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25 abril 2010

Liberté

Nos meus cadernos de escola
no banco dela e nas árvores
e na areia e na neve
escrevo o teu nome

Em todas as folhas lidas
nas folhas todas em branco
pedra sangue papel cinza
escrevo o teu nome

Nas imagens todas de ouro
e nas armas dos guerreiros
nas coroas dos monarcas
escrevo o teu nome

Nas selvas e nos desertos
nos ninhos e nas giestas
no eco da minha infância
escrevo o teu nome

Nas maravilhas das noites
no pão branco das manhãs
nas estações namoradas
escrevo o teu nome

Nos meus farrapos de azul
no charco sol bolorento
no lago da lua viva
escrevo o teu nome

Nos campos e no horizonte
nas asas dos passarinhos
e no moinho das sombras
escrevo o teu nome

No bafejar das auroras
no oceano dos navios
e na montanha demente
escrevo o teu nome

Na espuma fina das nuvens
no suor do temporal
na chuva espessa apagada
escrevo o teu nome

Nas formas mais cintilantes
nos sinos todos das cores
na verdade do que é físico
escrevo o teu nome

Nos caminhos despertados
nas estradas desdobradas
nas praças que se transbordam
escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
no candeeiro que se apaga
nas minhas casas bem juntas
escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
do meu espelho e do meu quarto
na cama concha vazia
escrevo o teu nome

No meu cão guloso e terno
nas suas orelhas tesas
na sua pata desastrada
escrevo o teu nome

No trampolim desta porta
nos objectos familiares
na onda do lume bento
escrevo o teu nome

Na carne toda rendida
na fronte dos meus amigos
em cada mão que se estende
escrevo o teu nome

Na vidraça das surpresas
nos lábios todos atentos
muito acima do silêncio
escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
nos meus faróis arruinados
nas paredes do meu tédio
escrevo o teu nome

Na ausência sem desejos
na desnuda solidão
nos degraus mesmos da morte
escrevo o teu nome

Na saúde rediviva
aos riscos desaparecidos
no esperar sem saudade
escrevo o teu nome

Pelo poder duma palavra
recomeço a minha vida
nasci para conhecer-te
nomear-te

liberdade.


[paul eluard, trad. Jorge de Sena]

Paul Éluard (1895 - 1952)
Em Janeiro de 1942 o seu poema “Liberté” é lançado por aviões ingleses sobre a França. Milhares de exemplares chegam às mãos da Resistência francesa e fornecem um novo alento na luta pela libertação da ocupação nazi.

11 fevereiro 2010

não há ....


... machado
que corte 
a raiz ao pensamento,
não há morte 
para o vento, 
não há morte


*
cartaz do Maio de 68, França

Bella Ciao, a mais conhecida canção da Resistência Italiana contra o fascismo durante a 2ª guerra mundial, e um símbolo universal de luta pela liberdade


Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l'invasor.
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l'ombra di un bel fior.
E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Mi diranno «Che bel fior!»
«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

09 fevereiro 2010

la liberté pour quoi faire? *


 título de um livro de George Bernanos.
  • «Le monde moderne n'a pas le temps d'espérer, ni d'aimer, ni de rêver.»
  • «Les peuples ne peuvent se passer d' honneur, nous paierons cher d'avoir cru en nous plutôt qu'en lui.» 
  • «Un monde gagné pour la technique est perdu pour la liberté.»

Por definição, a liberdade opôe-se ao instinto. Enquanto que o instinto se aplica primeiramente e sobretudo aos animais, a liberdade apenas diz respeito ao homem, na medida em que os seres humanos têm poder de decisão sobre a sua existência (cours de philosophie)

*

Keny arkana: Ils ont peur de la liberté (rap)

Des mensonges, on nous a offert, et devine qui s'en sert? / Là où ça prie la conjoncture, où ça vénère l'économie / Où il y a peu d'Etres Humains parmi les "Etres Economiques" / Où ça construit sa propre prison, par sécurité /  Camarade... ils ont peur de la liberté!
.


Richie Havens, Freedom

  • Keny Arkana (born December 20, 1982 in Boulogne-Billancourt outside Paris) is a female French rap artist. She is active in the alter-globalization movement with "La Rage Du Peuple", a music collective created in 2004 in the neighborhood of Noailles in Marseilles.
  • Richie Havens (born January 21, 1941) is an American folk singer and guitarist. He is best known for his intense rhythmic guitar style (in open tuning), soulful covers of pop and folk songs, and his opening performance at the 1969 Woodstock Festival.

