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19 fevereiro 2010

A gorda “Parque Escolar, EPE”, por Santana Castilho

A gorda “Parque Escolar, EPE”

Santana Castilho *

Em 26 de Fevereiro de 2007, escrevi, nesta coluna, sobre a “Parque Escolar, EPE” e alertei a opinião pública para o que facilmente se antevia. Não critiquei só a passagem da gestão do parque escolar público para o domínio empresarial por um governo que apregoava a autonomia das escolas e, hipocritamente, retirava aos seus gestores a capacidade de decidir sobre os respectivos espaços físicos. Critiquei, sobretudo, a forma, a meu ver imoral, que pré-ordenava o respectivo processo para envolver em opacidade e secretismo o dispêndio de enormes somas de dinheiro público. Com efeito, denunciei que a nova entidade podia vender, comprar e contratar por ajuste directo. Manifestei natural perplexidade por ver que a nova entidade, que poderia “... conceber, desenvolver e gerir unidades de negócio destinadas a potenciar receitas de exploração das escolas secundárias...” e exercer “… quaisquer actividades, complementares ou subsidiárias do seu objecto principal, bem como explorar outros ramos de actividade comercial ou industrial...”, tinha recebido, por decreto, a propriedade de 7 escolas secundárias localizadas em zonas nobres de Lisboa e Porto, com milhares de metros quadrados urbanizados. Manifestei ainda verdadeiro espanto por ver que a novel empresa pública tinha poderes para expropriar, embargar, cobrar taxas e decretar demolições. Escrevi então: preparem-se as clientelas!

Não só se prepararam. Instalaram-se! Alambazaram-se!

Três anos volvidos, a gorda “Parque Escolar, EPE” prepara-se para alapar, por simples via de despacho conjunto de dois membros do Governo, mais coisa menos coisa, 3 quartos das escolas de ensino secundário, que totalizam 4 centenas e meia de edifícios, distribuídos por todo o país. Com discurso para tranquilizar incautos de asinhas brancas, o Governo vai dizendo que se trata de garantir uma gestão mais eficiente e que não está em questão qualquer transferência de património para o sector privado. Pois sim! Quanto ao primeiro aspecto, é só olhar para os resultados da maioria das empresas públicas, designadamente o desastre da gestão empresarial dos hospitais, para acreditarmos piamente. No que toca ao segundo, basta recordar as empresas públicas já privatizadas, com o competente património, naturalmente, ou perguntar como pagará a “Parque Escolar, EPE” o capital e os juros de um empréstimo de 300 milhões de euros já contraído e de outros que se seguem, da ordem dos 850 milhões, para ficarmos em paz futura. Por agora, já sabemos como gastou parte dos mais que 3.000 milhões de euros que poderá gerir: sem concursos públicos, sem transparência, com a discricionariedade em lugar da livre concorrência. Até as publicações no respectivo sítio da Internet, previstas pelo Código dos Contratos Públicos, foram remetidas às malvas. Tudo numa suíça sincronização de dribles perfeitamente legais mas de duvidosa ética pública. Tudo como convém ao ambiente dos favores dúbios e a quem tem da Educação a visão simples de mais um negócio.

Ao lado do problema central, acumulam-se os episódios habituais de tudo o que é feito de forma atabalhoada, na ganância de abocanhar antes que a oportunidade acabe: são soluções arquitectónicas questionáveis e escolhas de materiais que coabitam mal com o património edificado; são ambientes escolares insuportavelmente prejudicados pela convivência forçada com obras que se prolongam por meses seguidos; são pavimentos terminados e logo estragados pela presença e circulação de materiais de obra; são infiltrações surpreendentes em obras novas e tectos que caiem; são bibliotecas e refeitórios que desaparecem; são sistemas de climatização que não funcionam (sufoca-se nuns locais e gela-se noutros); são puxadores de portas que ficam nas mãos dos utentes, revestimentos impróprios em zonas desportivas, torneiras acabadas de montar que não vedam e falhas inexplicáveis de segurança em espaços específicos. A cereja em cima desta precipitada forma de fazer as coisas consubstancia-se no recente anúncio da demolição de uma escola em Torres Novas, construída há oito anos, com um milhão de euros de custo. Razão? Pasme-se: não respeita as exigências instituídas em 2006 sobre a qualidade do ar e a certificação energética. Lá iria Portugal inteiro abaixo se o despudor se propagasse!

A crise económica que nos sufoca é consequência de variáveis que nos escapam e de políticas erradas que o Governo impôs. A crise da justiça faz perigar o Estado de Direito, abala a nossa jovem democracia e escapa ao controlo dos professores. Mas espanta a pacificidade da classe quando lhe levam sem reacção a própria casa. Teimo por isso em citar Sun Tzu pela segunda vez em poucos dias:

“… Se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas. Se te conheces mas não conheces o inimigo, por cada vitória sofrerás uma derrota. Se não te conheces nem a ti próprio nem ao inimigo, perderás todas as batalhas. …”

A privatização das escolas públicas, que se prepara, serve os cidadãos, os alunos e os professores? A sistemática destruição dos serviços públicos serve o país? Que responda a consciência do Estado, se é que dela resta algo!

* Professor do ensino superior. s.castilho@netcabo.pt

21 janeiro 2010

a pacificação de .. ? .. pois.

excertos d' A CRÓNICA DE SANTANA CASTILHO

O acordo a que o Governo chegou com alguns sindicatos deu lugar a um coro de regozijo pela “pacificação das escolas”. Assim falaram governantes, alguns parlamentares, jornalistas, colunistas e sindicalistas. E se tirassem uma semana sabática e fossem às escolas? Veriam a revolta e a estupefacção dos que, respondendo aos apelos dos sindicatos, não entregaram objectivos individuais, não pediram aulas assistidas nem se candidataram às menções de “muito bom” e “excelente” e por isso ficaram para trás. Veriam discórdia a cada canto, desconfiança crescente, raiva pelas injustiças não sanadas e pelo oportunismo premiado, cansaço acumulado, competição malsã nascente, desilusão e desmotivação generalizadas. Chamam a isto pacificação?

