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21 setembro 2011

Omens sem H

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Em Público
Omens sem H 
- Por Nuno Pacheco


"Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos.

No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece. A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim. Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco. Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje. Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.

Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio.

O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota. "É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico. É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas?

O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas, espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie,tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen? Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"?

Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas. Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita".

Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema. A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.

Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo. Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores? Vermelhas? Amarelas? Brancas? Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo. Só omens sem H podem ter inventado isto, é garantido."
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texto retirado daqui
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15 abril 2011

carta aberta aos professores de português

retirada daqui

Exmos. Srs.

Professores de Português,

Segundo noticiaram os jornais em Dezembro do ano passado, o Governo determinou que no próximo ano lectivo (2011/2012) irá já leccionar-se segundo o Acordo Ortográfico de 1990. Esta deliberação afecta todas as disciplinas mas, naturalmente, são os professores de Português que estarão no centro das atenções.

Considerando que:
O AO90 recolheu pareceres negativos das mais variadas instituições (Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário, Comissão Nacional da Língua Portuguesa, Associação Portuguesa de Linguística, Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, Departamento de Linguística da Fac. de Letras de Lisboa, etc.) e de muitos linguistas credenciados.

Considerando ainda que:
O AO90 é, globalmente considerado, com as suas incoerências, e com o aumento das homofonias e homografias, uma norma que serve PIOR a Língua Portuguesa do que a que vigora actualmente.

Pergunto-me se não poderão os professores de Português lutar para que se mantenha no programa de ensino, no mínimo, uma referência às duas normas que, no fundo, o Acordo Ortográfico não apaga completamente e continuarão a existir. Esta referência seria integradora e estabeleceria pontes entre culturas, ao contrário do actual acordo, que mutila.

Além disso, e porque o saber não ocupa lugar, daria expressão a uma coisa que já todos fazemos de forma espontânea: aprender que eles dizem esporte e nós dizemos desporto, nós dizemos registo e eles dizem registro.

[...]
Atenciosamente,
Rui Valente
Coimbra