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08 fevereiro 2009

clar-evidências: Bertolt Brecht

Mandou-me isto uma amiga, na sequência do post anterior. Achei .. muito apropriado:

De que serve a bondade
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não – livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertolt Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' ; Tradução de Paulo Quintela

Fiz depois uma pesquisa rápida e fui parar ao sítio As Tormentas [cliquem e façam o favor de ler: tudo, absoluta, inquestionavelmente, tudo!]. Eu, fiquei deslumbrada (ultimamente acontece-me muito, por que será?!:-)) desta vez com a actualidade, a clarividência dos poemas todos que o Luís Rodrigues lá pôs do Bertolt Brecht, genial dramaturgo alemão de que avidamente li (em alemão!!) acho que tudo, em tempos de faculdade.. Que é imperdoável não conhecerem.

E não resisti, transcrevo o que abaixo lerão, e que me traz à memória 'uma frase ultimamente muito batida' : "é a lei, que se há-de fazer? ......"
«Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar - Bertolt Brecht

a esta citação resisti ainda menos.. ora vejam:
«O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.»
- poema "O Analfabeto Político" ,
B. Brecht


al

a literatura, as paixões: Valter Hugo Mãe

Como se atravessa uma ponte, de regresso ao que, para sempre e inexoravelmente, deixou de ser? Como voltar agora ao caminho tranquilo dos livros ‘normais’, depois de dias e dias passados em fascínio, do outro lado? Depois de ter permanecido padecido perecido, lá onde cada linha é um desafio, um mergulho, um salto no escuro; um ser-se - apaixonadamente; um descobrir-se, desabituado de uma linguagem que nos sacode, e que adivinhamos Lugar, e Nascimento. Construção absolutamente nas margens, e ainda assim perceptível. Revolucionarizante, e apesar disso coerente de códigos e regras.


É assim. Há Autores que nos renovam e nos agitam. Que irremediavelmente nos desassossegam. Que nos fazem, também, sentir pequenos, pequenos, pequenos. Este é Um e chama-se valter hugo mãe.

Dele quis ler “o apocalipse dos trabalhadores”, que li recomendado como ‘um livro excepcional’. Esgotado, em toda a parte. Do Autor encontrei então um outro romance, edição de bolso com letra de tamanho minúsculo, mesmo assim irrecusável: “o remorso de baltazar serapião”, ganhador, em 2007, do prémio José Saramago, que o apelida de ‘tsunami’. Citando esse outro Grande Transgressor: «Este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força. Foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando o li. […] Tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura



Não vou desvendar enredos, nem deter-me em análises pessoais. Não vou, sequer, referir Cortázar, ou a literatura africana de expressão portuguesa, como influências que, a espaços, me parece descortinar. Deixo-vos com dois excertos, para que possam ajuizar sozinhos, para que (confio ..) em deslumbramento vos cresçam apetites inadiáveis:


« […] nós éramos os sargas, o aldegundes sarga, dos sargas, diziam. ele é sarga, é dos sargas cara chapada. nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso. dizia o meu pai, o povo simplifica tudo e a nós vêem-nos com a vaca e lembram-se dela, que é mais fácil para se lembrarem de nós e nos identificarem. a vaca era a nossa grande história, pensava eu, como haveria de nos apelidar a todos e servir de tema de conversa quando perguntavam pela mãe, pelo pai, perguntavam pela vaca, magra, feia, tonta da cabeça, sempre pronta a morrer sem morrer. e riam-se assim com o nosso disparate de ter um animal tão tratado como família, e não entendiam muito bem. […]»

«[…] aproximei-me dos dois, grande e imbatível como uma pedra de ódio construída no exercício do meu bom amor, e me pus diante deles tão pequenos. afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou. a sarga mugiu de modo lancinante. e eu abati-me sobre os dois abrindo lado a lado os braços de punhos fechados. um só golpe certeiro sobre as suas cabeças. um só golpe com a violência da pedra mais furiosa do mundo. sobraram no chão como mais nada ali estivesse. […] »


Notas:
Esqueci-me de dizer: Valter Hugo Mãe não usa maiúsculas – em nada, alegadamente por achar não serem algumas palavras mais importantes que as outras. Mas isso é, apenas, um pormenor, e absolutamente despiciendo.

