangeiro. As Loucuras de Brooklyn recebeu em 2006 o Prémio Qué Leer dos Leitores para o melhor romance estrangeiro, distinção também dada a A Noite do Oráculo em 2004. A sua obra encontra-se traduzida em trinta línguas.   fonte


sobre 'Invisível', o 15.º romance de Paul Auster:

Nos romances de Paul Auster, as histórias são como caixas chinesas ou matrioscas russas que não apenas se encaixam sucessivamente como nascem umas das outras, multiplicando-se. Elas são mistérios, enigmas, desafios sempre inquietos, à procura de alguma solução em aberto. Diz quem o conhece que Auster frui e percepciona a vida com deleite e com uma pitada de distanciamento nas narinas, sempre a farejar o (im)previsível movimento das pessoas e das coisas. E que depois escreve. Os seus livros, artigos, críticas e até argumentos para o cinema são de uma (quase) absoluta precisão: cirúrgicos, inteligentes, pertinentes, quase oculares. As suas ficções constituem um misto de realismo e fantasia, teia de coincidências, ordem secreta do acaso e evocação biográfica respigada de memória (ingredientes para uma boa história), com fugidio aroma a Cortázar e a Beckett. Obra de referência da literatura pós-moderna, a sua Trilogia de Nova Iorque é, nesta medida, exemplar. Também este seu 15.º romance, um dos seus melhores, não escapa a este jogo de espelhos, ao caleidoscópio existencial e sensorial de Auster, em que o destino é uma espécie de partitura que cada um vai escrevendo e interpretando. Trata-se, pois, de uma narrativa de percurso intencionalmente serpenteante, com quatro partes entrecruzadas, que tem como ponto de partida Nova Iorque, na Primavera de 1967 – ano de crescente oposição à guerra do Vietname, de rescaldo do assassínio de Kennedy e do melhor rock psicadélico. Durante uma festa, Adam Walker, de 20 anos, um tímido aspirante a poeta, conhece o professor Rudolf Born, charmoso, manipulador, temível, e a sua enigmática e sedutora companheira, Margot, um casal francês pouco convencional. Deste encontro emerge um triângulo amoroso que viajará pelas fronteiras circulares, e quantas vezes crepusculares, do tempo, do sexo, da verdade e da identidade. E , claro, do sofrimento e da morte. Uma never ending story ao melhor estilo de Paul Auster, em que cada história tem sempre uma porta que se abre para outra história.

Crítica de Vítor Quelhas a Invisível, de Paul Auster,
publicada no suplemento Actual, do Expresso.


sb Paul Auster, neste blogue:  aqui  e  aqui

18 outubro 2009

um pouco de Shakespeare ..

HAMLET: To be, or not to be - that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune
Or to take arms against a sea of troubles
And by opposing end them.


To die, to sleep -
No more -

and by a sleep to say we end
the heartache
, and the thousand natural shocks
that flesh is heir to.

'Tis a consummation
Devoutly to be wished.

To die, to sleep ..

To sleep .. perchance to dream: ay, there's the rub,
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause.

[...]


dito, aqui, inteiro, em italiano.. lindo..

desenho de Gustav Klimmt

26 julho 2009

bocas - na literatura

A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

.........

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade



... ... ...


Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
início do capítulo 7, "O Jogo do Mundo"(Rayuela), Julio Cortázar


quadros de Gustav Klimmt

28 junho 2009

a literatura, as paixões: Kafka à Beira-Mar

É um romance do japonês Haruki Murakami e o personagem principal adoptou o nome Kafka, que, na sua língua, será o equivalente a 'corvo'.. nada, portanto, que tenha a ver com o checo Franz Kafka ..

Um dos mais populares escritores japoneses, Haruki Murakami nasceu em Kyoto em 1949. Cresceu em Kobe, cidade portuária que lhe rendeu uma visão de mundo cosmopolita, um dos pilares de sua obra. Seus dias de universidade foram caóticos e intensos, incluindo uma participação activa nos protestos contra a guerra do Vietnam. Formou-se em dramaturgia clássica no Departamento de Literatura da Universidade de Waseda. Pouco depois, montou um bar em Kokubunji, Tóquio, sobre o qual diria mais tarde: “Tudo que preciso saber na vida aprendi no meu bar de jazz.” fonte

Terá sido essa paixão pela música que explica as saborosas 'lições' que atravessam o romance e que vão transfigurando e enriquecendo personagens à partida mais débeis, dir-se-ia 'brancos', ou 'intocados', personagens 'na margem' .. e que vão absorvendo conhecimentos sobre música, literatura, pintura, filosofia .. o evidente pendor didáctico de Murakami, e a cultura assumindo uma função transformadora, e, em certa medida, redentora ..

