Imaginemos um país de gente lúcida.
Imaginemos um povo que decide tomar o freio nos dentes, rebelar-se, alterar a sua sorte.
Imaginemos uma gente muito farta deste caminhar entre o nada e o nada, deste não sair nunca da cepa torta, da eterna, inevitável, crise-só-para-alguns.
Imaginemos um povo cansado de assistir impotente a alternâncias bicolores, laranja e cor-de-rosa, e outra vez laranja, e outra vez cor-de-rosa.
Um povo que finalmente diz "não! e basta de mais do mesmo!" , e decide experimentar outros caminhos.
Um povo que percebe que o futuro, afinal, não é uma fatalidade!
E que não é justo, nem natural, nem democrático, que uns quantos 'encartados', sempre os mesmos, laranja, cor-de-rosa, enriqueçam desmedidamente, ilicitamente, consigam empregos e benesses, impensáveis perdões..
Um povo que se farta de políticos corruptos, incompetentes, desonestos, uns atrás dos outros, governo após governo, e sempre os mesmos, desde há 35 anos - laranja, cor-de-rosa.
Um povo que não quer mais da cantiga fatalista que sempre, desafinadamente, lhe vêm cantando: "ou nós ou o caos, não há alternativa!".
Um povo que de repente tira a venda dos olhos e vê que o rei, estes todos reis que há anos o (des)governam, vão nus. Que estes todos mandantes, a quem foram dando oportunidades atrás de oportunidades, afinal não têm nada de novo a oferecer.
Imaginemos então um povo que hoje acordou e sentiu uma saudade imensa do 25 de Abril de 1974- uma saudade insuportável do que então viveu, do que então sonhou possível, para si, para os seus filhos, o seu país.
Imaginemos um povo, hoje. Que, pela primeira vez com a sua própria caneta, e a sua vontade, e a sua lucidez reencontrada, decide mudar o destino de um país que cada vez mais se entristece e se apaga. Um país que inexoravelmente se afunda em pobreza e em dívidas. Um país de onde de novo se emigra, e agora são os melhores que se vão: ondas imparáveis de técnicos, cientistas, médicos, enfermeiros, professores..
Um povo que, de novo, como que se faz ao mar, crente só na sua força e na sua coragem, e, sem medo de adamastores, traça ele próprio a sua rota. Um povo que, descrente e desencantado, deixara de votar e agora embarca também nesta viagem, assumindo um rumo.
Um povo inteiro, um povo lúcido que não quer mais destes falsos timoneiros, matadores da esperança.
Imaginemos hoje, ao fim do dia.
Nem um voto laranja, nem um voto cor-de-rosa.
Uma miríade de cores tocando uma música de esperança, um hino de mudança.
Cores que, dançando, formarão quase um arco-íris, que, quem sabe, desenharão um país novo
Imaginemos ..
quadro de Kandinsky