Quem ignore os antecedentes do conflito entre os professores e o Governo e leia o acordo conclui que as razões da discórdia se circunscreviam a carreira e salários. E não circunscreviam. Os professores reclamaram contra a degradação do ensino e defenderam a autoridade, a dignidade e a independência intelectual indispensáveis ao exercício sério da sua profissão. Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues instilaram na sociedade uma inveja social contra os professores. Este acordo oferece argumentos a quem queira, maliciosamente, fomentá-la.
(...)
A iniquidade, a mediocridade técnica, a burocracia insustentável e a consequente inaplicabilidade de um modelo de classificação do desempenho (é de classificação e não de avaliação que se trata) foram publicamente patentes ao longo de 3 anos de conflito. Estipula o acordo, já apodado como o mais importante dos últimos 20 anos, pasme-se, mudanças substanciais? Não! Mas o mais pernicioso está agora aceite. Cairá essa excrescência artificial que dividia em duas uma carreira que, pela sua própria natureza, só pode ser única. Mas foram ampliados os estrangulamentos que dela derivavam. A prova de ingresso, classificada sempre (antes e após o acordo, volte-se a pasmar) como algo sem sentido, foi igualmente aceite, repito. E as quotas, que ontem impediam categoricamente qualquer entendimento, foram engolidas sem indigestão.
(...)
Duas notas finais e 3 perguntas:
O Governo reconheceu, no texto do acordo, que o estatuto e a avaliação em análise desqualificaram a escola pública, são entraves ao cumprimento da missão da escola e remetem para segundo plano o trabalho com os alunos (se lerem com atenção verão que está lá). Não é espantoso que, dito isto, os acordantes prossigam no mesmo caminho? Ou ensandeceram?

Mais coisa, menos coisa, dos resultados até agora conhecidos, teremos 700 professores “excelentes”, 18.000 “muito bons”, 78.000 “bons”, e “300” regulares. Foi por isto que se destruiu a harmonia nas escolas e se vilipendiaram os professores?

Santana Castilho

14 janeiro 2010

pais deste país, acordem!

o título, o texto deste 'post', tudo retirado daqui

Trata-se do comentário de um Encarregado de Educação que não partilha a visão “albinista” da escola (...)

« Ainda estou à espera de pessoas que queiram efectivamente fazer algo de positivo pela educação. Não serão estes pais, não serão estes professores, não serão estes filhos nem estes alunos. Será possível que ninguém veja que a escola nestes moldes está a contribuir para uma sociedade sem regras, sem valores e baseada na mentira e falsidade?

Senhores professores, tenham coragem e denunciem o que se passa verdadeiramente nas escolas: indisciplina, falta de educação, facilitismo, mentira.
Hoje os alunos vão para as escolas como se fossem para um bar ou uma discoteca. Sabem que vão passar sempre.
Os professores são constantemente humilhados nas escolas e ainda há quem pense em avaliar estes homens e mulheres que são os únicos que se preocupam com os jovens do nosso país...

Abram as portas das escolas à comunicação social e deixem que esta divulgue o que verdadeiramente se passa na maioria das salas de aula deste Portugal e depois vamos ver quem é que devia ser avaliado.

Onde está a responsabilidade dos pais, dos que fazem os programas, dos que fazem os horários dos professores?
Ter oito turmas, leccionar três e quatro níveis, ser DT e ter duzentos alunos, turmas de vinte e muitos alunos...

Ganhem juízo, criem condições de verdade nas escolas e vão ver que os professores fazem bem o seu trabalho. Já agora, este entendimento entre sindicatos e ministério é mais um atentado ao ensino de qualidade.

Será que ainda não viram que não interessa ter pessoas esclarecidas? Pais deste país  acordem, pois trata-se dos vossos filhos!!! Boa noite. »

Publicada por Anjos em Octávio V Gonçalves a 13 de Janeiro de 2010 21:01

13 janeiro 2010

A SUPERESCOLA ou o retrato da escola portuguesa

recebi via e-mail, transcrevo tal qual:

Onde estão as melhores escolas do mundo?

Claro! Está certo! Em... Portugal !!

Ora vejamos com atenção o exemplo de uma vulgar turma do 7º ano de escolaridade, ou seja, ensino básico.
Ah, é verdade, Ensino Básico é para toda a gente, melhor dizendo, para os filhos de toda a gente!

DISCIPLINAS / ÁREAS CURRICULARES NÃO DISCIPLINARES:

1. Língua Portuguesa
2. História
3. Língua Estrangeira I - Inglês
4. Língua Estrangeira II - Francês
5. Matemática
6. Ciências Naturais
7. Físico-Químicas
8. Geografia
9. Educação Física
10. Educação Visual
11. Educação Tecnológica
12. Educação Moral R.C.
13. Estudo Acompanhado
14. Área Projecto
15. Formação Cívica

É ISSO - CONTARAM BEM - SÃO 15!!
Carga horária = 36 tempos lectivos

Não é o máximo ensinar isto tudo aos filhos de toda esta gente? De todo o Portugal? Somos demais, mesmo bons!
MAS NÃO FICAMOS POR AQUI!!!!

A Escola ainda:
  • Integra alunos com diferentes tipologias e graus de deficiência, apesar dos professores não terem formação para isso;
  • Integra alunos com Necessidades Educativas de Carácter Prolongado de toda a espécie e feitio, apesar dos professores não terem formação para isso;
  • Não pode esquecer os outros alunos, 'relatório-médico-excluídos', que também têm enormes dificuldades de aprendizagem;
  • Integra alunos oriundos de outros países que, por as mais das vezes não falam um cu de Português, ou melhor, nem sequer sabem o que quer dizer cu;
  • Tem o dever de criar outras opções para superar dificuldades dos alunos, como:
* Currículos Alternativos
* Percursos Escolares Próprios
* Percursos Curriculares Alternativos
* Cursos de Educação e Formação


MAS AINDA HÁ MAIS...

A escola ainda tem o dever de sensibilizar ou formar os alunos nos mais variados domínios:

* Educação sexual
* Prevenção rodoviária
* Promoção da saúde, higiene, boas práticas alimentares,etc.
* Preservação do meio ambiente
* Prevenção da toxicodependência
* Etc, etc...

Perdoem-me a pergunta: em Portugal são todos órfãos? (possível interpolação do ministro da educação da Finlândia)

Bom, só se encontra mesmo um único defeito: Os PROFESSORES.

Sim, os professores!! - uma cambada de selvagens e incompetentes, que não merecem o que ganham, trabalham poucas horas (Comparem com os alunos! Vá! Vá! Comparem!!!) Têm muitas férias, faltam muito, passam a vida a faltar ao respeito e a agredir os pobres dos alunos, coitados!

Vejam bem que os professores chegam ao cúmulo de exigir aos alunos que tragam todos os dias o material para as aulas, que façam trabalhos de casa, que estejam atentos e calados na sala de aula, etc... e depois ainda ficam aborrecidos por os alunos lhes faltarem ao respeito! Olha que há cada uma!
COM FRANQUEZA!!!

Vale a pena divulgar ao maior número de pessoas (de preferência não professores) para que uma visão mais realista se comece a sedimentar.

É bom que as pessoas percebam que ter filhos acarreta muita responsabilidade - não só a de os alimentar, vestir, comprar telemóveis, mp3, pc, como também, e principalmente EDUCÁ-LOS!!!!!


as imagens: quadros de Pablo Picasso, Juan Miró, Keith Haring
*

12 janeiro 2010

educação - opiniões

 - sobre o novo modelo de avaliação de professores, por Ramiro Marques  - Profblog


1ª ideia falsa: É um modelo de avaliação simplificado.