Kafka à Beira-Mar é um daqueles livros que nos tira horas de sono, que não conseguimos parar de ler. O fascínio deriva do carácter dos personagens, por um lado, do factor suspense e de uma estrutura quase de romance policial, mas também (acho que sobretudo) da variedade de registos - dir-se-ia que dispostos em camadas - e que Murakami manipula com o à-vontade de um prestidigitador ..

Ao ler Kafka à Beira-Mar senti-me várias vezes transportada a memórias de outras leituras, de "As brumas de Avalon" à "Alice no País das maravilhas". Há neste romance incursões pelo maravilhoso, pela teoria das cordas e a física quântica, a tradição celta de endeusamento da natureza-mulher e mãe, a teoria da reencarnação..
Tudo eivado do mistério de uma cultura que reconhecemos alheia e de que não percebemos todos os contornos, mas que acaba por ser um factor mais de encantamento. Encantamento que passa pela estranheza, a doçura, a poesia dos personagens - todos eles à margem da lógica e do previsível, todos eles enredados em turbilhões de mistério, de sentimentos obscuros, e marcados pelo determinismo.. assim como as personagens trágicas dos clássicos gregos. Tudo muito rondando, também, o universo mágico dos contos infantis.
E, no entanto, Kafka à Beira-Mar é um romance bem adulto, ousado, sensual, e quase chocante na naturalidade com que assume comportamentos marginais.
  • Em Kafka à Beira-Mar há um velho deficiente mental que fala a linguagem dos gatos (seus únicos amigos..) , mais tarde também a das pedras.. Que provoca chuvas de peixes e sanguessugas e tem um destino a cumprir.
  • Há uma pedra mágica que abre (e fecha) portas para outros mundos, se alguém lhe souber 'falar'..
  • Há bosques encantados - lugares de definição e de ensinamento - que encerram os mistérios da vida e da morte..
  • Há fenómenos extra-terrestres, mortos que convivem com os vivos em mundos paralelos.
  • Há improváveis personagens de ficção que ganham vida, se transfiguram, têm o dom da ubiquidade e da omnisciência
  • Depois, há "o rapaz chamado corvo"- um misto de grilo-consciência de Pinóquio, super-ego, anjo protector.
  • Há assassinatos e relações que não chegamos a perceber se incestuosas, sonhos proibidos e acusatórios.
  • E há um jovem de 15 anos: "o rapaz de 15 anos mais forte do mundo" que, no dia do seu 15º aniversário, adopta o nome de Kafka e foge da casa do pai para escapar a uma profecia-maldição. Parte também numa demanda: da mãe que o abandonou em criança, da irmã que só conhece de uma velha fotografia, ela e ele, numa praia de que não se lembra. Parte, em última análise, numa busca de si ..
  • Há, depois, uma acolhedora biblioteca: refúgio e lugar predestinado, onde hão-de convergir todos os destinos, onde se cumprirá aquilo que tem de ser cumprido.
  • E há a misteriosa mulher que a gere. Que espera o dia da sua morte pressentida e desejada. Que passa os dias a livrar-se das suas memórias, escrevendo-as para que alguém as queime depois.
  • Há o seu assistente: um jovem erudito e sábio, com sentimentos de homem num indefinido corpo de mulher.
  • E há um quadro e no quadro um jovem sentado na areia: Kafka à beira-mar.

06 abril 2009

valter hugo mãe para crianças

Pois.. quem diria? O Valter Hugo Mãe (ver posts sobre o autor aqui e aqui) passou a escrever também para crianças.. digo 'passou', porque penso que antes não o fazia..

A colecção chama-se "abrir os olhos" e diz o escritor que aqui usa maiúsculas (e calculo eu que tudo o mais que 'manda' a norma) para não 'desensinar' as crianças. Os dois primeiros volumes, A História do Homem Calado e A Verdadeira História dos Pássaros, já estão à venda.


Então vá, procurem os livros (as capas são lindas, sim, vh ;-) e, em vez de amêndoas, ofereçam-nos aos rebentos - fazem muito melhor aos dentes!

Boa Páscoa, boas férias!

04 abril 2009

a literatura, as paixões: O Cantor de Tango

É um livro de um escritor argentino chamado Tomás Eloy Martínez, e uma óptima ocupação para as férias da Páscoa.

