16 junho 2009

Cruzeiro Seixas

Há tempos (ñ muito distantes) ouvi-o na TSF. Contou de si, do seu entendimento da vida, da sua obra. 89 anos transparentes de juventude, audácia, garra, graça. E vou citá-lo de cor, nessa entrevista que ouvi .. «Era suposto ter morrido aos 7 anos, de tão fraquinho, sempre doente. Resisti, não aconteceu." (...) "Tive muita sorte com os meus pais. Nunca me forçaram a nada, nunca me massacraram com aquelas perguntas que os pais, a família, teimam em fazer: então já tens namorada, quando é que te casas?- os meus pais souberam sempre respeitar as minhas opções.»

Fiquei fascinada com a força que imanava daquela voz, com a pessoa que se adivinhava, o artista de que conhecia pouco mais que o nome, procurei-o por aí. A cada descoberta (da autenticidade, da humildade de que são capazes apenas as pessoas muito grandes), cresceu a minha admiração por ele, o meu respeito. Adoptei inclusive uma citação sua, quase como um lema de vida: «Quanto mais vejo à minha volta pessoas triunfantes e realizadas, mais forte é a minha tentação de ser apenas um falhado.»

Cruzeiro Seixas em discurso directo,

As minhas coisas “acontecem”, porque são uma necessidade profunda. Em qualquer circunstância da vida vejo-me a garatujar num papel ou numa parede. » (...) «Desenhar e pintar são necessidades independentes de mim, que tem a sua parte de necessidade fisiológica.»

«O meu método de desenho é não ter método. Todo o método me aflige: sou de facto anárquico ou de certa maneira nihilista (...)»

«A técnica é coisa muito de se lhe tirar o chapéu, mas não é o principal. Além disso, por certo, para ela não estou vocacionado. A alma é a minha técnica, e se há algum valor naquilo que faço, isso advém de um excesso de alma. »

«Quantas vezes parei comovido para ouvir o cheiro das coisas, ou para enxugar as lágrimas do mar?»…

«Nunca tive pretensões intelectuais. E não tenho. Só que barafusto perante a vida, barafustarei sempre. »

«A arte deu-nos a Gioconda, a Vitória de Samotracia, o Greco ou os impressionistas… mas a obra- prima, a coisa mais bela do mundo desde que o mundo é mundo deve ser amar e ser amado. O amor é a arte sublime de nos metamorfosearmos.»

«a homossexualidade andava pelas ruas, era uma coisa linda. Para mim, desde o princípio, foi a arma mais terrível contra tudo o que havia à minha volta e com que eu não estava de acordo - chamasse-se ou não fascismo.

Era uma atitude de revolta: eu era contra a sociedade como estava organizada através do amor que fazia com este ou com aquele. Era a porta da minha liberdade mais imediata. Foi algo que agarrei com ambas as mãos para construir a minha liberdade e reforçar-me enquanto pessoa. » fonte


Cruzeiro Seixas visto pelos outros:

« Em 1973, no número 4 de Phases, Mario Cesarïny fez uma exposição detalhada da história do surrealismo português, e nela faz este elogio de Cruzeiro Seixas: “A única personalidade entre nós capaz de transpor para a segunda metade do século, magnificando-a, a herança plástica e erótica legada pelo surrealismo dos anos 30.» fonte

«Quem passou a vida a resistir, a persistir, sem nunca se ter dobrado, conserva-se mais facilmente direito até ao fim.» José Mel dos Santos :fonte

«Não saberia vos dizer mais sobre Cruzeiro Seixas no momento, até que eu tenha estudado mais em detalhe seus escritos e suas pinturas. Minha reação é a de um amador de arte e de poesia confrontado de repente a um tal artista poeta. Eu o considero não somente como um grande surrealista português, mas sobretudo como uma figura marcante do surrealismo universal. Mais que um pintor e um poeta, é um manifestante, quero dizer um homem que manifesta a supremacia da vida interior. Isso lhe confere uma qualidade pouco comum no mundo atual. » fonte

«... Artur Cruzeiro Seixas, a quem o mundo deve indiscutivelmente tantos dos mais maravilhosos desenhos das ultimas cinco décadas, é também um dos incontestáveis mestres deste Pluriverso em perpétua transmutação. Uma figura principal no movimento surrealista internacional pela segunda metade do séc.XX, ele continua a ser como a presente exposição demonstra, um excelente exemplo e mentor do séc. XXI». Franklin Rosemont, figura de proa do Surrealismo americano fonte

Até quando
sementes
estaremos entregues
a este passar sobre a terra
exausta de nos esperar?

Até quando havemos de sonhar
ser flor e fruto
e não a dor infinita da morte
do teu olhar?
Cruzeiro Seixas

mais poemas de Cruzeiro Seixas: aqui , aqui, aqui

Je te salue, Cruzeiro Seixas! - um olhar sobre o artista e a sua obra,
aqui


Nascido em 1920, Cruzeiro Seixas, que diz não ser pintor (nem escritor), mas um homem que pinta (e escreve) é, para muitos, o maior expoente do Surrealismo português. Expõe desde os anos 40 e está representado nos principais museus em Portugal, nomeadamente o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e o Museu do Chiado.

3 comentários:

Rustenes disse...

Olá passando aqui para deixar minhas congratulações e dizer que estarei a seguir agora seu blog....Venha fazer uma visita ao meu e compartilhar informações...Abraços

Teodoro disse...

Gostei de te saber admiradora! Eu também sou, e são do movimento surrealista os primeiros quadros e letras que me fascinaram. Fascinaram-me também pelo comportamento inconformado. Alguma influência tiveram na minha vida.
Citas aqui um grande amigo meu, juntos partilhámos bebedeiras de palavras, sons, e andanças, com o M. Cesariny, pela Lisboa, de tertúlias e cafés, que desapareceu e o fez refugiar. Pedia-lhe muito para falar do Cruzeiro Seixas, tinham-se zangado mas percebia-se um ódio de amor. Cabeças livres como poucas, que falta nos fazem.

al disse...

o contrário, Teo (ñ seres admirador) é que me espantava! :-))

cabeças livres, é verdade, precisam-se - e de que maneira
bj