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04 setembro 2011

um Homem, um país que o não merecia

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Memórias de uma aula no Liceu de Setúbal

Barreiro, 4 de Outubro de 1967
(Quarta-feira)
Escrito por Hélida Carvalho Santos

Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com
saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém
de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- «Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.»
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das
primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.
Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
Depois, veio o mais surpreendente:

- «Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.» 
Gargalhada geral.
- «Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.»
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.
- «Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.»
Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
- «Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.»
Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.
- «Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria. Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar. Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país. Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha, basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas. Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam? Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.»
Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal? Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se - chamava-se - Zeca Afonso.

-- fonte: revista Visão
https://visao.sapo.pt/atualidade/2011-10-05-memorias-de-uma-aula-no-liceu-de-setubalf625960/?fbclid=IwAR207OKgbKgqI_7QBwiIYF6Son-b8my-6SrLk5oY6puZcbAeiBqziUk-AP4

05 maio 2011

le noir ... et le rose

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«As propostas da troika aceites pelo governo não respondem aos problemas centrais e estruturais do país: a criação de emprego e o combate ao desemprego; a necessidade de se promover o crescimento económico; evitar as rupturas sociais.
O pacote de medidas salvaguarda os interesses dos accionistas da banca e do capital financeiro.
Serão os mesmos a pagar: os trabalhadores, os desempregados, algumas franjas da classe média, as PME's.
Com este conjunto de medidas, a serem aplicadas, Portugal vai regredir 10 anos na produção da riqueza e recuar na dimensão civilizacional.»  - Carvalho da Silva

fonte: youtube

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Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta

Zeca Afonso
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25 abril 2011

as portas que Abril abriu

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Crónica de Opinião
por Rogério Severino, Jornalista

publicada em 1999  e tão actual hoje como então ..


Os homens do 25 de Novembro não podem comemorar o 25 de Abril

(…) a 25 anos do 25 de Abril de 1974...
Não é hábito escrever na primeira pessoa mas neste caso tenho que dizer que não é este o meu 25 de Abril nem nada me identifica com ele. Não o comemoro e tenho por ele a maior indiferença pois esta data nada significa para aqueles que lutaram de facto por um Portugal melhor, sem explorados nem oprimidos.

O meu 25 de Abril foi o que pôs fim à guerra colonial. Mas para a tropa fandanga que está no Governo*, morrer nas ex-colónias era uma morte ao serviço da ditadura. Se os nossos jovens morrerem ao serviço da OTAN é uma morte democrática. Espero, por isso, que se houver necessidade, os governantes sejam os primeiros a enviar os seus filhos para a guerra, para não serem, como habitualmente, os filhos dos outros. Depois, os filhos dos deputados, dos 'boys' e de todos os que se serviram do 25 de Abril para ficarem muito bem na vida. Já que a morte é democrática, que comece por eles.

O meu 25 de Abril foi para levar o povo ao Poder não foi para tirar o Poder ao povo dando-lhe em troca um voto. Hoje, temos no Governo, no Parlamento, nos Conselhos de Administração das empresas, nas autarquias, nos Serviços que tenham cargos de nomeação política, gente que se não fosse o 25 de Abril não passariam de vulgares amanuenses. Devido ao 25 de Abril e porque distorceram a mensagem e a intenção, temos em S. Bento tropa que nem na rua deles seriam eleitos deputados e muitas vezes nem em casa. Vão todos a reboque dos Partidos.

O meu 25 de Abril resolvia o problema da habitação, da saúde, da educação e do emprego. Com esta tropa fandanga no Poder (só lá está com o beneplácito dos americanos pois quando não lhes agradar, invadem-nos) estes problemas não só não foram resolvidos como temos hoje uma classe média depauperada, endividada, e uma classe baixa que já não pode ser mais pobre.

O meu 25 de Abril criava condições para que os jovens fossem felizes, criativos, alegres e com amor à vida. Com esta tropa fandanga, que distorceu o 25 de Abril a grande parte da nossa juventude está espalhada pelas prisões devido à toxicodependência, pelos hospitais devido à SIDA e diariamente pelos Tribunais, para aumentarem o Registo Criminal.