De Tomás Eloy Martínez, sei apenas o que li nas badanas do romance: que actualmente é escritor residente numa universidade dos EUA, e que, em 1934, nasceu em Tucumán, a mesma terra argentina da cantora e activista política Mercedes Sosa.
Que ganhou inúmeros prémios e que publicações de grande prestígio "consideram o conjunto da sua obra como o fenómeno literário mais importante desde Cem Anos de Solidão". Sei que a sua escrita é limpa e flui, e nos conduz com prazer da primeira à última página. Que há um quê de romance policial nesta sua história, pela linguagem escorreita, despida, mas também pelo mistério que envolve personagens e lugares.

Em O Cantor de Tango, um académico americano parte para Buenos Aires numa espécie de compulsão, ou como se tivesse de cumprir um destino. Vai em busca de um cantor lendário (melhor que Gardel..), numa demanda que cruza os caminhos percorridos por J.L. Borges, as suas vivências/referências, o misterioso Aleph: objecto mítico, capaz de desvendar o futuro.

Numa espécie de busca do Graal em duplo (o cantor Julio Martel e o Aleph) , o personagem principal, Bruno Cadogan, conduz-nos através de uma cidade múltipla, enganadora e labiríntica: nas suas ruas de multiplicados nomes, nas suas memórias mais recônditas.

É uma Buenos Aires que se vai desvendando em camadas de tempo: esquinas improváveis que contam histórias de um passado de horrores que a voz única e solitária de Martel evoca e resgata do esquecimento, como que inscrevendo cruzes num mapa ferido da morte e do sangue das vítimas anónimas dos tempos da ditadura.
Mas é também a Buenos Aires dos dias e das noites conturbadas do ano de 2001, das manifestações diárias, dos sucessivos governos, do tempo da recessão económica com que a Argentina mergulhou - profunda e talvez irremediavelmente - no século XXI.

E é o retrato de uma população. Que se rebela, se redefine, se adapta: os 'portenhos' (os naturais de Buenos Aires) continuam a ler sofregamente, mas já não compram livros, como no tempo em que donas de casa adquiriam, com a mesma naturalidade, um molho de alfaces e as edições de Rayuela e dos Cem Anos de Solidão. Agora vão de livraria em livraria (que as há, a par com salões de baile, em grande número e sempre cheias), lêem um ou dois capítulos em cada uma delas .. sinal dos tempos, e o esboço dorido e no entanto resistente, das gentes de Buenos Aires, da sua cidade em convulsão.

O Cantor de Tango é um romance que se lê com o prazer das descobertas, com a excitação de quem vive a História a acontecer. Ou, como referiu o jornal The Guardian: "Um romance estimulante e pungente, com um ritmo libertador tão hipnótico como o próprio tango."

10 março 2009

as coisas que eu sabia!! ;-)

Andei em arrumações. Dentro de um livro, descobri uns apontamentos do tempo em que frequentei umas aulas de mestrado sobre literaturas comparadas.. foi há .. bué.. ;)

O que ontem li nos tais rascunhos deixou-me a um tempo triste e pasmada: as coisas que eu sabia! - e que aqui quero partilhar, em mimos de excertos incompletos:
  1. o que define um personagem é o exercício de hermenêutica a que ele obriga
  2. todo o romance é feito de discursos exegéticos e hermenêuticos; um romance não poderia existir sem estes exercícios..

Pois .. a enorme utilidade das arrumações: fui pesquisar, fiquei mais ou menos esclarecida relativamente àquilo que tinha esquecido. Descobri, também .. que a ausência da teoria, a ignorância dos termos literários, não me impede de continuar a ler, interpretar, apreciar romances. Será talvez aquela história de que a cultura é o que fica depois de esquecermos tudo o que aprendemos..

Ainda assim, aqui fica uma breve explicação dos termos, para quem precise de fazer figura.. :-))

  • A hermenêutica é a ciência ou metodologia da interpretação, especialmente de um texto escrito. Uma forma ampla de interpretação, no sentido da procura do simbólico. ver fonte
  • A exegese é a disciplina que aplica métodos e técnicas que ajudam na compreensão do texto. fonte, aqui

baralhados?
então: hermenêutica é o estudo das diversas formas e técnicas de exegese (interpretação) - resumo tirado daqui



- a imagem acima (imagine-se uma representação de hermenêutica dançando com exegese) é um quadro de Roman Morhardt

04 março 2009

a literatura, as paixões: "uma casa na escuridão", post 2

Decididamente, não gosto de 'Uma casa na escuridão'. E não uso o passado, porque nem sequer consegui acabar de ler este romance de José Luís Peixoto. Parei-'me' definitivamente na página 175, antes que o capítulo seguinte, 'a peste', me tirasse de vez o sono e o prazer de ler este autor.