- tem uma página web, onde se pode ler uma autobiografia deliciosa:
aqui
- um blogue: casadeosso
- está também aqui, juntamente com outros dois prémios J. Saramago

al

a literatura, as paixões: Margarita e o Mestre

Margarita e o Mestre (clicar para ver resenha crítica, resumo e informações sb o autor) foi-me recomendado por uma amiga. O autor, Mikhail Bulgakov (1891-1940) é um romancista e dramaturgo russo da primeira metade do século XX, e Margarita e o Mestre a sua obra mais emblemática. Há quem diga que o Realismo Mágico, cujo início é assinalado por Cem Anos de Solidão, esse livro maior de Gabriel García Márquez, terá sido antecipado (em cerca de 3 décadas) por esta obra prima de Bulgakov.
Pesquisando sobre o autor e este livro, fiquei com imensa vontade de lê-lo. Ora vejam se não vos apetece, também:

o autor: Bulgakov viveu sob o regime de Estaline (...) Em segredo e com o constante temor de ser descoberto, trabalha no manuscrito de Margarita e o Mestre (...) Existe, à época, o termo "bulgakovismo", encarado como um vírus burguês, decididamente pernicioso.

a estória: No centro histórico de Moscovo, no Parque do Lago do Patriarca, um poeta medíocre e um dirigente da MASSOLIT (sigla irónica, que significa literatura de massas, parodiando as associações de escritores do regime) discutem a não existência de Cristo. No banco ao lado, aparece o diabo, na figura de um mágico, Woland (...)
Travamos depois conhecimento com a versátil corte do diabo, de onde emerge a corrosiva sátira política e social que este romance também é, embora a história se centre no amor entre Margarita e o Mestre.

Margarita é uma dama casada e aparentemente bem estabelecida na sociedade, mas profundamente infeliz, até que conhece o Mestre, um escritor desconhecido por quem se apaixona perdidamente. Quando este mestre sem nome é levado (sem que ela saiba) para uma clínica psiquiátrica, depois de ter queimado um manuscrito, Margarita não se conforma (…)

Invertendo o mito de Fausto, Bulgakov põe a sua personagem a oferecer a alma ao diabo para reencontrar o amado e recuperar o manuscrito. Margarita transforma-se em bruxa ...

fontes:
Mil Folhas, artigo de Alexandra Lucas Coelho
(muito interessante)

blogue 'stranger in a strange land', de Safaa Dib: "descobri Mikhail Bulgakov graças a uma curiosa canção (*)dos Franz Ferdinand, em que Margarita voa pelos céus de Moscovo, em busca de vingança pelo seu amor. "

aqui, a música (*) : Love and Destroy .. e a letra, aqui

al

a literatura, as paixões: Steven Saylor, série Roma sub-rosa

Se tiverem mesmo de comprar prendas de natal (... sim, que tb há quem já tenha optado por dizer não à febre consumista que define esta época ... :-)) , oferecer livros será sempre uma boa opção. Os que aqui vos propomos vão, com certeza, agradar-vos:
O 'herói' é Gordiano, O Descobridor. A época vai (mais ou menos) de 100 a 50 anos a. C., na Roma antiga. O escritor, americano, chama-se Steven Saylor e é também historiador. A série: ROMA SUB-ROSA, um conjunto de romances empolgantes, que, por entre obscuros meandros de intriga, mistério, paixões, assassinatos, suspense, nos vão suavemente passando umas interessantíssimas lições de história.
O primeiro volume desta colecção chama-se Sangue Romano e está normalmente esgotado, mas cada romance é uma história independente, pelo que qualquer livro desta colecção será um bom princípio para conhecer Gordiano e as suas aventuras.

E depois, sabem como é, quando se espera ansiosamente a publicação de um novo livro? Pois assim é esta série. Absolutamente viciante! Vão aprendendo o nome do autor: Steven Saylor, again, e preparem-se para engrossar a já vasta lista de fãs. Não esqueçam: Roma sub-rosa, o nome que interessa fixar - ou, em alternativa, o de cada um dos 12 volumes (por ordem cronológica) :

  • Sangue Romano
  • A Casa das Vestais
  • Um Gladiador só morre uma vez
  • O Abraço de Némesis
  • O Enigma de Catilina
  • O Lance de Vénus
  • Crime na Via Ápia
  • Rubicão
  • Desaparecido em Massília
  • Névoa de Profecias
  • A Sentença de César
  • O Triunfo de César

al

a literatura, as paixões: Julio Cortazar (2) - Rayuela

Rayuela significa 'jogo da macaca' (em português do Brasil, 'jogo da amarelinha'). A editora Cavalo de Ferro, que publicou este livro de Julio Cortázar, deu-lhe o nome de 'O Jogo do Mundo' e publicitou-o assim:

A publicação de «O jogo do mundo» (Rayuela) em 1963 foi uma verdadeira revolução no romance mundial: pela primeira vez, um escritor levava até às últimas consequências a vontade de transgredir a ordem tradicional de uma história e a linguagem usada para a contar. O resultado é este livro único, cheio de humor, de risco e de uma originalidade sem precedentes.

