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30 junho 2011

«impossível é não teres voz.» - JLP

tudo retirado daqui

Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
Grécia: Texto do José Luís Peixoto para Mayday Lisboa lido ontem na Praça Syntagma.

Ontem, na Praça Syntagma junto ao Parlamento Grego, os manifestantes leram o texto que o escritor José Luís Peixoto escreveu para o Mayday Lisboa 2011 e que aqui partilhamos:


Impossível é não viver

Se te quiserem convencer que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho.


Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos.

Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando eles pensam que já nos distribuíram um lugar, que já está tudo decidido, que nos compraram com falinhas mansas e autocolantes, mostramos-lhes que sabemos gritar. Envergonhamo-los como as crianças de cinco anos envergonham os pais na fila do supermercado. Com a diferença grande de não sermos crianças de cinco anos e com a diferença imensa de eles não serem nossos pais porque os nossos pais, há quase quatro décadas atrás, tiveram de livrar-se dos pais deles. Ou, pelo menos, tentaram.

O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos.

Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz. 
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18 setembro 2010

LIVRO

nostálgicas paisagens alentejanas (as Galveias) - amparadas pela música dos Moonspell - no vídeo promocional do novo romance de José Luís Peixoto, "Livro" , que estará nas livrarias a 24 de Setembro.

24 julho 2010

um poema de José Luís Peixoto


A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

retirado daqui
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outros posts sobre JLP:  aquiaqui

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páginas de José Luís Peixoto :
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06 julho 2010

noites looongas e o calor

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Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

José Luís Peixoto
-Gaveta de Papéis - 2008

Música: Nine Inch Nails - Ghosts I  ; Personagens:Vítor Costa e Daniela Gigante

25 março 2009

de conversa com José Luís Peixoto


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Não sei por que razão ficam aqui as fotos pequenas assim .. juro que a culpa não é da fotógrafa!;) 
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Enfim, cá está o registo da visita do escritor José Luís Peixoto à escola, muito especialmente dedicada às turmas A e B do décimo ano!
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Pela minha parte, nesta visita, gostei - de tudo: da pessoa-dentro, da pessoa-pele, da palavra solta, do ambiente descontraído, caseiro. 
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E .. adorei a dedicatória no meu 'nenhum olhar'! ;-))
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Sei que os autógrafos foram todos o mais individualizados possível, nas palavras, nos desenhos. 
Foi outra coisa que admirei em José Luís Peixoto, essa capacidade de improviso, esse dar-se assim a cada um, tão generosamente apesar do pouco tempo. Como se fosse coisa simples, natural. 
Como se lhe estivéssemos todos dentro.. 
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(link aqui para o 1º texto que partilhámos sobre ele ..)
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nota: o resto da 'reportagem fotográfica' passou para aqui
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e aqui em baixo, em consideração à T-shirt do JLP ;-))
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.. of course.. quem preferir o WILD SIDE ;-), é aqui: Lou Reed


04 março 2009

a literatura, as paixões: "uma casa na escuridão", post 2

Decididamente, não gosto de 'Uma casa na escuridão'. E não uso o passado, porque nem sequer consegui acabar de ler este romance de José Luís Peixoto. Parei-'me' definitivamente na página 175, antes que o capítulo seguinte, 'a peste', me tirasse de vez o sono e o prazer de ler este autor.

Os 2 primeiros capítulos, ainda vá que não vá.. (ler aqui)
Afinal, cenas macabras havia só duas, a da machadada dupla e a do cadáver desenterrado..
A escrita fluía, apesar de tudo poética, entre o deslumbramento na contemplação da amada-dentro e a constatação serena, ainda que algo desapiedada, da letargia de uma mãe parada, avolumando-se em obesidades doentias - os gatos, muitos, passeando-lhe por cima, roçando-lhe a boca, limpando-lhe a baba.

No 3.º capítulo - assim, e apenas porque as anunciara um improvável príncipe, começam as temidas 'invasões'. A partir daí, é uma sucessão de mutilações inimagináveis, línguas olhos nariz tímpanos coração estômago, pernas e braços decepados. Um absurdo delirante de sangue e carnes rasgadas , ossos que se partem com estrépito, violações múltiplas e quotidianas na pessoa de uma escrava. Sacos a abarrotar de gatos que se atiram contra a parede em exercícios sádicos, um mundo de crianças barulhentas e haréns e soldados que grunhem e um homem gordo muito poderoso, dono, pai de todos eles. Depois, há o cortejo dos mutilados: carregados ao colo ou levados pela mão, escravizados, apavorados, e incapazes de morrer. "a morte é impossível", o título deste capítulo 4º.