Com tudo isto, este País, estes governantes não têm o direito moral de comemorar o 25 de Abril, apossando-se de um sentimento de liberdade que não têm. Comemorem, isso sim, o 25 de Novembro. Ou já se esqueceram das punições com que os direitistas, com o beneplácito dos autodenominados socialistas fizeram aos militares de Abril? É a direita que puniu Salgueiro Maia, enviando-o para os Açores, negando à viúva o direito à pensão quando os Pides tinham todas as mordomias, que festeja o 25 de Abril? É a direita que avalizou a prisão de Otelo Saraiva de Carvalho e que passou à reserva outros militares de Abril, que hoje se reivindica de democrática? E onde estavam os 'socialistas' na altura? A pactuar, a fazer acordos, a discutir lugares.

Vinte e cinco anos depois, só o povo, os explorados e oprimidos, os sem casa, sem emprego, sem condições de saúde e sem possibilidades de dar educação aos filhos, só esses, que continuam a ser as vítimas do capital, podem comemorar Abril. O mesmo Abril que se fez para acabar com as oligarquias mas onde o Governo dito socialista voltou a dar à mesma meia dúzia de famílias o poder e deter a grande capacidade financeira do País.

O meu 25 de Abril nada tem com a globalização, nada tem com a guerra, e respeita os países. Hoje o meu País é um protectorado dos fascistas americanos, donos e senhores do mundo, onde, do cimo da sua infinita 'bondade' deixam Portugal parecer independente. 

Comemorar o 25 de Abril de 1974 com as gentes do 25 de Novembro de 1975 é uma ofensa histórica, é um erro histórico. Mesmo assim os ideais de 1974 estão vivos. E há quem se reveja neles e nunca esqueça os dias de liberdade. Nessa altura, tal como Neruda, posso dizer: Confesso que vivi.

Rogério Severino - 19-04-1999

fonte
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Titulares dos governos constitucionais (depois de 1976)
vira o disco ...

    (Primeiro Ministro)     Partido Político  Mandato

Mário  Soares    Partido Socialista 1976-1978

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Alfredo Nobre da Costa
   .
   Nomeação presidencial
1978-1978

Carlos Alberto da Mota Pinto
   Nomeação presidencial
   (Partido Social-Democrata)
1978-1979

Maria de Lourdes Pintasilgo    .
   Nomeação presidencial
   (Partido Socialista)
1979-1980

 .
Francisco de Sá-Carneiro
   .
   Partido Social-Democrata
 .
1980-1980

DiogoFreitas do Amaral (interino)    Centro Democrático Social        1980-1981

Francisco Pinto Balsemão    Partido Social-Democrata 1981-1983

Mário Soares    Partido Socialista 1983-1985

Aníbal Cavaco Silva    Partido Social-Democrata 1985-1995

António  Guterres    Partido Socialista 1995-2002

José Manuel Durão Barroso    Partido Social-Democrata 2002-2004

Pedro  Santana Lopes    Partido Social-Democrata 2004-2005
José Sócrates Pinto de Sousa    Partido Socialista  .
2005 -2011


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Coat of arms of Portugal.svg
Governos Constitucionais
(III República)

28 maio 2010

nostalgias

e de como gosto tanto, tanto, desta interpretação do Zeca, da animação do Eurico Coelho

23 fevereiro 2010

Zeca por ele próprio

os eunucos
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Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. 
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venham mais cinco
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De resto nunca confundi as coisas, sempre disse o que hoje continuo a dizer: uma viola é uma viola, uma canção é uma canção, e não se pode confundir isso com armas e granadas. Nenhum instrumento musical faz tiro curvo.
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homenagem ao pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE
a morte saiu à rua 
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O meu envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da observação directa de situações que me revoltaram..
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Traz outro amigo também

Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde existe opressão, seja a que nível for.

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vejam bem
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(..) no povo português há uma tendência para a subserviência, para se curvar perante a autoridade, para o compadrio, os favores, para o deixar andar. Mas tudo isso existe ao lado de uma certa truculência e dignidade.
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cantar alentejano

O problema é que os direitos formais têm cada vez menos conteúdo prático. As liberdades formais não servem para nada se não tiverem consequências no dia a dia das pessoas. (..)  no fundo a liberdade é antes de mais nada a liberdade de se viver melhor.
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último concerto
os vampiros
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Zeca, autobiografia

saudades do 'andarilho'