Errado. É tão complexo como o modelo complex imposto pelo decreto regulamentar 2/2008. Mantém a complexidade dos procedimentos e dos instrumentos de verificação de resultados. Em vez de uma ficha de auto-avaliação exige-se um Relatório de Auto-Avaliação com um Anexo e uma Proposta de Programa de Formação Contínua elaborada pelo avaliado. Além disso, exige um documento de verificação da observação de pelo menos duas aulas por ano como condição sine qua non para o docente aceder aos 3º e 5º escalões e também ao 7º caso nunca tenha sido objecto de observação de aulas.

2ª ideia falsa: Acaba com a divisão da carreira.

Errado. Substitui a figura do professor titular pela do professor relator. Quase apetece dizer "professor delator" porque é isso que, em alguns casos, ele será caso esta proposta seja vertida em decreto lei ou decreto regulamentar.

3ª ideia falsa: Torna facultativa a observação de aulas.

Errado. Para os professores acederem aos 3º e 5º escalões é obrigatória a observação de pelo menos duas aulas por ano e a atribuição da menção de Muito Bom ou Excelente. Os docentes que nunca tenham sido objecto de observação em aula carecem também de duas aulas observadas por ano no acesso ao 7º escalão. Fica claro que os professores que não pedirem observação de aulas nunca mais poderão passar do 2º escalão. Isto faz como que, na prática, todos os docentes peçam observação de aulas.

4ª ideia falsa: O professor relator - ou delator, consoante os casos - é do mesmo grupo disciplinar do avaliado.

Errado. O documento do ME diz que o professor relator é escolhido pelo coordenador de departamento. Sendo os departamento compostos por diversos grupos disciplinares nada obsta a que o respectivo coordenador escolha um relator de grupo disciplinar diferente do avaliado.

5ª ideia falsa: Acabaram os constrangimentos administrativos para acesso ao topo da carreira.

Errado. O que o documento do ME diz é outra coisa: "as classificações de muito bom e excelente garantem, em condições a regular, a transição de escalão independentemente de qualquer contingentação de vagas". Reparem no pormenor: "em condições a regular". Pode não haver quotas para acesso aos 3º, 5º e 7º escalões mas o ME pode impor critérios que assegurem percentagens máximas de muitos bons e excelentes por escola/agrupamento o que vai dar ao mesmo que os contingentes e as quotas.

6ª ideia falsa: A proposta do ME desloca o centro da avaliação de desempenho do director para o conselho pedagógico.

Errado. A comissão de avaliação de desempenho é constituída por quatro membros do conselho pedagógico mas a comissão é dirigida pelo presidente do conselho pedagógico que é, como sabemos, o director da escola.

Ramiro Marques, 8 de Janeiro de 2010


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e aqui em baixo, por Arrebenta - The Braganza Mothers:


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11 janeiro 2010

escola pública: os pontos nos ii

sobre uma frase da Lídia Jorge, num post aí abaixo:
« a escola pública portuguesa precisa de proceder a uma revolução nos métodos de trabalho.»

Pois.. não sei se a 'revolução' de que a escola pública precisa' é mesmo ao nível dos métodos de trabalho. Não me parece.

Sempre que há mudança de partido no governo, a escola, o sistema educativo, sofrem revoluções / involuções - precisamente e apenas, a nível dos métodos / metodologias de trabalho e de ensino.

Sempre os vários governantes partem de um mesmo pressuposto/ falácia : a de que os responsáveis pelo insucesso do sistema são os professores, dos quais invariavelmente se espera que se adaptem e se renovem ao ritmo dos apetites de quem decide os destinos da educação.

Nos meus mais de 30 anos de serviço já experimentei ou aprendi sobre métodos e teorias das mais variadas, algumas perfeitamente mirabolantes: a sugestopedia, aquela com que me brindaram no estágio, e que era, ao tempo, o último grito das pedagogias em ciências da educação made in Boston, agora a novel e omnipresente revolução tecnológica ..

A tudo os professores vão dando resposta, acções de formação sobre acções de formação, trabalho de casa sistemático, malabarismos/ contorcionismos indiciadores de uma invulgar capacidade de adaptação/renovação que qualquer ME sério e atento aplaudiria de pé.

No entanto, e apesar - ou por causa de - tanta experimentação, melhorias palpáveis, realistas, no que concerne às aprendizagens dos alunos, honestamente .. nenhumas. Corolário lógico: a culpa, ao contrário do que pretendem os vários podres poderes, alguns  iluminados personagens da nossa praça, não é dos professores.

Alteram-se os métodos de trabalho, as metodologias de ensino, a prática pedagógica. Um vector, no entanto, permanece:  a 'macro-visão' do sistema educativo, mais as suas vertentes operacionais: os curricula e o sistema de transição dos alunos durante todo o período da  escolaridade obrigatória, minado de disposições facilitistas apoiadas por uma rede burocrática 'infurável'.

Vejamos algumas aberrações, no que respeita ao sistema de transição:
  • os alunos do ensino básico (2.º e 3º ciclos, do 5º ao 9.º) podem transitar, ano após ano, com avaliação negativa a 3 disciplinas, que, previsivelmente, até serão sempre as mesmas..
  • duas dessas disciplinas podem ser, por exemplo, a matemática e o inglês - ano após ano, até concluírem o 9.º
Que ilações retiraria qualquer pessoa sensata destas circunstâncias? Que consequências advêm deste sistema de progressão? Basicamente, duas: iliteracia funcional e interiorização do facilitismo, por parte, quer dos próprios alunos, quer dos seus encarregados de educação, ambas, por seu lado, conduzindo a outras situações perversas:
  • o elevadíssimo insucesso no 10.º ano /abandono escolar no ensino secundário, porque regido por diferentes regras; 
  • o desinteresse e a indisciplina - em pelo menos 3 disciplinas - factores predominantemente inibidores das aprendizagens, e que grassam nos ciclos de escolaridade obrigatória. Estendê-la ao 12.º ano será um erro crasso enquanto não forem corrigidas as disposições que agora vigoram.

E vem-me à memória um inquérito do jornal Público, em que se inquiriam 'personalidades' sobre as causas do insucesso escolar (efectivo) em Portugal.
A pergunta era: «Acha que a culpa do insucesso é dos professores?»
A resposta de uma das inquiridas, Inês Pedrosa, escritora e directora da Casa-Museu Fernando Pessoa, mais ou menos isto :
« É óbvio que a culpa é dos professores! Os alunos não hão-de ser todos burros!»

pois..
da boçalidade da resposta não vou nem falar..
Mas tem razão a senhora: os alunos, na sua grande maioria, de 'burros' não têm nada. Nem, de resto, os alunos que reprovam são os que têm 'dificuldades de aprendizagem'.
Os alunos que reprovam são aqueles que não querem saber da escola para nada - secundados e incentivados nesta perspectiva pelos seus EE.
Os alunos que reprovam são os que se portam muito mal e fazem da sala de aula uma extensão do recreio, prejudicando-se a si e aos colegas.
Os alunos que reprovam são aqueles cujos pais só aparecem na escola para insultarem os professores, carrascos implicantes que traumatizam os seus impolutos 'anjos'.

