Muitas vezes, nas chamadas "aulas" de substituição, faço debates com os alunos. Podem ser turmas do 7.º ao 12.º ano e são sempre eles que propõem o tema. 9 em cada 10 vezes, o mais votado é o da sexualidade. Alunos de 12, 14, 16 anos, escolhem discutir o que os preocupa ou os confunde, o que vivenciam ou vêem noticiado.
Invariavelmente, vamos parar à questão da homossexualidade, e pela actualidade do assunto, também ao casamento e à adopção por parte de pessoas do mesmo sexo. Quase nenhuns se opõem ao casamento homossexual, quase todos contestam o direito de adopção. Há-os, também, e são sobretudo raparigas, que referem os maus tratos, o abandono, o incesto, a violação de crianças, no seio de famílias heterossexuais.
Apercebo-me das suas dúvidas, das suas convicções. Retenho as frases feitas, a lucidez dos contra-argumentos. Oiço-os, só às vezes peço a palavra. Conto-lhes da História, das tolerâncias outras, dos costumes e das culturas diferentes, a Roma antiga e e a civilização grega, os trajes e as maquilhagens dos nossos antigos reis. E falamos dos documentários que aconteceu vermos, alguns, no National Geographic, a homossexualidade na natureza.
Assombro-me com a maturidade de tantos destes alunos, orgulho-me da capacidade que evidenciam, quase todos, de exporem as suas ideias, de ordenadamente, democraticamente, ouvirem as dos outros, tão contrárias às suas. Saio de lá agradada, o tempo que reclama escasso quem pede para conversar a vida.
Estes alunos que eu não conheço, de quem não sei o nome, passam depois a cumprimentar-me cá fora, um sorriso - de agradecimento? - aquecendo-me o coração. E penso: que lição, os nossos jovens. Que bofetada nas propagandas toscas, nas mentes anquilosadas e doentes de tantos dos nossos 'líderes'.
Pudessem eles ensinar a tolerância a quem, avesso aos consagrados Direitos Humanos, no sábado vai , católica que não cristamente, vociferar contra o (já aprovado!) casamento entre pessoas do mesmo sexo. Torquemadas dos tempos modernos, tristes cruzados babando pelo sangue dos infieis e a carne queimada dos autos de fé e dos campos de concentração nazis.
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