Zeca Afonso morreu num dia 23 de Fevereiro, há 23 anos
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«Provavelmente, o mundo está mesmo feito às avessas! Anda um tipo como este Zeca a vida inteira a dar a voz e o corpo pelas causas dos outros, passam-se anos a fio de viola às costas a cantar as utopias sonhadas no dia-a-dia, e acaba tudo assim. Estupidamente, numa madrugada de chuva indecisa, como se nada tivesse acontecido antes, como se todo o passado não fosse senão um sonho longínquo. Nós, no entanto, sabemos que não foi um sonho. Crescemos a ouvir Menino de Oiro e Os Vampiros, aprendemos de cor os versos de Vejam Bem e de Grândola. Aprendemos, com o Zeca Afonso de todos os cantares andarilhos, a saborear o gosto dos encantos e das emoções, a desejar e a lutar pelas cores da liberdade.» Viriato Teles,  fonte
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maria faia
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José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Urbano Tavares Rodrigues
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já o tempo se habitua

«O Zeca era um génio. Não gosto de empregar esta palavra levianamente, no sentido norte-ou-sul-americano do termo. Somos todos geniais. Pois. Mas o Zeca era mesmo genial. E muito queria que isto não fosse um consenso, mas um dado adquirido. A diferença é subtil, mas fundamental. Porque o livro do Viriato dá a conhecer muito melhor o Zeca, e mais: dá vontade de ouvi-lo e gozá-lo e perceber como é que ele foi capaz de unir tantas referências numa obra criativa única. Um dado progressivamente adquirido, como eu gostaria que fosse a vida. Por breve que se progrida, por curta que para nós, felizes nós, tenha sido a vida dele.» - Sérgio Godinho, prefácio de "As Voltas de um Andarilho", aqui
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canto moço
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«Houve um tempo em que tínhamos apenas os nossos cantores. Hoje, temos a eternidade deles, que é feita à nossa medida. José Afonso continua fora do tempo e das gerações porque nunca foi um credo nem um mito, menos ainda uma lenda não comportada pelos sentidos da música. Ergueu em torno de si, sem nunca ter tido esse propósito, uma escola para a educação e para o sentimento do mundo. Da sua vida, é injusto dizer que passou. Seria aliás ofensivo recordá-lo apenas como um caso de fé. Uma coisa que dele sei é que pode hoje estar aqui, e amanhã ter-se ido no vento, porquan­to nunca teve um  destino.» João de Melo
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maio, maduro maio


Nascido para, como diz a cantiga, "abrir grandes janelas", o Zeca sempre suportou mal o fechamento - quer o das ideias, quer o dos espaços. Zé Mário Branco
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canção do desterro
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documentário (muito bom) com e sobre o Zeca .. e não só ..
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Zeca Afonso - Concerto Coliseu Lisboa, 1983
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biografia, AJA (Associação José Afonso)

12 fevereiro 2010

de ratos e vampiros..

andava perdido numa caixa que pouco uso.. um belo artigo de Baptista Bastos:


Baptista Bastos
De novo os velhos ratos


Continuo a frequentar, com mão diurna e mão nocturna, muitos daqueles poetas que, sem serem a minha escada de Jacob para atingir o céu, têm sido os inseparáveis companheiros da minha jornada para compreender os homens na terra. Muitos deles conheci pessoalmente, de muitos deles fui amigo pessoal, camarada de armas e ouvinte curioso e atento. Não merece a pena nomeá-los; são numerosos e talvez parecesse presunção dizer que com eles comparti tudo o que aconteceu na minha vida. As rivalidades entre eles sempre as coloquei à margem. Deram e continuam a dar a imagem do português médio e arteiro, desolado e trágico, cheio de sorriso e cheio de melancolia.

Não deixo de sorrir quando ouço a vã convocação dos seus nomes, feita por políticos notoriamente distantes do que chamam. Aposto que o dr. Cavaco nunca se deteve numa página de Torga e muito menos de Guerra Junqueiro. Citou-os, no entanto, na abertura das comemorações do centenário da República, com a displicência calma de quem os usa para suportar o que diz. Claro que foi um qualquer assessor do dr. Cavaco o autor do texto. Claro. Mas não deixa de causar uma estranha sensação de mal-estar a designação daqueles que nada têm a ver com estes. Pura girândola.