Os alunos que reprovam, em última análise, são os que, inteligentemente, intuíram os valores de facilitismo e auto-desresponsabilização subjacentes ao sistema educativo - desenhado e mantido ao longo das últimas décadas - pelo ministério da educação.


10 janeiro 2010

O futuro do sistema educativo português na ressaca do conflito com os professores

É mais um título do Público de hoje. Das seis respostas sobre o que espera a educação em Portugal, escolhi a de Lídia Jorge:

Salvar a escola do inferno burocrático

Este acordo é histórico porque ele permite salvar da humilhação alguns milhares de professores e restabelecer um clima de paz num momento em que a escola pública portuguesa precisa de proceder a uma revolução nos métodos de trabalho. Ele permite salvar a escola dum inferno burocrático incompatível com uma boa convivência entre colegas e um ensino livre e feliz. Além disso, regressar a uma carreira única, mas em que se progrida por mérito, era indispensável e esse princípio manteve-se.

Mas é preciso ter em conta - e nem sempre a população está bem informada - que os professores e os médicos são as classes mais directamente escrutinadas da sociedade. Cada dia, em cada hora, o professor passa pelo escrutínio cerrado de dezenas de crianças e adolescentes. Basta imaginar uma sala de aula. Não é pouca coisa.

É por isso que este acordo histórico ainda não terminou. Ele só ficará selado quando Isabel Alçada verificar a que professores, durante estes dois anos, foram atribuídas as notas de excelente, e tirar daí as suas conclusões. Talvez resolva anular os seus efeitos. É que os professores duma escola constituem uma família. Experimentem criar um escalão de avaliação entre os membros duma mesma família que se autovigia. Sobre os métodos de avaliação desejo a Isabel Alçada e aos sindicatos muitas noites de boa maratona.

Lídia Jorge (escritora e ex-professora)
fonte 

a geração perdida

no jornal Público de hoje : 
Geração perdida. A expressão, amarga, integral, acaba de ser usada no Reino Unido para encaixar quem tem agora entre 16 e 25 anos.

Com a recessão, por ser tão difícil encontrar emprego e segurá-lo, uma geração inteira está desesperançada. Se o país não responder, toda ela se perderá, avisam os autores desse estudo (...)
O fenómeno é bem conhecido, diz Virgínia Ferreira, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra: "Ao lado, em Espanha, chamam-lhes os mileuristas. Aqui, ficamos pela metade, pelos 500 euros."
Havia (...) "uma empregabilidade relacionada com a aprendizagem". Os alunos tentavam seguir o gosto, a vocação. (...) Agora, "a grande preocupação é se o curso tem ou não saída." (...)

Nem só os universitários vivem a calamidade. Os menos qualificados também - todos os dias, empresas a falir, fábricas a fechar portas. A transição do mundo juvenil para o mundo adulto alterou-se. Os jovens deixam-se estar em casa dos pais, adiam compromissos - como comprar casa ou constituir família. Por toda a parte se vê desejar um trabalho precário. Não aquele em vez de outro: aquele porque não há outro.

(...) Sofia Marques da Silva, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, recusa o epíteto 'perdida', mas está convencida de que "esta geração tem muita dificuldade em ter uma cultura de projecto - em imaginar o que vai fazer num tempo que ainda não existe". Fixa no presente o sentido dos dias e isso parece-lhe perigoso: "Alguém que não imagina etapas na sua vida, às vezes, só quer usufruir rapidamente momentos, sensações". Não fala em revolta, como se viu noutros países europeus. Fala de ingresso na criminalidade, por exemplo.

Elísio Estanque (...) observa alheamento e inquieta-se com a saúde da democracia. Não só por o sistema não funcionar sem uma base de participação eleitoral. Também por ser importante haver associações para o olear. E existir "pouca disponibilidade dos jovens para participar: condiciona-os o medo".
"Impera uma docilidade que é assustadora (...)  As empresas olham para estes jovens como dóceis. Aceitam tudo."
artigo completo, aqui

Em baixo, excertos de dois comentários que se lhe seguiam: 

Opinião de um adolescente de 17 anos
(...) há toda uma inércia a movimentar os adolescentes (...). Não têm sentido crítico, não estão actualizados sobre nada, podiam viver facilmente numa ditadura que só se aperceberiam disso se lhes proibissem o telemóvel, o mp3 e o computador.  (...)
..

(...) a responsabilidade /.../ é do facilitismo instalado há muitos anos no sistema educativo. É dos pais que se demitem da educação dos filhos ... que pagam para que eles não os aborreçam. (...)

 *

09 janeiro 2010

acordos envenenados .. e nós

Ouvi ontem o Mário Nogueira na rádio, comentando o acordo com o ME .. verdade que me pareceu completamente 'engasgado' ..

e.. sabem? o cansaço, a desilusão com este processo todo andam a tolher-me vontades, energias. depois do que vivemos nos últimos 4 anos, das lutas todas em que nos empenhámos, da capitulação que se seguiu...

ver tudo regressar à estaca zero..
- a opinião pública que de novo se vira contra nós,
- os sindicatos que voltam a alinhar em espécies de memorandos,
- os professores que parecem não estar 'nem aí ',
- sobretudo as mentiras, as leituras enviesadas da ME,
- a imprensa que se cola e não questiona,
- e o fazerem de nós parvos, outra vez e ad eternum..

Deixei de acreditar, perdi a capacidade do espanto (e estou a repetir-me..).  Estou cansada de ilusões, rendo-me à evidência das utopias - definitivamente utópicas. Como disse o Santana Castilho (aqui), somos uma classe que o não é. Prescindimos da força que nos unia, entregámos os pontos, depusemos as únicas verdadeiras armas que alguma vez tivemos. Desagregámo-nos do todo que - impensavelmente - chegámos a ser. Os 120 mil esboroados em pó.

Despertença: o que resta, o sentimento que (me) fica.



a imagem tirei de empréstimo; daqui

07 janeiro 2010

no comments .. 4 now ..

Para Isabel Alçada, o número elevado de classificados com Bom explica-se com a tradição da atribuição desta nota aos docentes por parte de quem avalia[!!??!!], acrescentando que “houve menos de 0,5 por cento de classificações com a nota regular ou insuficiente”. “Estes dados também explicam a nossa intenção de distinguir os professores que obtenham Muito Bom e Excelente com uma progressão mais rápida” na carreira, destacou a ministra, que falava aos jornalistas em Castelo Branco.  fonte

para já, deixo os comentários para quem os quiser fazer..