Um surrealismo em deleite de horrores muito a fazer lembrar um velho filme de Pasolini, (Saló?)dividido em 3 ciclos: o da merda, o do sangue, e um outro - qual era, Luís, lembras-te? Vimos o filme em Coimbra (vá-se lá saber porquê), e quando começou o ciclo do sangue, ficámos praticamente sozinhos na sala, o meu irmão e eu: estóicos, sofredores, muito orgulhosos da nossa resistência.
Aí eu tinha mais ou menos 20 anos, e um estúpido ponto de honra: não deixar um filme, um livro, inacabado. Há muito que, felizmente, abdiquei desse princípio.

Compreendo agora por que razão o Rúben, que me emprestou este romance, não quis nenhum dos outros para a troca, ainda que eu lhos recomendasse.
O Rúben, um meu aluno de 15 anos, leu o livro todo, porque 'teve que ser'. É capaz é de nunca mais pegar em nenhum outro que o José Luís Peixoto tenha escrito ou venha a escrever.

E é pena..

28 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: Uma Casa na Escuridão

É o 'meu' 3º livro do José Luís Peixoto, e o primeiro que não leio 'de um fôlego'.. (dá-me pesadelos..;)

'Uma Casa na Escuridão'
é um romance recheado de estranhezas. A começar pelos indicadores de tempo: por um lado, há um carro que corre a grande velocidade pela auto-estrada, assim situando a narrativa no presente. Mas há também personagens que são 'escravas', um "príncipe de calicatri", uma "dona do palácio de siliae". E, mais desfazendo essa fronteira de mundos, uma 'rapariga' que morreu e agora aparece, vibrante, dentro dos olhos fechados do narrador.
No conjunto, uma geografia difusa, intemporal, muito pertença de um universo de sonhos. Ou de uma memória de infância. Quem sabe, as imagens de uma improvável série de animação (talvez japonesa..) colorindo tempos, lugares .. Isto sou eu a divagar, claro, e também ainda só li dois capítulos..

A poesia extrema, surpreendente, funde-se aqui com a impiedade de uma crueza pouco habitual nos livros que já li do autor.

Assim, por exemplo, as concepções de 'amor':
(pg 29)
«O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. (...) Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. (..) O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias.»

Logo a seguir, uma cena ma-ca-bra que descreve a morte de dois amantes:
(pgs 32, 33)
«(..) o meu pai, doente, na cama, (..) mandou a escrava madalena ir buscar o machado à parede da sala de armas. (...) A escrava madalena entrou no quarto, segurando o machado com ambas as mãos, e pousou-o no colo do meu pai. O meu pai, magro e branco, segurou o machado e disse aproxima-te. A escrava madalena aproximou-se (...) O meu pai, usando as suas últimas forças, levantou o machado no ar e acertou no peito da escrava madalena. Ao cair de costas sobre a cama, manteve os olhos abertos no tecto. Ninguém gritou. Ouviu-se só o som do machado na carne, o som das costelas a partirem-se. Ninguém gritou. A lâmina do machado a deslocar-se da carne e do sangue, a sair de dentro do peito. (...) E, quando a escrava madalena caiu sobre a cama, o meu pai olhou o corpo e o sangue, olhou-a, levantou o machado e acertou-lhe no rosto. A lâmina enterrou-se-lhe ao lado do nariz, entre os lábios e os olhos. O meu pai, com os olhos a serem dois poços muito fundos de água límpida, perdeu a força e caiu morto sobre o corpo e o sangue da escrava madalena. Nesse dia, com uma vaga noção da vida, acreditei que tinha aprendido o significado mais profundo do amor.»