Os 2 primeiros capítulos, ainda vá que não vá.. (ler aqui)
Afinal, cenas macabras havia só duas, a da machadada dupla e a do cadáver desenterrado..
A escrita fluía, apesar de tudo poética, entre o deslumbramento na contemplação da amada-dentro e a constatação serena, ainda que algo desapiedada, da letargia de uma mãe parada, avolumando-se em obesidades doentias - os gatos, muitos, passeando-lhe por cima, roçando-lhe a boca, limpando-lhe a baba.

No 3.º capítulo - assim, e apenas porque as anunciara um improvável príncipe, começam as temidas 'invasões'. A partir daí, é uma sucessão de mutilações inimagináveis, línguas olhos nariz tímpanos coração estômago, pernas e braços decepados. Um absurdo delirante de sangue e carnes rasgadas , ossos que se partem com estrépito, violações múltiplas e quotidianas na pessoa de uma escrava. Sacos a abarrotar de gatos que se atiram contra a parede em exercícios sádicos, um mundo de crianças barulhentas e haréns e soldados que grunhem e um homem gordo muito poderoso, dono, pai de todos eles. Depois, há o cortejo dos mutilados: carregados ao colo ou levados pela mão, escravizados, apavorados, e incapazes de morrer. "a morte é impossível", o título deste capítulo 4º.

Um surrealismo em deleite de horrores muito a fazer lembrar um velho filme de Pasolini, (Saló?)dividido em 3 ciclos: o da merda, o do sangue, e um outro - qual era, Luís, lembras-te? Vimos o filme em Coimbra (vá-se lá saber porquê), e quando começou o ciclo do sangue, ficámos praticamente sozinhos na sala, o meu irmão e eu: estóicos, sofredores, muito orgulhosos da nossa resistência.
Aí eu tinha mais ou menos 20 anos, e um estúpido ponto de honra: não deixar um filme, um livro, inacabado. Há muito que, felizmente, abdiquei desse princípio.

Compreendo agora por que razão o Rúben, que me emprestou este romance, não quis nenhum dos outros para a troca, ainda que eu lhos recomendasse.
O Rúben, um meu aluno de 15 anos, leu o livro todo, porque 'teve que ser'. É capaz é de nunca mais pegar em nenhum outro que o José Luís Peixoto tenha escrito ou venha a escrever.

E é pena..

28 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: Uma Casa na Escuridão

É o 'meu' 3º livro do José Luís Peixoto, e o primeiro que não leio 'de um fôlego'.. (dá-me pesadelos..;)

'Uma Casa na Escuridão'
é um romance recheado de estranhezas. A começar pelos indicadores de tempo: por um lado, há um carro que corre a grande velocidade pela auto-estrada, assim situando a narrativa no presente. Mas há também personagens que são 'escravas', um "príncipe de calicatri", uma "dona do palácio de siliae". E, mais desfazendo essa fronteira de mundos, uma 'rapariga' que morreu e agora aparece, vibrante, dentro dos olhos fechados do narrador.
No conjunto, uma geografia difusa, intemporal, muito pertença de um universo de sonhos. Ou de uma memória de infância. Quem sabe, as imagens de uma improvável série de animação (talvez japonesa..) colorindo tempos, lugares .. Isto sou eu a divagar, claro, e também ainda só li dois capítulos..

A poesia extrema, surpreendente, funde-se aqui com a impiedade de uma crueza pouco habitual nos livros que já li do autor.

Assim, por exemplo, as concepções de 'amor':
(pg 29)
«O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. (...) Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. (..) O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias.»

Logo a seguir, uma cena ma-ca-bra que descreve a morte de dois amantes:
(pgs 32, 33)
«(..) o meu pai, doente, na cama, (..) mandou a escrava madalena ir buscar o machado à parede da sala de armas. (...) A escrava madalena entrou no quarto, segurando o machado com ambas as mãos, e pousou-o no colo do meu pai. O meu pai, magro e branco, segurou o machado e disse aproxima-te. A escrava madalena aproximou-se (...) O meu pai, usando as suas últimas forças, levantou o machado no ar e acertou no peito da escrava madalena. Ao cair de costas sobre a cama, manteve os olhos abertos no tecto. Ninguém gritou. Ouviu-se só o som do machado na carne, o som das costelas a partirem-se. Ninguém gritou. A lâmina do machado a deslocar-se da carne e do sangue, a sair de dentro do peito. (...) E, quando a escrava madalena caiu sobre a cama, o meu pai olhou o corpo e o sangue, olhou-a, levantou o machado e acertou-lhe no rosto. A lâmina enterrou-se-lhe ao lado do nariz, entre os lábios e os olhos. O meu pai, com os olhos a serem dois poços muito fundos de água límpida, perdeu a força e caiu morto sobre o corpo e o sangue da escrava madalena. Nesse dia, com uma vaga noção da vida, acreditei que tinha aprendido o significado mais profundo do amor.»