.. e uma rabanada, só para inspirar:  

"All the world's a stage, and all the men and women merely players." (W. Shakespeare)

*

29 dezembro 2009

nebulosas

como de costume, tudo muito pouco claro: "nenhum docente avaliado com 'Bom' será prejudicado" .. espero que isso  queira dizer que todos vão ter pelo menos 'bom', seja o que for que tenham - ou não - entregue..
o artigo abaixo é de Ramiro Marques, do Profblog, e explica como já ninguém está nem aí para os problemas da educação, muito menos os dos profs.. - RIP

Nenhum docente será prejudicado, promete a ministra. Acordo parcial à vista com a Fne

a imagem ao lado é de Alfred Gockel 

29 novembro 2009

do ser professor

escrevi isto há anos, 'retoquei-o' no início do tenebroso primado de MLR. o texto foi-me sendo recorrentemente reenviado (ainda que um tanto adulterado) em animações de power point, por professores, alunos..
muita gente parece rever-se nele, reconhecer-lhe mérito e verdade. e no entanto, ainda há quem não veja, quem não queira ver..
pois repito-o pela enésima vez. repeti-lo-ei até que a 'mão' me doa:


Aspectos que toda a gente parece ignorar
sobre a profissão de Professor
e que será bom esclarecer:

  1. Esta é uma profissão em que a imensa maioria dos seus agentes trabalha (em casa e de graça, entenda-se) aos sábados, domingos, feriados, madrugada adentro e muitas vezes, até nas férias! Férias, sim, e sem eufemismos, que bem precisamos de pausas ao longo do ano para irmos repondo forças e coragens. De resto, é o que acontece nos outros países por essa Europa fora, às vezes com muito mais dias de folga do que nós: 2 semanas para as vindimas em Setembro/ Outubro, mais duas para a neve em Novembro, 3 no Natal e mais 3 na Páscoa, 1 ou 2 meses no verão..
  2. É a única profissão em que se tem falta por chegar cinco minutos atrasado (5 minutos que equivalem a um tempo, de 45 ou 90 minutos!)
  3. É uma profissão que exclui devaneios do tipo “hoje preciso de sair meia hora mais cedo”, ou o corriqueiro “volto já” justificando a porta fechada em horas de expediente.
  4. É uma profissão que não admite faltas de vontade e motivação ou quaisquer das 'ronhas' que grassarão, por exemplo, no ME (quem duvida?) ou na transparente AR.
  5. É uma profissão de enorme desgaste. Ainda há bem pouco tempo foi divulgado um estudo que nos colocava na 2ª posição, a seguir aos mineiros, mas isto, está bom de ver, não convém a ninguém lembrar…
  6. É uma profissão que há muito deixou de ser acarinhada ou considerada, humana e socialmente. Pelo contrário, todos os dias somos agredidos – na nossa dignidade ou fisicamente (e as cordas vocais não são um apêndice despiciendo…) , enxovalhados na praça pública, atacados e desvalorizados, na nossa pessoa e no nosso trabalho, em todas as frentes, nomeadamente pelo 'patrão' que, passe a metáfora económica tão ao gosto dos tempos que correm…, ao espezinhar sistematicamente os seus 'empregados' perante o 'cliente', mais não faz do que inviabilizar a 'venda do produto'!
  7. É uma profissão em que se tem de estar permanentemente a 100%, que não se compadece com noites mal dormidas, indisposições várias (físicas e psíquicas) ou problemas pessoais …
  8. É uma profissão em que, de 45 em 45, ou de 90 em 90 minutos, se tem de repetir o processo, exigente e desgastante, quer de chegar a horas, quer de "conquistar" , várias vezes ao longo de um mesmo dia de trabalho, um novo grupo de 20 a 30 alunos (e todos ao mesmo tempo, não se confunda uma aula com uma consulta individual ou a gestão familiar de 1, 2, ‘n’ filhos...)
  9. É uma profissão em que é preciso ter sempre a energia suficiente (às vezes sobre-humana) para, em cada turma, manter a disciplina e o interesse, gerir conflitos, cumprir programas, zelar para que haja material de trabalho, atenção, concentração, motivação e produção. Batemos aos pontos as competências exigidas a qualquer dos nossos milionários bancários, dos inefáveis empresários, dos intocáveis ministros! Ao contrário deles (da discrepância salarial e demais benesses não preciso nem falar) e como se não bastasse tudo o que nos é exigido …
  10. ainda somos avaliados (implícita ou explicitamente), não pelo nosso próprio desempenho, mas pelos sucessos e insucessos, os apetites e os caprichos dos nossos alunos e respectivas famílias, mais a conjuntura política, económica e social do nosso país!
Assim, é bom que a 'cara opinião pública' comece a perceber por que é que os professores "faltam tanto" (!)– leia-se ‘faltavam’ (*):
Para além do facto de, nas suas "imensas" faltas, serem contabilizadas também situações em que, de facto, estão a trabalhar :
  • no acompanhamento de alunos em visitas de estudo
  • em acções, seminários, reuniões, para as quais até podem ter sido oficialmente convocados
  • para ficarem a elaborar ou corrigir testes e afins , que não é suficiente o tempo agora atribuído a essas tarefas (e a idade não perdoa, muito menos nesta profissão..) 
  • ou, como vem sucedendo ultimamente, a fazerem em casa, que é o sítio que lhes oferece condições, horas e horas não contabilizadas (muito menos pagas..) do obrigatório “trabalho de escola”….

Para além disto, e não é pouco, há pelo menos, como acima se terá visto, toda uma lista de 10 boas e justificadas razões para que o façam.
Correcção :
as nossas faltas nem sequer são faltas! São dias descontados ao período de férias!

(*) agora praticamente não faltamos: 5 dias/ano de artigo 102 contra os anteriores 12 (que o resto da Função Pública continua a ter!) ou os 24 dias (2 por mês) do antigo artigo 4.º, alguém se lembra? Não faltamos, o que não se traduz necessariamente em maior produtividade, muito menos em mais qualidade:
  • Agora vamos para as aulas, doentes, indispostos, mal dormidos, encharcados em calmantes (sim, em que acham que resulta o stress em que nos têm mantido nos últimos 4 anos?!).
  • Os testes que dantes ficávamos a corrigir (abdicando de dias de férias) demoram agora semanas e semanas a serem entregues aos alunos. Passamos o dia na escola: para além das aulas, horas e horas a 'fingir que sim'.. Chegamos a casa exaustos.
  • Nem temos, sequer, hipótese de ir ao médico, que nos obrigam a repor as aulas (escapamos apenas se estivermos presos, sabiam?) Mais: o nosso médico, que nos conhece há 20 anos, não pode atestar a nossa doença, se não for convencionado!! - aberrante, surrealista..

E … também há quem, não dando uma única falta, tenha (nas aulas, em casa..) uma ‘rica vida’, acreditem!


ver, aqui, surrealismos sb as faltas dos professores

e aqui, uma entrevista bem esclarecedora a Santana Castilho, sobre responsabilidades e culpas..

