É um romance do japonês Haruki Murakami e o personagem principal adoptou o nome Kafka, que, na sua língua, será o equivalente a 'corvo'.. nada, portanto, que tenha a ver com o checo Franz Kafka ..Um dos mais populares escritores japoneses, Haruki Murakami nasceu em Kyoto em 1949. Cresceu em Kobe, cidade portuária que lhe rendeu uma visão de mundo cosmopolita, um dos pilares de sua obra. Seus dias de universidade foram caóticos e intensos, incluindo uma participação activa nos protestos contra a guerra do Vietnam. Formou-se em dramaturgia clássica no Departamento de Literatura da Universidade de Waseda. Pouco depois, montou um bar em Kokubunji, Tóquio, sobre o qual diria mais tarde: “Tudo que preciso saber na vida aprendi no meu bar de jazz.” fonte
Terá sido essa paixão pela música que explica as saborosas 'lições' que atravessam o romance e que vão transfigurando e enriquecendo personagens à partida mais débeis, dir-se-ia 'brancos', ou 'intocados', personagens 'na margem' .. e que vão absorvendo conhecimentos sobre música, literatura, pintura, filosofia .. o evidente pendor didáctico de Murakami, e a cultura assumindo uma função transformadora, e, em certa medida, redentora ..
Kafka à Beira-Mar é um daqueles livros que nos tira horas de sono, que não conseguimos parar de ler. O fascínio deriva do carácter dos personagens, por um lado, do factor suspense e de uma estrutura quase de romance policial, mas também (acho que sobretudo) da variedade de registos - dir-se-ia que dispostos em camadas - e que Murakami manipula com o à-vontade de um prestidigitador ..Ao ler Kafka à Beira-Mar senti-me várias vezes transportada a memórias de outras leituras, de "As brumas de Avalon" à "Alice no País das maravilhas". Há neste romance incursões pelo maravilhoso, pela teoria das cordas e a física quântica, a tradição celta de endeusamento da natureza-mulher e mãe, a teoria da reencarnação..
Tudo eivado do mistério de uma cultura que reconhecemos alheia e de que não percebemos todos os contornos, mas que acaba por ser um factor mais de encantamento. Encantamento que passa pela estranheza, a doçura, a poesia dos personagens - todos eles à margem da lógica e do previsível, todos eles enredados em turbilhões de mistério, de sentimentos obscuros, e marcados pelo determinismo.. assim como as personagens trágicas dos clássicos gregos. Tudo muito rondando, também, o universo mágico dos contos infantis.
E, no entanto, Kafka à Beira-Mar é um romance bem adulto, ousado, sensual, e quase chocante na naturalidade com que assume comportamentos marginais.
- Há uma pedra mágica que abre (e fecha) portas para outros mundos, se alguém lhe souber 'falar'..
- Há bosques encantados - lugares de definição e de ensinamento - que encerram os mistérios da vida e da morte..
- Há fenómenos extra-terrestres, mortos que convivem com os vivos em mundos paralelos.
- Há improváveis personagens de ficção que ganham vida, se transfiguram, têm o dom da ubiquidade e da omnisciência
- Depois, há "o rapaz chamado corvo"- um misto de grilo-consciência de Pinóquio, super-ego, anjo protector.
- Há assassinatos e relações que não chegamos a perceber se incestuosas, sonhos proibidos e acusatórios.
- E há um jovem de 15 anos: "o rapaz de 15 anos mais forte do mundo" que, no dia do seu 15º aniversário, adopta o nome de Kafka e foge da casa do pai para escapar a uma profecia-maldição. Parte também numa demanda: da mãe que o abandonou em criança, da irmã que só conhece de uma velha fotografia, ela e ele, numa praia de que não se lembra. Parte, em última análise, numa busca de si ..
- Há, depois, uma acolhedora biblioteca: refúgio e lugar predestinado, onde hão-de convergir todos os destinos, onde se cumprirá aquilo que tem de ser cumprido.
- E há a misteriosa mulher que a gere. Que espera o dia da sua morte pressentida e desejada. Que passa os dias a livrar-se das suas memórias, escrevendo-as para que alguém as queime depois.
- Há o seu assistente: um jovem erudito e sábio, com sentimentos de homem num indefinido corpo de mulher.
- E há um quadro e no quadro um jovem sentado na areia: Kafka à beira-mar.
