04 março 2009

a literatura, as paixões: "uma casa na escuridão", post 2

Decididamente, não gosto de 'Uma casa na escuridão'. E não uso o passado, porque nem sequer consegui acabar de ler este romance de José Luís Peixoto. Parei-'me' definitivamente na página 175, antes que o capítulo seguinte, 'a peste', me tirasse de vez o sono e o prazer de ler este autor.

Os 2 primeiros capítulos, ainda vá que não vá.. (ler aqui)
Afinal, cenas macabras havia só duas, a da machadada dupla e a do cadáver desenterrado..
A escrita fluía, apesar de tudo poética, entre o deslumbramento na contemplação da amada-dentro e a constatação serena, ainda que algo desapiedada, da letargia de uma mãe parada, avolumando-se em obesidades doentias - os gatos, muitos, passeando-lhe por cima, roçando-lhe a boca, limpando-lhe a baba.

No 3.º capítulo - assim, e apenas porque as anunciara um improvável príncipe, começam as temidas 'invasões'. A partir daí, é uma sucessão de mutilações inimagináveis, línguas olhos nariz tímpanos coração estômago, pernas e braços decepados. Um absurdo delirante de sangue e carnes rasgadas , ossos que se partem com estrépito, violações múltiplas e quotidianas na pessoa de uma escrava. Sacos a abarrotar de gatos que se atiram contra a parede em exercícios sádicos, um mundo de crianças barulhentas e haréns e soldados que grunhem e um homem gordo muito poderoso, dono, pai de todos eles. Depois, há o cortejo dos mutilados: carregados ao colo ou levados pela mão, escravizados, apavorados, e incapazes de morrer. "a morte é impossível", o título deste capítulo 4º.

Um surrealismo em deleite de horrores muito a fazer lembrar um velho filme de Pasolini, (Saló?)dividido em 3 ciclos: o da merda, o do sangue, e um outro - qual era, Luís, lembras-te? Vimos o filme em Coimbra (vá-se lá saber porquê), e quando começou o ciclo do sangue, ficámos praticamente sozinhos na sala, o meu irmão e eu: estóicos, sofredores, muito orgulhosos da nossa resistência.
Aí eu tinha mais ou menos 20 anos, e um estúpido ponto de honra: não deixar um filme, um livro, inacabado. Há muito que, felizmente, abdiquei desse princípio.

Compreendo agora por que razão o Rúben, que me emprestou este romance, não quis nenhum dos outros para a troca, ainda que eu lhos recomendasse.
O Rúben, um meu aluno de 15 anos, leu o livro todo, porque 'teve que ser'. É capaz é de nunca mais pegar em nenhum outro que o José Luís Peixoto tenha escrito ou venha a escrever.

E é pena..

2 comentários:

Luís disse...

Pois...
Eu ando a ler 'Um dia de cólera' do Revert e ando com a mesma inclinação de o deixar a meio. Também eu vou perdendo as convicções dos anos das borbulhas. Alguém me disse um dia que não tinha tempo para ler os livros todos de que gostaria, quanto mais para ler os de que não estava a gostar.
Resolvi seguir-lhe o conselho com o livro que andava a desler na altura. Foi caso único até à data mas este do Revert (e logo deste bacano!) está a candidatar-se a ser o segundo.
Querem saber porquê? Basta lerem a contra capa e acreditarem mesmo no que lá é dito: é um permanente dar nome às vítimas anónimas da guerra honrosa do povo madrileno, em 2 de Maio de 1808 (+ou-) contra as tropas 'aliadas' de Napoleão.
O tema até é interessante, mas em cento e poucas páginas já li, por baixo, para cima de três mil e quinhentos nomes, idades e diversos pormenores dos respectivos bilhetes de identidade!
Não há pachorra!
Eu também compreendo o Rúben.

Respostas directas: Não foi em Coimbra e tinhas 23 anos! O Alzheimer ataca cada vez mais cedo! :-)

O outro, o primeiro, era o ciclo do sexo, homosexo, claro!

al disse...

Olá mano querido;)

Não foi em Coimbra? Ia jurar q sim, mas lá está.. confio mais na tua memória q na minha.. e o 3.º ciclo .. claro!! o do sexo - que outro, realmente?? Aqui sim, o Alzheimer a atacar em força!!;)

Agora qto ao Reverte: acho q já te tinha dito isso mesmo que agora referes sb 'um dia de cólera'. É como se o 'dia' se desdobrasse em anos de cólera, ñ é?
Também me fiquei por um terço e mal disposta por o ter feito em relação a um dos meus escritores de eleição..

mas aquele exagero de nomes, aquela repetição de actos quotidianos: veste uniforme, enfia as botas..qq coisa do género..

achei que, naquela fase, o romance já se tinha esgotado, e nos restantes 2 terços apenas haveria mais do mesmo - ainda q o tema fosse interessante, pois..

Mas já em relação à tão aclamada série 'Alatriste' sentira o mesmo como que.. desencanto. Tb aí não reconheço o autor de 'a pele do tambor', 'a rainha do sul', 'o pintor de batalhas'..

Com o JLP passou-se agora o mesmo. Alguém disse que só um autor brilhante pode dar-se ao luxo de escrever um mau livro - e, realmente, os dois que anteriormente li dele (gostei imenso do 'nenhum olhar')não têm nada a ver com esta 'casa na escuridão'.
O Rúben ficou definitiva, inapelavelmente 'desconquistado', e até eu, q já era fã, perdi a vontade de ler o 'Cal', q já tinha comprado.
bom ter escrito a m/ apreciação sb o JLP antes, q assim, qq dia, relembro por que gostava tt dele e talvez volte lá..

e pronto.. me voy a corrigir testes, q já são 2.35 da manhã ;(

e..

gostei muito de te ver por aqui - fi-nal-men-te!! ;-))