27 novembro 2009

"A Fada boazinha e o Docente de Orelhas de Burro"


Publico aqui, em primeira mão, o sétimo e novíssimo "cromo" da minha colecção particular designada "Velhos Contos, novos Tempos".
"Cartoons" que tentam demonstrar que, entre os antigos contos de fadas e os "contos da carochinha" que nos tentam impingir na triste realidade que nos rodeia, a distância não é grande, bastando uma ligeira adaptação.
Considerando as recentes negociações, julgo que o "cromo" fala por si...
(cartoon da autora (c) Margarida Alegria)

26 novembro 2009

parabéns, professores!

a escultura ao lado chama-se 'while you were sleeping' - very appropriate, don't you think?
e agora que já acordaram (.?.) vejam a proposta do ME / I. Alçada:


Princípios da Revisão do Estatuto da Carreira Docente e da sua articulação com a Avaliação de Desempenho

1) Estruturação da carreira docente:
• Carreira única para os educadores de infância e para os professores dos ensinos básico e secundário;
• Carreira com uma única categoria, sem divisão entre professores titulares e não titulares;
•  Desenvolvimento da carreira em 10 escalões;
• Especialização funcional facultativa nos dois escalões do topo da carreira, para as funções de supervisão pedagógica, de gestão da formação, de desenvolvimento curricular e de avaliação, acessível, sob candidatura, aos docentes que possuam formação especifica adequada.
2) Ingresso na carreira:
• Ingresso na carreira dependente de qualificações adequadas, mérito e selectividade;
• Selectividade no ingresso na carreira realiza-se através de uma prova pública de acesso e da aprovação no final de um período probatório de um ano, em que é obrigatória a observação de aulas e a avaliação da prática docente não lectiva.
3) Progressão na carreira e sua articulação com a avaliação de desempenho:
• Acesso ao escalão imediatamente superior mediante a conjugação dos seguintes elementos: tempo de serviço, formação continua ou especializada e mérito traduzido na classificação obtida na avaliação de desempenho, sem prejuízo da dimensão também formativa da avaliação;
• 0 sistema de classificação e o regime dos efeitos da avaliação de desempenho continuarão a assegurar consequências efectivas da avaliação nas condições e no ritmo de progressão na carreira, sem prejuízo das adaptações necessárias à nova estruturação da carreira docente;
• Independentemente dos normais ciclos de avaliação de dois anos, a avaliação com observação de aulas é condição de acesso ao 3.º e ao 5.º escalão, bem como ao 7.° escalão quando tal observação não tenha tido lugar em nenhum dos ciclos anteriores. Se ao docente não estiver distribuído serviço lectivo, a avaliação requerida para o acesso aos escalões referidos inclui um relatório elaborado pelo director da escola;
• As condições de progressão na carreira promovem a necessária selectividade da progressão, como forma de estimular e premiar um melhor desempenho, mediante a fixação anual de vagas para acesso ao 3.º, ao 5.º e ao 7.º escalão.
4) Distribuição de responsabilidades funcionais:
• A atribuição de funções de coordenação, orientação, supervisão pedagógica e avaliação são reservadas aos docentes posicionados a partir do 4.º escalão da carreira, preferencialmente detentores de formação especializada e, de entre eles, sempre que possível aos docentes dos dois últimos escalões que tenham optado pela especialização funcional correspondente;
• A Direcção de cada escola poderá, por motivo justificado, designar para as funções referidas no ponto anterior docentes posicionados no 3.º escalão, desde que possuam formação especializada para o desempenho das funções em causa.
5) Regime transitório:
• Transitoriamente, aos docentes que actualmente se encontram posicionados nos índices 299 e 340 aplicam-se as regras de progressão previstas no Decreto-Lei n.º 270/2009.



grande vitória, professores!!
afinal esperavam o quê?


  • "revogação, regresso ao antes do ecd da polémica" ??
  • pedidos de desculpa por 4 anos de achincalhamento ??
  • declarações de mea culpa por uma política educativa desastrosa ?? 
Pois desenganem-se os que já rejubilam. Tudo - ou quase tudo - ficou na mesma. Muito poderá vir a ficar ainda pior.

Se não, vejam, na edição de hoje do jornal i,  o nojo de uma entrada-resumo sobre a proposta de Isabel Alçada.
Eu estou esclarecida. A caça às bruxas (não elas, nós!), recomeçou.

« Chegou a hora da verdade. A oferta de uma carreira única não é suficiente para os sindicatos. [= os professores?] Querem mais, mas esquecem que Portugal, na última década, falhou todas as metas para a educação. [por culpa dos sindicatos????!!  por culpa dos professores????!!!! ] Isabel Alçada enfrenta agora o maior dos desafios: explicar a quem ensina [os professores? os sindicatos?..] que nem só de carreiras vive a educação. A escolha é simples - sindicatos [= professores??] ou alunos? »

eu .. já nem tenho forças para comentar ..

25 novembro 2009

a bem da sanidade mental

da minha parte, mais um OBRIGADA a Santana Castilho:

A falta de classe
Santana Castilho *

Perdoem hoje o estilo. A prosa sairá desarticulada, quais dardos soltos. Este artigo é, conscientemente, feito de frases curtas. Cada leitor, se quiser, desenvolverá as que escolher. Meu objectivo? Manter a sanidade mental. Escorar a coluna vertebral. Resistir. Este artigo é também uma reconfirmação de alistamento na ala dos que não trocam os princípios de uma luta pelo pragmatismo de um lance. Porque amo a verdade e a dignidade profissional como os recém-chegados ao mundo amam o bater do coração das mães. Porque não esqueço os que nenhum lance poderá já compensar. Porque com a partida prematura deles perderam-se pedaços da Escola que defendo. Porque pensar em todos é a melhor forma de pensar em cada um.

A avaliação do desempenho é algo distinto da classificação do desempenho. A avaliação do desempenho visa melhorar o desempenho. A classificação do desempenho visa seriar os profissionais. Burocratas que morreram aos 30 mas só serão enterrados aos 70 tornaram maior uma coisa menor. Quiseram reduzir realidades díspares à unicidade de fichas imbecis. Tiveram a veleidade Kafkiana de particularizar em 150.000 interpretações individuais os objectivos de uma organização comum a todos. Convenceram a populaça que se mede o intangível da mesma forma que se pesam caras de bacalhau. Chefiou-os uma ministra carrancuda, que teve o mérito de unir a classe. Chefia-os agora uma ministra sorridente, que já se pode orgulhar de dividir a classe. Porque, afinal, custa, mas não há classe. Há jogos! De cintura. De bastidores. De vários interesses. Parlamentares, sindicalistas, carreiristas e pragmatistas ajudaram à Babel. Da sua verve jorra a água morna de Laudicéia, a que dá vómitos.

