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18 setembro 2010

Ferreira Gullar premiado

Prémio Camões: A poesia «valeu a pena», diz Ferreira Gullar

Emocionado durante a entrega do Prémio Camões 2010, na noite de quinta-feira (16 de Setembro) , no Rio de Janeiro, o poeta maranhense Ferreira Gullar disse que toda a sua poesia «valeu a pena» e, se depender dele, não vai parar de escrever tão cedo.

«Estou feliz, porque eu vejo que os meus amigos e o pessoal que me lê estão felizes», afirmou Gullar aos jornalistas, após receber, em mãos, o prémio dos representantes dos Governos do Brasil e de Portugal.

Aos 80 anos, Ferreira Gullar é o 22º escritor a receber o mais importante prémio literário (*) da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)

Diário Digital / Lusa 

(*) no valor de 100.000 euros
foto (que acompanha um texto) retirada daqui

*
NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira




sobre este autor, ver  aqui  , mais 2 poemas e notícia da atribuição do prémio

01 junho 2010

Ferreira Gullar ganha Prémio Camões 2010


Nascido em São Luis do Maranhão, em 1930, Ferreira Gullar procurou apontar em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro.

De uma forma precisa e profundamente poética traçou rumos e participou ativamente das mudanças políticas e sociais brasileiras, o que lhe levou à prisão juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e posteriormente ao exílio em 1971 .

Poeta, crítico, teatrólogo e intelectual, Ferreira Gullar entra para a história da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras. fonte

ver aqui : e-poemas     ;   sítio oficial, aqui

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
         nem me quis

sem começo
nem fim

        aqui me tenho
        sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
          transparente


Filhos - ouça a narração do poema na voz de Ferreira Gullar em RealAudio
.