04 abril 2010

«Não suporto ouvir falar de escola!»

Foi o artigo de Santana Castilho (aqui) que (d)espoletou isto: aquela frase do professor que se suicidou, "não suporto ouvir falar de escola" martelava-me como um eco, o reflexo num espelho. O sentir tão exactamente igual que suspeitava ter também verbalizado e a memória daquela impotência tanta, generalizada. O desencanto, o azedume, a atracção da desistência - tudo quanto respirámos nas escolas, nos últimos 4 anos. Que continuamos a respirar, por muitas voltas que dêem ao estatuto do aluno (e são anedotas, deixem-me que vos diga..).
Tudo efeitos da perversidade de uma senhora que deveria estar presa por crimes contra a humanidade. Que aviltou toda uma classe profissinal. Que a destruiu física e psicologicamente. Que a privou de vontades e de sonhos e de vida vivida, na prática sempre, às vezes definitiva, inapelavelmente. Que aniquilou a própria essência do 'eu'-professor. E que deixou sucessão..
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Encontrei o artigo. O autor, Daniel Oliveira, deu-lhe o título de 'Rankings e Xanax'- lembram-se? Foi publicado no Expresso em 15 de Setembro de 2008. Ainda não tinha começado o pesadelo da ADD..
Dois anos e dois períodos lectivos depois, 'repesco-o' (em excertos) pela actualidade. Incluo alguns dos comentários que suscitou, um deles meu ..
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«Esta semana evite a companhia de professores. Falar com qualquer um deles pode deixá-lo em mau estado. Vivem, nos dias que correm, em depressão colectiva. A sucessão de reformas, contra-reformas e contra-contra-reformas, (**) a destruição do que se foi fazendo de bom - do ensino especial ao ensino artístico -, a incompetência desta equipa ministerial e o linchamento público de uma classe inteira tem os resultados à vista: as aulas recomeçam com professores tão motivados como um vegetariano perante um bife na pedra.
Sabem que os espera apenas uma novidade: a avaliação do seu desempenho. E é, ao que parece, tudo o que interessa a toda a gente: a avaliação dos professores, a avaliação dos alunos, a avaliação das escolas, a avaliação do sistema educativo português.Talvez não fosse má ideia, enquanto se avaliam os professores, dar-lhes tempo para eles fazerem aquilo para que lhes pagamos em vez de os soterrar em burocracia. (...) Enquanto se fazem "rankings", conseguir que a escola seja um lugar de onde não se quer fugir. E enquanto se culpam os professores pelo atraso cultural do país, perder um segundo a ouvir o que eles têm para dizer. Agora que já os deixámos agarrados ao Xanax, acham que é possível gastar algumas energias a dar-lhes razões para gostarem do que fazem? (...).»

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comentários (podem ser lidos na íntegra aqui)

1
Bom, vamos fazer as contas: a) uma colega minha apanhou um esgotamento nervoso e físico e está de baixa há meses. É prof titular; b) um dos meus melhores amigos está de baixa também: um dia chegou ao metro e teve um ataque de pânico; c) outro colega meu começou a ver doenças em todos os lados. Está com um esgotamento físico e nervoso; d) uma colega minha teve um acesso de choro convulsivo em plena reunião. Está de baixa; e) Eu? Eu estou a Cloxam, um excelente ansiolítico! Não, AINDA não estou de baixa... E tudo isto no espaço de três meses!!- SandraCosta37
2
Numa vida inteira passada na Escola nunca a encontrei em tamanha desgraça. Não é só a desmotivação dos professores (que já não seria pouco). É ninguém se entender. É os mais incompetentes a mandarem. É a falta de bom senso nas decisões (das poucas que ainda podem ser tomadas na Escola). A autonomia retoricamente apregoada é isso mesmo: RETÓRICA. As Escolas são dirigidas centralmente por fax e email's. Quem legislou e impôs uma política nas escolas ou era ignorante ou incapaz. - aguafria
3
(...) Quando o dinheiro manifestamente não me chegar, mudo de profissão, com a vantagem de poder agradecer ao nosso governo o facto de não ir ter saudades do ensino. (...)- Professor.com.muita. 
4
(...) Com o brilhante novo ECD, os professores passam horas intermináveis nas escolas: 'acompanhamento de alunos' - furo - furo - aula - furo - aula - reunião (...). Quando têm de dar uma aula a sério (não confundir com a demagogia das de substituição!!) , estão já cansados, com sono, sem paciência. Chegam a casa, que é o local que lhes oferece condições de trabalho, e transformam-se em 'couch potatoes' (isto se tiverem sorte...) , de tão esmagados - a energia sugada até ao tutano. Eu ... tento manter um periclitante 'estado de graça' que me sobra ainda do mês de férias que gozei (sim, um mês, para que não haja equívocos. E ainda fiz revisão de provas de exame durante as férias!). Boa companhia, não sei se sou - passo os intervalos ao sol e ao relento, para poder fumar (isto apesar de a minha escola ter uma sala preparada para fumadores, ser constituída por pavilhões e ter metros e metros quadrados de jardim e outros espaços ao ar livre!!). Só sei é que não quero ouvir falar de escola, nem de fichas de avaliação, nem de objectivos individuais. Nada de nada. E apetece-me dizer: "Deixem-me trabalhar!" mas naquilo que é importante: as aulas, a sua preparação rigorosa - que implica estudo, e pesquisa, e evolução. (...) - estou no topo da carreira e só me apetece é sair dela - não pelos alunos, que são o que ainda me 'agarra' - por tudo o resto que me abafa.  - AL

Setembro de 2008 (.. e ainda não tinha começado o pesadelo da ADD!!
- qq mês de 2009 - 2010 ...

(**)  Corruptissima re publica plurimae leges (Quanto mais corrupto for o país, mais leis haverá)
- in provérbios latinos (Tácito)

a imagem (esticada), de Artur Bual

2 comentários:

DANIELA BORALI ॐ disse...

Olá!
Primeiro quero dizer que seu blog é muito interessante e revolucionário também!!!! Eu ame...
Parabéns!!!!!!
Também sou professora aqui no Brasil e de verdade não imaginei que o problema que passamos aqui não é diferente dos de vocês... Muito triste todo este descaso com os professores e com todo sistema educacional...
Faz um mês que estamos em greve aqui no meu Estado onde moro: São Paulo. Dou aula em escola pública há dez e este é um dos governos mais terrível e opressor que já tivemos...
Um grande abraço!
Dani

MJS disse...

Ana, falas de uma mulher(?) abjecta que ficará nas nossas más memórias até ao fim dos nossos dias.
Falas de uma sinistrosa rancorosa que só fez o que fez porque lhe foi permitido fazê-lo.
Falas de um panorama que se agravou drasticamente, porque os professores, esses estão mais esgotados, mais desmotivados e, mais grave ainda, mais descrentes e mais anestesiados do que há dois anos atrás.
Remédio para este mal? Não, não é mexendo nesses estatutos de caca, é mudando toda uma mentalidade, é alterando toda uma sociedade... e isso, minha amiga, é tarefa árdua que vai demorar tempo a executar quando, e só quando, houver alguém digno e capaz de enveredar por esse projecto que não abarca só um sector da sociedade, mas a sociedade em geral... porque a sociedade está doente. "ISTO" terá de mudar tudo um dia! Quando?...
Quanto à sinistra? Que vá arder nos quintos dos infernos!