Alçada derreteu o implacável Mário Nogueira que, em socorro da inexperiência da ministra, veio, magnânime, desculpar-lhe as gafes. E, cristãmente, entendeu agora, de jeito caridoso, que não seja suspenso o primeiro ciclo avaliativo. Esqueceu duas coisas: o que reclamou antes e que ciclos avaliativos são falácias de anterior ministra. Ciclos avaliativos, Simplex I, Simplex II e o último expediente (no caso, um comunicado à imprensa, pasme-se) para dizer às escolas que não prossigam com o que a lei estabelece são curiosos comandos administrativos. Uma lei má, iníqua, de resultados pedagogicamente criminosos, devia ter morrido às mãos do parlamento. Por imperativo da decência, por precaução dos lesados, por imposição das promessas de todos. Quanto à remoção das mágoas, meu caro Mário Nogueira, absolutamente de acordo. Depois de responsabilizar os que magoaram. Depois de perguntar aos magoados se perdoam. Por mim, cuja lei foi sempre estar contra leis injustas, a simples caridade cristã não remove mágoas. Não sei perdoar assim, certamente por falta de céu.

Agora, porque sou amigo de Platão mas mais amigo da verdade, duas linhas para Aguiar Branco. Gostei de o ouvir dizer, a meu lado e a seu convite, que a avaliação do desempenho era para suspender. Mas não justifique a capitulação com a semântica. Poupe-me à semântica, porque a semântica não o salva. Enterra-o. Suspender é interromper algo, temporária ou definitivamente. É proibir algo durante algum tempo ou indefinidamente. Substituir é colocar algo em lugar de. Não só não tinha como não terá seja o que for, em 30 dias, para colocar em lugar de. Sabe disso. Bem diferente, semanticamente. Mas ainda mais importante nos resultados. O Bloco Central reanimou-se nas catacumbas e o PS agradeceu ao PSD o salvar da face. Mas os professores voltaram a afastar-se do PSD, apesar do arrependimento patético de Pedro Duarte. E, assim, o PSD falha a vida!

Um olhar aos despojos. Reverbera-se a falta de capacidade de muitos avaliadores para avaliar, mas homologam-se os “Muito Bom” e “Excelente”, que significam mais 1 ou 2 pontos em concurso. Os direitos mal adquiridos de alguns valeram mais que os direitos bem adquiridos de muitos (como resolverão, a propósito, os direitos adquiridos dos “titulares” que, dizem, vão extinguir?). Porque toca a todos, muitos “titulares” que não tinham vagas de “titulares” em escolas que preferiam, foram ultrapassados em concurso por outros de menor graduação profissional, que agora lá estão, em almejados lugares de quadro. Ao mérito, há muito cilindrado, junta-se uma palhaçada final, em nome do pragmatismo. Muitos dos que foram calcados recordam agora que negociar é ceder. Mas esquecem que os princípios e a dignidade são inegociáveis, sendo isso que está em jogo. Um modelo de avaliação iníquo, tecnicamente execrável e humanamente desprezível, que não lhes foi aplicado ao longo de um processo, é agora aceite, em nome do pragmatismo, para não humilhar, uma vez, quem os humilhou anos seguidos.

Sócrates, que se disse animal feroz, vai despindo a pele. Mas não nos esqueçamos da resposta de um dos sete sábios da Grécia, quando interrogado sobre o mais perigoso dos animais ferozes. Respondeu assim: dos bravos, o tirano. Dos mansos, o adulador.

Vão seguir-se meses de negociações sobre o estatuto. O défice, que levou à divisão da carreira e às quotas, agravou-se. Se a desilusão for do tamanho da ilusão, tranquilizem-se porque a FENPROF ficará de fora, como convém, e a FNE poderá assinar um acordo com o Ministério da Educação, como não seria a primeira vez. Voltaremos então ao princípio. O que é importante continuará à espera. Mas guardaremos boas recordações de duas marchas nunca vistas.
* Professor do ensino superior. s.castilho@netcabo.pt


os quadros são ambos de Teresa Dias Coelho, porque só eles..

21 novembro 2009

Ana Drago sobre a proposta do PSD




(do blogue do Paulo Prudêncio)

"Caro/a Professor/a,

O retomar dos trabalhos parlamentares nesta nova legislatura foi feito em torno do debate sobre Educação e Carreira Docente.
Para que o trabalho político do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda na área da educação tenha a qualidade que nos é exigida, e para que esse trabalho seja também participado e avaliado por todos os envolvidos e interessados no debate sobre política educativa, retomamos por este meio o contacto e o diálogo com todos os professores e educadores que a nós se dirigiram na anterior legislatura.
A Assembleia da República votou hoje os projectos apresentados pelos diferentes partidos da oposição relativos ao fim da divisão da carreira e ao actual modelo de avaliação.
O resultado da votação será hoje divulgado pela comunicação social – os projectos apresentados pelo Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, que previam quer o fim da divisão da carreira de professor, quer a suspensão do actual modelo de avaliação (o que implicaria a não penalização de qualquer professor ao abrigo deste modelo,  ou a contagem das classificações para os efeitos de concurso ou progressão) foram chumbados.
Os restantes projectos que também previam a suspensão, designadamente do PCP e do CDS, foram também chumbados.
As intervenções do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda no debate dessas propostas, de Francisco Louçã,  Ana Drago,  José Manuel Pureza e Cecília Honório podem ser visualizadas nas respectivas hiperligações.
Da votação de hoje resultou apenas a aprovação do projecto de resolução do PSD. Porque muita desinformação e confusão se tem instalado sobre o que significa esta iniciativa, e muitas dúvidas se criaram sobre as implicações desta votação, aproveitamos para fazer alguns esclarecimentos.

1 . A proposta pelo PSD não define a suspensão do actual modelo de avaliação. Defende sim a substituição no futuro por um outro modelo, mas sem o balizar (ou seja, não acautela a não introdução de quotas, ou dos resultados escolares dos alunos num futuro modelo), e sem acautelar os efeitos das classificações do actual modelo nos futuros concursos ou na progressão na carreira.
O que significa que o modelo de avaliação ainda está em vigor, e que só o Governo pode agora definir o que vai acontecer. Ou seja,
o acordo do PS e do PSD vai no sentido de passar um “cheque em branco” ao Governo.

2. A proposta do PSD que foi hoje aprovada é uma recomendação ao Governo. Isto é, não tem carácter vinculativo. O Governo pode ou não cumprir essa recomendação.
 Se tivessem sido aprovado projecto de lei do Bloco de Esquerda significaria que a suspensão da avaliação era uma lei da República – logo, imperativa e vinculativa.

3 . Deste debate fica, portanto, muito em aberto. Contudo, se algo aprendemos  com este debate na AR foi que ele forçou o Governo a recuar e a mostrar disponibilidade negocial . O que significa que a pressão tem que ser mantida, para que essa negociação tenha resultados reais.

Nesse sentido, acompanharemos com atenção o processo negocial que agora decorre entre Ministério da Educação e os representantes sindicais, e tudo faremos para que este tenha resultados positivos que permitam colocar um ponto final neste lastimável processo.
Contamos, para tal, com a sua participação, crítica ou sugestão – para que possamos cumprir o nosso compromisso político: trabalhar para construir e reforçar uma escola pública democrática e de qualidade.