É .. Um romance (muito) recheado de estranhezas.
(à suivre..;)

23 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: em volta de um personagem

pensei: que Homem inteiro, autêntico, este, que assim consegue entrar na alma de uma mulher. as/os? leitoras vestindo-lhe a pele, amando, sofrendo, fugindo. e de repente sou ela, naquelas ruas naquele barco naqueles braços.

é ela e é criminosa. é ela e é traficante. é teresa e eu quero ser ela, na prisão na casa no barco, sofrendo amando fugindo.
e os livros. os livros. os livros. a luz gris de l'alba.
a paixão mais paixão.
um galego que morre e a dor, a dor, a dor.
a dor infinita, a impossível dor. e morta renasce.
é ela, sou eu.
eu, para sempre, ela.
passado, futuro, ela, eu.


al
dp de ' a rainha do sul ' , de Pérez-Reverte

08 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: o apocalipse dos trabalhadores

acabei de ler o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (pois.. tudo em letra pequena, que ele não gosta de maiúsculas!:-)). tempo, então, de me sentir órfã, como sempre acontece depois que uma obra maior me agita e desassossega, me preenche, me adopta.
  • não sei se é a fluidez da escrita, o registo oral parecendo fácil assim transposto, a natural integração dos diálogos, numa técnica que me soa ‘saramaguiana’.
  • o carácter agridoce dos seus personagens, tão vulgares, simultaneamente, tão sublimes.
  • a criatividade, a imaginação deliciosamente delirante.
  • ou se é a transgressão formal, a pontuação reduzida ao mínimo, praticamente só vírgulas e pontos.
  • será antes, talvez, a capacidade invulgar de elevar um quotidiano cinzento a uma claridade de nuvens. de transportá-lo ainda além, até às portas do céu: uma praça pejada de vendedores ambulantes (uma rebaldaria), onde a maria da graça espera grita insulta desespera, e o são pedro, casmurro: vai-te embora, mulher, não entendes que não vale a pena morrer de amor.
  • será, também, o desfazer da lógica que, simples, se torna evidência incontornável. ou o humor posto assim, naturalmente, na ‘pessoa’ de um cão chamado portugal: cala-te, palerma, onde é que já se viu um país a ladrar.
  • ou então, o amor a-final da quitéria tornada indefesa pelo toque desse homem que se desiste máquina, desse jovem ucraniano (sete milhões de mortos de fome nas décadas de 20 e 30 do século vinte, sabiam? ..), desse andriy filho de ekaterina farol-casa-parede-mestra, cansada ekaterina, ekaterina desmaterializando-se, andriy filho de sasha-louco: imagina-me sorrindo, filho.
  • os personagens expondo-se, inteiros, e nós entrando-lhes dentro. e eles insinuando-se, entranhando-se. e corrompendo-nos, como o maldito-amado-senhor-ferreira à mulher-a-dias maria da graça: ensinando-lhe goya, os artistas que são capazes até de surpreender o criador. e o requiem de mozart, o volume posto no máximo, anunciando-lhe a despedida, emoldurando-lhe a final celebração.

só a paixão pode, num momento de afinidade com a vontade de deus, resultar numa obra tão impossível, e isto é fernando pessoa. ou, como diz o próprio vhm, "uma escrita por dentro da pele". é esse, certamente, o segredo, o fascínio deste romance. isso, e o amor imenso que dessa escrita se desprende. a cada folha lida, partilhada, volatilizando-se. contaminando-nos. porque o amor não cabe quieto no espaço tão pequeno que é o corpo de uma mulher. no de um livro também não.

obrigada, valter hugo. e que venha um romance novo, depressa, urgentemente.


todas as frases em itálico são transcrições de 'o apocalipse dos trabalhadores'


uma entrevista ao autor, aqui

al , 29.01.09

as paixões, os livros e a rapariga que os roubava , de Markus Zusak

Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura.
fonte: aqui

O romance é do jovem escritor australiano
Markus Zusak e eu tb o li: achei-o .. uma delícia: divertido às vezes, dorido quase sempre, e de uma ternura .. como só as crianças. Ou a morte: esta, a narradora..

al