É .. Um romance (muito) recheado de estranhezas.
(à suivre..;)

13 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: José Luís Peixoto

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E agora, como prometido (.!.) José Luís Peixoto, escritor português, galardoado com o prémio José Saramago em 2001*
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Conheço-o há pouco tempo. Até agora li 2 livros seus, o 'Nenhum Olhar' * e 'O Cemitério de Pianos'. Já comprei o 'Cal'..
  • dele sei .. que tem a idade do "25 de Abril", muitos piercings, tatuagens qb.
  • que tem um blogue (a q. vai m.to pouco mas onde deixa uns textos deliciosos..), um site (coming soon).. ; que está no My Space.
  • que de si diz : Tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele ...(não percam o texto:!! - 'Not dead ' - 4º post, aqui)
  • que às vezes não usa maiúsculas e 'reflexivou' o verbo parar: ele, ela, parou-se, nem mais..
  • que parece ser uma pessoa encantadora, e tímido, tímido (apesar de punk ..:)
  • que a tristeza infinita daquele olhar nas contra-capas se tem vindo a esbater..
  • que tem um humor surpreendente, delicioso: e um texto ** q o ilustra: a ler, absolutamente (aqui ao fundo)
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Sei que há-de vir à ESAG (Março?) e que não vos perdoo se não me convidarem a assistir ( alô 10.º B!! .. :-)))

Sei também que José Luís Peixoto é fã
(penso q incondicional) do escritor argentino Julio Cortázar, (clicar para ver post) de quem, de resto, prefaciou a edição portuguesa de "Rayuela/o jogo do mundo". Que fielmente, amorosamente, lhe adoptou/adaptou as transgressões estruturais no romance 'O Cemitério de Pianos'. 

sei, sobretudo, 
  • que escreve .. como que com o corpo todo. 
  • que cada palavra inserta é tão absolutamente a palavra certa, que dir-se-ia ter sido sonhada antes.
  • que os seus personagens são de uma humanidade enternecedora.
  • sei que a sua prosa é tão.. mas tão .. intensamente poética
  • e que a sua escrita é bela e flui , que é insinuante e dolorosa , que sem apelo toma conta de nós como um 'mal de vivre' que. (Isto é uma das coisas q ele faz, acabar as frases deste modo impossível e no entanto tão rico de hipóteses, de leituras ..)
 .

 Deixo-vos com ..

  • uma fotografia surpreendente, por aqui (+/- a meio da página, têm de procurá-la ;))

e já agora .. nesta importada celebração q dá pelo nome de Valentine's Day, com um seu - lindíssimo - poema de amor:

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"...a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos.
fecho os olhos para te ver
e para não chorar..."

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e ainda.. o tal texto, referido em cima **

José Luís Peixoto na sua saborosíssima crónica – Verdades quase verdadeiras, no JL
(Jornal de Letras),
acerca das pessoas que dormem nas conferências dos encontros literários:
(...)
«No entanto, numa ou outra circunstância, quando estou nessa mesa de microfones e os vejo dormir, sinto uma ternura por eles que só pode ser comparada ao amor.
É uma ternura imensa e absoluta. Não sei ainda se esse sentimento existe por identificação, porque gostaria de estar no lugar deles, a dormir sem rugas na pele, ou se existe por inequívoca impossibilidade.
Sei sim que é um sentimento de família, como se, implicitamente, essas pessoas fossem meus irmãos, irmãs, pais, filhos. É como uma necessidade de cuidar deles, de pousar-lhes uma manta sobre as pernas, uma almofada sob o pescoço perdido.
É como uma vontade de falar baixo para que não despertem, para que tenham a sua tranquilidade assegurada por mais um instante, nem que seja por mais um instante…
De um modo geral, aqueles que dormem são uma minoria da assistência. Em situações excepcionais, já identifiquei dois, três, ou mesmo quatro, numa só sala. Mas continuo a participar em encontros literários e continuo a ter esperança. Aguardo com paciência pelo dia em que toda a sala adormeça.
Três ou quatro autores e teóricos, sentados a uma mesa com garrafas de água e um arranjo floral, a falarem muito baixinho para não acordar a assistência, que dorme mais ou menos profundamente: uma sinfonia de respirações, paz.
O aplauso mais puro a ser o contrário de palmas. Mundos e sonhos possíveis a desenrolarem-se por de trás dos rostos. Seria comovente e maravilhoso.»


Num próximo post falarei dos 2 livros que dele já li..


postado por ana lima