Com os melhores cumprimentos,
 

Ana Drago - Grupo Parlamentar - Bloco de Esquerda"
retirado daqui

pelo direito à liberdade de expressão e de opinião

Alguém que muito prezo disse-me: «uma opinião é uma opinião, não devias ter retirado a tua!»Também por isso, reponho aqui este post. É a minha opinião, o meu sentir, tenho pleno direito a ambos, sobretudo depois  do incitamento ao 'apedrejamento público' de que fui alvo e da maneira como me destrataram pessoas que, afinal, não merecem a minha consideração.
.
uma adenda (23/11/09) só para quem tenha a memória curta: façam o favor de ler, aqui , aqui , e aqui - tudo citado neste blogue, aqui



Os 13 'magníficos'

Assim vos chamou o João Francisco, depois que todos vocês tiveram a ousadia, o sentido de oportunidade, a lucidez e a verticalidade de publicarem na imprensa a vossa famosíssima 'declaração de intenções'. Na altura, o JF dedicou-vos até uma medalha com a efígie do Paulo Guinote. Congratulou-vos pela 'lição de coragem', chamou aos "Umbigo's thirteen" o valor mais seguro no combate à crise de valores.. (ver) Lembras-te, Paulo? Lembram-se, vocês todos outros 12 magníficos, co-autores do texto?

Era Junho e poucos os professores que ainda resistiam, de facto e no terreno. Sem O.I., andávamos quase todos à toa sem sabermos como proceder em relação à FAA. Cuja entrega os sindicatos aconselhavam. Que era de lei, constava do ECD como obrigação.. Por outro lado, a manif de 30 de Maio tinha reacendido esperanças, incendiado vontades - de não pactuar, de assumir a luta, a justeza das nossas posições - até ao fim. O assunto todos os dias inundava mails e blogues, e no entanto .. peremptórios, defensores convictos - desde o início - da não entrega de coisíssima nenhuma, apenas dois umbiguistas, o Teo e a Reb.

É então que o vosso texto aparece. Estoirou por aí com a incandescência, o troar ensurdecedor de um fogo-de-artifício. No Umbigo, o post teve 399 comentários. No Público, é divulgado com pompa e circunstância. O título-resumo, no jornal, inequívoco. E incontestado por qualquer dos autores: «Os subscritores desta declaração recusam participar numa mistificação e não vão entregar a sua ficha de auto-avaliação»

aqui, para que não haja dúvidas:
Sei bem que na vossa 'declaração' tiveram o cuidado de se ilibarem de responsabilidades colectivas. É certo que o vosso texto salvaguardava hipóteses de outras avaliações.
Não interessa. Não interessou, sobretudo, na altura. O que intuí eu, o que interiorizámos muitos, foi que havia um exemplo de verticalidade a seguir, uma única atitude digna e coerente a tomar: não entregar a FAA, nem a 'oficial', nem outra qualquer; não pactuar; não entrar nas estatísticas de sucesso do ME, relativamente às suas políticas de ADD.
Eu .. comovi-me com a vossa atitude arrojada. Eu, senti vergonha das hesitações, das dualidades que até então me tinham tolhido. E desejei estar ao vosso lado naquela hora, sofrer convosco as penalizações que viessem, quaisquer que elas fossem. Escrevi-o, divulguei-o aqui. Levei, talvez, outros a seguir-vos..

Aceito as vossas imperfeições, as vossas fraquezas, como vocês aceitarão as minhas... Mas não vos perdoo.
Não vos perdoo terem (quase todos) entregue um qualquer tipo de auto-avaliação.
Não vos perdoo que, através daquilo que entregaram, se tenham feito avaliar, logo vocês, e quase todos. Escusado iludirem-se, na óptica do ME é isso que vocês agora são: professores avaliados, e precisamente segundo a mistificação que diziam recusar. Como todos os outros, incluindo os que entregaram objectivos individuais, vocês - quase todos - cederam e pactuaram, sim. Paulatinamente integraram-se no sistema, validaram as estatísticas falaciosas do ME, deram força ao despudor da sua propaganda. Vocês - quase todos - falharam na "coerência com as atitudes e posições assumidas no passado".
Não vos perdoo terem deixado sozinhos, não só alguns (2? 3?) dos co-autores do vosso manifesto, como todos os outros colegas que, seguindo-vos, entraram inteiros nesta guerra, levaram a sério os seus princípios éticos.
Não te perdoo sobretudo a ti, Paulo. Eram 13 os signatários do documento, mas um nome sobressaía por direito próprio: o teu. Tu eras o "valor seguro" de que falava o JF. O teu nome era a garantia de que muitos precisávamos. Tinha a força de uma bandeira, a firmeza imutável de uma pedra.

Sinto-me abandonada, traída, e o que me vem à memória é uma frase do discurso do Luther King -  em meu nome, em nome de todos os professores não-avaliados:

In a sense we've come (...) to cash a check, a check which has come back marked "insufficient funds."

15 novembro 2009

Vimos à vida para sonhar


Descobri este poema em forma de carta, de Mia Couto, que traduz bem o que eu e muitas pessoas sentimos neste momento. Especificando: o que sentem muitos professores, bem como todos aqueles que se preocupam com o rumo da Educação neste país.
A equipa ministerial de Maria de Lurdes Rodrigues encarregou-se da tenebrosa tarefa de cercear a liberdade criativa de professores,alunos e até Pais, transmitindo , em cada alínea legislativa nova, a vontade de sepultar a iniciativa e a liberdade de um povo que se deseja (ainda mais) amorfo, (ainda mais incapaz) de pensar por si; transformando, através do seu sistema "educativo", os cidadãos do Presente e do Futuro em meras formiguinhas cegas e mudas. Formiguinhas de trabalho sem direitos, de cabeça baixa, sincronizadas.
Não sei em que contexto terá surgido este poema de Mia Couto, mas ele abre-nos, neste momento, a porta possível para quem tenta resistir a toda esta loucura de tirania e corrupção que se apossou do país e que o está a delapidar.
Poderão ver alguns esperança no novo ME, com carinhas novas, mel a escorrer das bocas e promessas mil, mas já se viu há muito (só quem quiser aceitar esse papel de cego expectante é que não vê) que se trata apenas de uma estratégia para ganhar tempo e dar os factos --- as ilegalidades e sevícias mil impostas à Escola Pública-- por "consumados". O mesmo estilo com que facilmente se protelam e arquivam casos escandalosos na nossa Justiça.
Fica-nos o dom de sonhar e de nos nossos sonhos mais ou menos solitários e solidários irem "matando", com armas diferentes, esses traidores de Portugal e da Humanidade.
Eis então:
CARTA
(digo dos que se ditam: a minha defesa são os vossos punhais)
Quando me disseram "não se vem à vida para sonhar" passei a odiar-vos.Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir.
Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas, Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde,quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?
Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente.Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.
O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Erram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.
(Outubro 1981)