28 fevereiro 2009

a literatura, as paixões: Uma Casa na Escuridão

É o 'meu' 3º livro do José Luís Peixoto, e o primeiro que não leio 'de um fôlego'.. (dá-me pesadelos..;)

'Uma Casa na Escuridão'
é um romance recheado de estranhezas. A começar pelos indicadores de tempo: por um lado, há um carro que corre a grande velocidade pela auto-estrada, assim situando a narrativa no presente. Mas há também personagens que são 'escravas', um "príncipe de calicatri", uma "dona do palácio de siliae". E, mais desfazendo essa fronteira de mundos, uma 'rapariga' que morreu e agora aparece, vibrante, dentro dos olhos fechados do narrador.
No conjunto, uma geografia difusa, intemporal, muito pertença de um universo de sonhos. Ou de uma memória de infância. Quem sabe, as imagens de uma improvável série de animação (talvez japonesa..) colorindo tempos, lugares .. Isto sou eu a divagar, claro, e também ainda só li dois capítulos..

A poesia extrema, surpreendente, funde-se aqui com a impiedade de uma crueza pouco habitual nos livros que já li do autor.

Assim, por exemplo, as concepções de 'amor':
(pg 29)
«O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. (...) Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. (..) O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias.»

Logo a seguir, uma cena ma-ca-bra que descreve a morte de dois amantes:
(pgs 32, 33)
«(..) o meu pai, doente, na cama, (..) mandou a escrava madalena ir buscar o machado à parede da sala de armas. (...) A escrava madalena entrou no quarto, segurando o machado com ambas as mãos, e pousou-o no colo do meu pai. O meu pai, magro e branco, segurou o machado e disse aproxima-te. A escrava madalena aproximou-se (...) O meu pai, usando as suas últimas forças, levantou o machado no ar e acertou no peito da escrava madalena. Ao cair de costas sobre a cama, manteve os olhos abertos no tecto. Ninguém gritou. Ouviu-se só o som do machado na carne, o som das costelas a partirem-se. Ninguém gritou. A lâmina do machado a deslocar-se da carne e do sangue, a sair de dentro do peito. (...) E, quando a escrava madalena caiu sobre a cama, o meu pai olhou o corpo e o sangue, olhou-a, levantou o machado e acertou-lhe no rosto. A lâmina enterrou-se-lhe ao lado do nariz, entre os lábios e os olhos. O meu pai, com os olhos a serem dois poços muito fundos de água límpida, perdeu a força e caiu morto sobre o corpo e o sangue da escrava madalena. Nesse dia, com uma vaga noção da vida, acreditei que tinha aprendido o significado mais profundo do amor.»


É .. Um romance (muito) recheado de estranhezas.
(à suivre..;)

1 comentário:

Luis Faria disse...

Olá, fiquei com vontade de ler o livro.

Li há pouco tempo um de Carlos Somoza: A chave do abismo, muito interessante também.

Outro livro que li e recomendo é o carteiro de pablo neruda. Especialmente para quem viu o filme e pensa que o livro nao pode ser melhor.


Boas leituras!