Considerado o romance que melhor retrata as inquietudes e melhor resume o Século XX na visão latino-americana do mundo(...) , gerações de escritores são, de uma maneira ou de outra, devedoras de «O jogo do mundo»

Já aqui fizémos referência às transgressões de Cortázar, presentes neste romance. Queremos deixar aqui, agora, um excerto que vos leve a entendê-lo, a querer-lhe para além (ou apesar) delas.. e, acreditem, seleccioná-lo, abdicar de uma imensa lista de excertos, ñ foi fácil.. aqui fica, então, a Poesia de Cortázar :
Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
início do capítulo 7, "O Jogo do Mundo", Julio Cortázar

al, 20 /12/ 08

07 fevereiro 2009

F.Pessoa: minha pátria é a língua portuguesa

- de tirar o fôlego, por tão bem escrito, um texto de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa: "Bernardo Soares sou eu menos o raciocínio e afectividade"

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

a.l.

o primeiro amor, de Miguel Esteves Cardoso

Aqui fica um bonito texto de Miguel Esteves Cardoso,
enviado pela Carla, do 11.ºD
É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro amor, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes-morrer-que-ter-outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói – porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.É como a criança que põe dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa “Meu Deus! Como pode ser!” do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual um micro-ondas. Mas o “Zing!” inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse.Não há amor como o primeiro. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltámos. Saltamos e caímos.O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores – o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.Não há regra para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria o primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar.Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro a esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.

postado por ana lima

a literatura, as paixões: venenos de deus, remédios do diabo

  • Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias.
  • Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias.
  • Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias.
  • Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas.
  • Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias.
  • Aos 6o ainda temos ideias, mas esquecemos do que estávamos a pensar.
  • Aos 70, só pensar já nos faz dormir.
  • Aos 80 só pensamos quando dormimos.
fala de Bartolomeu Sozinho, mais filósofo que marinheiro, personagem de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, o último romance do escritor moçambicano Mia Couto. (clicar no nome para ler entrevista no JL)

a.l., em 28/11/2008

a literatura, as paixões: Carlos Ruiz Zafón

«Da próxima vez que quiseres salvar
um livro, não precisas de arriscar a vida ..!
Vou levar-te a um lugar secreto,
onde os livros nunca morrem,
e onde ninguém pode destruí-los! »

Este, o lugar mágico de A Sombra do Vento, o livro que tornou famoso o seu autor, Carlos Ruiz Zafón, também compositor... Um lugar que podes agora revisitar em O Jogo do Anjo, um romance em que Zafón te transporta, de novo, à Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos. Um labirinto de segredos onde a intriga, o mistério, o feitiço dos livros e a paixão se conjugam num relato empolgante.

o que te deixamos, AQUI , agora, é um convite: entra, olha por um instante o azul...há um dragão...fixa-te na espiral da cauda ... deixa-te hipnotizar ... agora fecha os olhos ... ouve o piano ...


a. l.

Sátira, de A. Lobo Antunes

Sátira aos HOMENS quando estão com gripe

Pachos na testa,
terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

a.l.

a literatura, as paixões: Man in the dark

Em vésperas de eleições nos Estados Unidos, a sugestão de uma leitura: Man in the Dark (clicar para ver sinopse, etc), um livro do escritor americano Paul Auster.

Numa estória dentro da estória, há um homem que, nas suas noites de insónia, vai imaginando, construindo uma América 'alternativa', cuja História começa no ano 2000, logo após a eleição de Bush. Revoltados com o resultado das eleições (em que Al Gore, reunindo mais votos, é, no entanto, derrotado - lembram-se daquelas contagens e recontagens?), os Estados começam a declarar a sua separação da União. O primeiro, claro! (ver em baixo porquê - 'claro' ) é o de Nova Iorque. Outros 15 se lhe seguirão e a América está em guerra. Nada de novo, só que, desta vez, não com o mundo, mas consigo própria.

Neste mundo paralelo, o 11 de Setembro (2001) nunca aconteceu. As torres gémeas continuam de pé. Não houve a invasão do Afganistão. Não há guerra no Iraque. «Há uma guerra civil em que se disparam sobretudo ideias, e que se leva ao limite». Mortíferas, tão devastadoras como balas. Ler aqui a entrevista do autor ao El País: - interessantíssima, elucidativa: «Nos EU há dois mundos que não comunicam entre si!»