Há dias, José Sócrates, que, penso, também não será muito dado a estas coisas da literatura, convidou para um almoço (foi um almoço?, não percebi bem) jovens criadores portugueses. Trocou o nome a um deles, o que não tem muita importância, a não ser que se deseje atribuir importância a um acontecimento medíocre. Há anos, António Guterres também chamou a São Bento um sortido grupo de “intelectuais.” O objectivo, disse ele, era o de conviver com os homens e as mulheres que “produziam cultura.” Confesso que a expressão me incomodou. Saí, acaso espavorido, com Álvaro Guerra, e fomos beber uns uísques, para desanuviar. Não gosto nada destas reuniões. Nada dizem e a nada conduzem, a não ser a circunstância de os convidados sujeitarem-se a ser os “brinquinhos” da cultura com que os políticos se ataviam. Convites para isto e para aquilo recebo-os com regularidade. Em grupo, rejeito-os. Se for coisa de conversa, de troca de ideias, tudo bem. E tenho obtido conhecimentos e informações importantes, confissões e inconfidências que permanecem sigilosos.

Há dias, fui à estante e tirei um dos mais belos livros de poesia do nosso tempo: “O Nome das Coisas”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, editado em 1977, pela Moraes, no célebre Círculo de Poesia. Gostaria de partilhar com os meus Dilectos a beleza de um texto cuja grandeza jamais é ofuscada pela evidente intervenção que contém. E lá está o sonho permanente de integridade, o gosto inextinguível pela nitidez das coisas, pela eternidade inteira da liberdade.

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome de terrestre.

O poema chama-se A Forma Justa e vai por aí fora. Este pequeno livro da grande poetisa está repleto de ensinamentos a que a ordem do tempo atribuiu valor incalculável. A visão do mundo e a noção da relatividade das coisas encontram-se como um vaticínio (Nestes últimos tempos é certo a Esquerda muita vez / desfigurou as linhas do seu rosto / mas que diremos da meticulosa eficaz expedita / degradação da vida que a Direita pratica?).

Esta mundivivência reverte-nos para a situação actual. Sophia previu, como ninguém, a degenerescência de uma Revolução que recusara a pedagogia em favor da tomada do poder. As críticas que faz aos socialistas são premonitórias. Ela desejava uma sociedade ideal, fraterna e solidária (estas palavras são, hoje, apontadas como anacronismos), onde as possibilidades de tudo estivessem ao alcance de todos.

Assistimos a este desfile de contradições, de mentiras, de vacuidades, a esta petrificação do poder pelo poder, à ascensão da mais parda mediocridade que Portugal já gerou – e desalentamo-nos. Há dias, no programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, RTP-1, ouvimos tamanha dose de pesares que fomos, esbaforidamente, tomar uns Xanaxes, a fim de aliviar, um pouco, o peso do nosso desânimo.

Nada nos impele à esperança; ninguém, daqueles que valem a pena ser escutados, nos induz que as melhorias estão próximas. Pelo contrário: tudo vai piorar, os portugueses vão viver num inferno de dor e assombro, o desemprego vai aumentar dramaticamente, a emigração voltou aos valores da década de 60, quando os homens fugiam “a salto”, na demanda de um futuro mais justo; quando a nossa melhor juventude abalava da guerra colonial, do salazarismo, da espessa falta de ar e de sonho. Por esses anos, fui ver, em Paris, os bidonvilles, os bairros-da-lata imundos onde sobreviviam os nossos compatriotas. A responsabilidade dessa miséria inominável nunca foi rigorosamente atribuída. Mas sabe-se de quem era. Hoje, a erosão da mocidade mais culta e intelectualmente apetrechada, a angústia de não saber que futuro lhe está reservado faz-nos, de novo, lembrar Sophia:

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos.
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado.
Novos ratos mostram a avidez antiga.

b.bastos@netcabo.pt

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08 fevereiro 2009

coerências, desistências, resistências

um dia depois de, no parlamento, terem sido, de novo, 'chumbadas' as propostas de suspensão do presente modelo de avaliação de professores, a palavras a duas Pessoas verticais:

Sophia de Mello Breyner, Este é o tempo:

Este é o tempo
Este é o tempo

Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.


José Afonso, Os Eunucos:

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais

Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos haréns os principais
E quando os mais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos, pedem mais

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos, pedem mais!


al , em 9/1/ 2009

resistências: obrigada ao Zeca

Pelo dia, pelas circunstâncias, pela vida, pela memória, pela saudade, pelos ideais, pela verdade, pela esperança, pelas utopias, pela liberdade:



'a morte saiu à rua', a canção; o pintor, assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961, é José Dias Coelho, pai de Teresa Dias Coelho, a autora de "pain 6", no post Pablo Neruda, "estar vivo".

Em baixo, uma linogravura de José Dias Coelho: a morte de Catarina Eufémia (clicar para ouvir: a canção do Zeca que mais me emociona)

a.l., 3 /12/ 08