21 novembro 2009

pelo direito à liberdade de expressão e de opinião

Alguém que muito prezo disse-me: «uma opinião é uma opinião, não devias ter retirado a tua!»Também por isso, reponho aqui este post. É a minha opinião, o meu sentir, tenho pleno direito a ambos, sobretudo depois  do incitamento ao 'apedrejamento público' de que fui alvo e da maneira como me destrataram pessoas que, afinal, não merecem a minha consideração.
.
uma adenda (23/11/09) só para quem tenha a memória curta: façam o favor de ler, aqui , aqui , e aqui - tudo citado neste blogue, aqui



Os 13 'magníficos'

Assim vos chamou o João Francisco, depois que todos vocês tiveram a ousadia, o sentido de oportunidade, a lucidez e a verticalidade de publicarem na imprensa a vossa famosíssima 'declaração de intenções'. Na altura, o JF dedicou-vos até uma medalha com a efígie do Paulo Guinote. Congratulou-vos pela 'lição de coragem', chamou aos "Umbigo's thirteen" o valor mais seguro no combate à crise de valores.. (ver) Lembras-te, Paulo? Lembram-se, vocês todos outros 12 magníficos, co-autores do texto?

Era Junho e poucos os professores que ainda resistiam, de facto e no terreno. Sem O.I., andávamos quase todos à toa sem sabermos como proceder em relação à FAA. Cuja entrega os sindicatos aconselhavam. Que era de lei, constava do ECD como obrigação.. Por outro lado, a manif de 30 de Maio tinha reacendido esperanças, incendiado vontades - de não pactuar, de assumir a luta, a justeza das nossas posições - até ao fim. O assunto todos os dias inundava mails e blogues, e no entanto .. peremptórios, defensores convictos - desde o início - da não entrega de coisíssima nenhuma, apenas dois umbiguistas, o Teo e a Reb.

É então que o vosso texto aparece. Estoirou por aí com a incandescência, o troar ensurdecedor de um fogo-de-artifício. No Umbigo, o post teve 399 comentários. No Público, é divulgado com pompa e circunstância. O título-resumo, no jornal, inequívoco. E incontestado por qualquer dos autores: «Os subscritores desta declaração recusam participar numa mistificação e não vão entregar a sua ficha de auto-avaliação»

aqui, para que não haja dúvidas:
Sei bem que na vossa 'declaração' tiveram o cuidado de se ilibarem de responsabilidades colectivas. É certo que o vosso texto salvaguardava hipóteses de outras avaliações.
Não interessa. Não interessou, sobretudo, na altura. O que intuí eu, o que interiorizámos muitos, foi que havia um exemplo de verticalidade a seguir, uma única atitude digna e coerente a tomar: não entregar a FAA, nem a 'oficial', nem outra qualquer; não pactuar; não entrar nas estatísticas de sucesso do ME, relativamente às suas políticas de ADD.
Eu .. comovi-me com a vossa atitude arrojada. Eu, senti vergonha das hesitações, das dualidades que até então me tinham tolhido. E desejei estar ao vosso lado naquela hora, sofrer convosco as penalizações que viessem, quaisquer que elas fossem. Escrevi-o, divulguei-o aqui. Levei, talvez, outros a seguir-vos..

Aceito as vossas imperfeições, as vossas fraquezas, como vocês aceitarão as minhas... Mas não vos perdoo.
Não vos perdoo terem (quase todos) entregue um qualquer tipo de auto-avaliação.
Não vos perdoo que, através daquilo que entregaram, se tenham feito avaliar, logo vocês, e quase todos. Escusado iludirem-se, na óptica do ME é isso que vocês agora são: professores avaliados, e precisamente segundo a mistificação que diziam recusar. Como todos os outros, incluindo os que entregaram objectivos individuais, vocês - quase todos - cederam e pactuaram, sim. Paulatinamente integraram-se no sistema, validaram as estatísticas falaciosas do ME, deram força ao despudor da sua propaganda. Vocês - quase todos - falharam na "coerência com as atitudes e posições assumidas no passado".
Não vos perdoo terem deixado sozinhos, não só alguns (2? 3?) dos co-autores do vosso manifesto, como todos os outros colegas que, seguindo-vos, entraram inteiros nesta guerra, levaram a sério os seus princípios éticos.
Não te perdoo sobretudo a ti, Paulo. Eram 13 os signatários do documento, mas um nome sobressaía por direito próprio: o teu. Tu eras o "valor seguro" de que falava o JF. O teu nome era a garantia de que muitos precisávamos. Tinha a força de uma bandeira, a firmeza imutável de uma pedra.

Sinto-me abandonada, traída, e o que me vem à memória é uma frase do discurso do Luther King -  em meu nome, em nome de todos os professores não-avaliados:

In a sense we've come (...) to cash a check, a check which has come back marked "insufficient funds."