O tema deste romance de Paul Auster 'nasce' de um inconformismo, uma não-aceitação do 'estado das coisas', no seu país: «Há oito anos, desde o golpe de estado legal que derrotou Al Gore, que sinto como se vivesse num mundo paralelo que acabou por tornar-se real, e tudo só tem vindo a piorar!»
Não é casualidade que a guerra civil de Brick (o 'homem no escuro') comece com a independência de Nova York. "E não é piada: há muita gente que pensa que NY deveria ser um Estado independente; tanto que, após o 11 de Setembro, houve uma revista de poesia que escreveu, na 1ª página: 'USA out of NYC'; muitos outros odeiam NY pelo que representa, com 40% da população vinda de fora...".

Acrescente-se que Auster votará em Obama ("em condições normais, tendo a Administração de Bush funcionado tão mal, Obama deveria ganhar, mas há a questão de ser negro: em 4 de Novembro veremos o quão racistas são os EU") - Paul Auster, ao El País

O livro, interessantíssimo, não está ainda traduzido em Portugal. Encontram-no na Fnac (ou podem encomendá-lo aqui ) na versão original. O Inglês é muito acessível. E .. recomendo-o vivamente! Vão ver que o lêem de um fôlego!:-)

Sobre o Paul Auster, há neste blog outro post. Podem vê-lo em vídeo, lendo excertos de 'Man in the dark' - garanto que vale a pena!:-)

postado por ana lima em 2/11/2008

a literatura, as paixões: La Catedral del Mar

É um livro apaixonante, daqueles por que [assim mesmo, separado= pelos quais] apetece regressar a casa … O romance (que já vai na 36ª edição) chama-se “A Catedral do Mar” e o seu autor, um espanhol, leia-se,... catalão :-) de Barcelona: Ildefonso Falcones
Falcones faz um retrato empolgante de uma Catalunha medieval assolada por conflitos feudais, pela guerra, a peste, a inquisição… Os personagens principais acabam por ser o Povo – sofrido e ao mesmo tempo heróico, e a sua cidade condal, Barcelona, que, como uma mãe, acolhe e dá estatuto de cidadãos livres a quantos se refugiam no seu seio.
Assim um cheirinho a “O Memorial do Convento”, do Nobel português (que lucidamente se mudou para Lanzarote) José Saramago, e a “A História do Rei Transparente”, da madrilena Rosa Montero.

'encuentros digitales' com o autor: aqui


postado por ana lima

Le Clézio, Prémio Nobel da Literatura 2008

(agência Lusa): Jean-Marie Gustave Le Clézio, de 68 anos, foi no dia 9 de Outubro distinguido pela Academia Sueca com Prémio Nobel da Literatura 2008.

Le Clézio receberá a medalha e o diploma das mãos do Rei da Suécia, Carlos Gustavo, a 10 de Dezembro, em Estocolmo, e um cheque de 10 milhões de coroas suecas (1,02 milhão de euros).

O júri justificou a atribuição do prémio ao autor francês caracterizando-o como um "escritor da ruptura, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade mais além e na base da civilização reinante".
Le Clézio, que é considerado em França um dos maiores escritores da língua francesa contemporâneos, 'bateu' nomes altamente cotados, como o americano Philip Roth e o britânico Ian McEwan.
"Escrever não é apenas ficar sentado na sua mesa consigo mesmo, é escutar o ruído do mundo. Quando se está na posição de escritor, percebe-se melhor o ruído do mundo, vai-se de encontro ao mundo", disse o autor, que reside no Novo México e é um apaixonado pela cultura hispano-americana.

E aproveitou a janela aberta pelo Nobel para recomendar a leitura de romances como antídoto para os problemas que afectam a humanidade, por exemplo, a crise económica com "a tendência excessiva de destacar o perigo que representam os estrangeiros".

"Ler romances é uma boa forma de interrogar o mundo actual sem que o resultado sejam respostas demasiado esquemáticas. O romancista não é um filósofo, não é um técnico da língua, é alguém que faz perguntas e, se há uma mensagem que gostaria de enviar, é a de que devemos fazer perguntas", disse Le Clézio.
notícia em: http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art256773,0.htm


a lista dos 10 últimos vencedores do Nobel da Literatura:

- 2007: Doris Lessing (Reino Unido)
- 2006: Orhan Pamuk (Turquia)
- 2005: Harold Pinter (Reino Unido)
- 2004: Elfriede Jelinek (Áustria)
- 2003: J.M. Coetzee (África do Sul)
- 2002: Imre Kertesz (Hungria)
- 2001: V.S. Naipaul (Trinidad/Reino Unido)
- 2000: Gao Xingjian (China)
- 1999: Gunter Grass (Alemanha)
- 1998: José Saramago (Portugal)


postado por ana lima

a literatura, as paixões: João de Melo

Numa altura em que a chamada 'prosa light' prolifera pelas livrarias como maçãs envenenadas, vamos aqui, periodicamente, dedicar alguns posts à divulgação, sim, mas da boa literatura.
E ... gracias! - aos bons autores e aos bons livros, que nos preenchem: de sonhos, de sombras, e de vida ...

