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30 dezembro 2010

ponerle rabia !

a paisagem exterior-mente, Cruzeiro Seixas

um ano que acaba - mal. que ameaça perspectivar-se assim eterno, futuro. negro de cenizas e desesperança, obscuro, tenso.
não me apetecem balanços, relembrar desacontecimentos - políticos, sociais. passar-lhes ao lado como por ignorá-los, fazê-los desexistir por omiti-los.
contra o que foi e o que -inapelavelmente?- será, busco socorro nas vozes dos poetas, desses cantores de ontem. as razões, as  de sempre. tão prementes, tão actuais, tão aparentemente inócuas, agora.


DIES IRAE

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer,mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Miguel Torga (aqui)

*
mudam-se os tempos - Luís de Camões, José Mário Branco


*
eu vi este povo a lutar, José Mário Branco


*

O LUGAR DA CASA

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
Cruzeiro Seixas
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade (aqui)



*
que força é essa, Sérgio Godinho


*

e sobre os tempos da guerra civil espanhola,


A galopar - Paco Ibáñez y Rafael Alberti
Concierto en el teatro Alcalá de Madrid en mayo de 1991.


GALOPE

Las tierras, las tierras, las tierras de España,
las grandes, las solas, desiertas llanuras.
Galopa, caballo cuatralbo,
jinete del pueblo,
al sol y a la luna.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

A corazón suenan, resuenan, resuenan
las tierras de España, en las herraduras.
Galopa, jinete del pueblo,
caballo cuatralbo,
caballo de espuma.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

Nadie, nadie, nadie, que enfrente no hay nadie;
que es nadie la muerte si va en tu montura.
Galopa, caballo cuatralbo,
jinete del pueblo,
que la tierra es tuya.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!
.
Ponerle voz e ponerle rabia también !
.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

29 setembro 2010

de Eugénio de Andrade,

Retrato Ardente

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha


poema retirado daqui
imagem retirada daqui

12 maio 2010

poema do dia

.. disponibilizado todos os dias no FB. 

A aplicação está aqui, e quem a gere é o Luís Rodrigues, que conheço (virtualmente:) há muiiito tempo, pelo magnífico sítio AS TORMENTAS, onde de há anos vem fazendo a divulgação da melhor poesia e dos seus autores, todos eles filhos maiores dessa pátria chamada língua portuguesa

*

Ainda sabemos cantar

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

Eugénio de Andrade

26 julho 2009

bocas - na literatura

A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

.........

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade



... ... ...


Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
início do capítulo 7, "O Jogo do Mundo"(Rayuela), Julio Cortázar


quadros de Gustav Klimmt

07 fevereiro 2009

2 poemas de Eugénio de Andrade

O Eugénio de Andrade é, talvez, o meu poeta preferido ... Podem ler/ver mais coisas dele [têm de o procurar e seguir os links] - aqui - Vejam se gostam e deixem um comentário, ok, sweeties?:D

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas,
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?


URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Se gostaram, podem ler mais poemas aqui ... e ... aqui


postado por ana lima