Comecemos, então, pelo senhor ao lado: João de Melo (além de escritor, também professor, actualmente Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Madrid e principal responsável pela Mostra da Cultura Portuguesa)

João de Melo é um mago das palavras, que entretece com uma mestria rara (muito rara..), num registo intimista e quase sempre comovente. Escreve como se, sussurrando ao ouvido do leitor, se confessasse . Ou como se compusesse música: às vezes uma sinfonia, uma sonata (- appassionata...) , às vezes um requiem.

A sua prosa é intensamente poética, de uma sensibilidade primordial, à flor da pele. Mesmo quando, “um cão revolvendo-se-lhe no estômago ou nos pulmões”, se entrega - inteiro, desnudo, ao relato de experiências terríveis - vividas ou imaginadas. É assim, por exemplo, no conto “A Esposa”, mas sobretudo nesse inigualável “Autópsia de um Mar de Ruínas”: um romance visceral, 'dorido e doloroso', a um tempo belo e cruel. A palavra em carne viva, a memória enferma da guerra colonial em Angola, onde (citando Nuno Bragança) "foi - para salvar vidas." Um livro que dói como uma perda, ou uma pedra. Um livro que não conseguimos - que não podemos - deixar de ler.

Depois ... em João de Melo há também Lisboa, a cidade onde viveu grande parte da sua vida – uma cidade que ele vê em arco, onde 'é' ..."O Homem Suspenso". E há Évora, que ama 'como a si mesmo'. Há as ilhas. E as frágeis criptomérias, sempre tão carentes de amor …
E há o mar (oh, sim, o mar!...) : o branco, dos Açores, o de Madrid, do seu último romance, e sobretudo, o outro, do conto “O Gémeo e a Sombra”. Do mais bonito que alguma vez li…

Então..? Imperdoável não conhecer este escritor, verdad ? Perguntem por ele na Fnac, nas livrarias da Baixa, na Byblos (conhecem? - boa oportunidade para uma visita, não? Fica em frente às Amoreiras, em Lisboa).


- clicar para ler aqui, uma carta lindíssima, lindíssima , de um personagem da "Autópsia de um Mar de Ruínas" (ao meio)


Notas:
- os contos acima referidos estão no livro “As Coisas da Alma” - [não deixem de ler!!]

- das criptomérias, de Évora e de outros amores fala João de Melo no seu “Dicionário de Paixões” - [óptimo, também]

- "O Homem Suspenso" é um dos romances seus que prefiro

postado por ana lima em 4 de Outubro de 2008

a literatura, as paixões: do prazer da leitura

de Arturo Pérez-Reverte:

(...) o que não era mais que un objecto inerte de tinta e papel ganhava vida quando alguém folheava as suas páginas e percorria as suas linhas, projectando nelas a sua existência, os seus gostos, as suas virtudes ou os seus vícios. Agora tinha a certeza de algo vislumbrado no início(...) : que não há dois livros iguais, porque nunca houve dois leitores iguais. E que cada livro que se lê é, como cada ser humano, um livro singular, uma história única e um mundo à parte. (in La Reina del Sur)
[...] não há leitores inocentes. Perante um texto, cada um aplica a sua própria perversidade. Um leitor é aquilo que tenha lido antes, mais o cinema e a televisão que tenha visto. À informação que lhe proporcione o autor, acrescentará sempre a sua própria (in El Club Dumas)


Arturo Pérez-Reverte (Cartagena, Espanha, 1951)foi jornalista, mas presentemente dedica-se apenas à escrita. Como repórter de guerra, cobriu a maior parte dos conflitos bélicos que tiveram lugar entre 1973 e 1994. Escritor de grande êxito, está traduzido em 29 idiomas.É autor de uma extensa obra que com frequência foi adaptada ao cinema. Desde 2003 é membro da Real Academia Espanhola. in http://www.asa.pt/autores/autor.php?id_autor=642




Entrevista a Pérez-Reverte-onde fala, por ex, do actual jornalismo,refém do poder..





ana lima