Nas escolas, tudo começou a deteriorar-se quando, do seu seio, se baniram os fumadores, mais concretamente os professores fumadores. Verdade!!Não acreditam? Pois passo a explicar:
Lá na escola onde trabalho tinha-se gasto dinheiro, feito obras: na sala de professores (onde se passam /passavam!.. não só os intervalos como as inúmeras horas dedicadas ao chamado 'trabalho de escola') pôs-se uma divisória de vidro, separando - sem ostracizar (continuávamos a ver-nos uns aos outros) - os poluentes fumadores do pessoal sem públicos vícios. O espaço que então se criou tinha uma porta de mola, exaustor de fumos, duas amplas janelas. Estava-se lá bem. Nós, os viciados, trabalhávamos e fumávamos sem incomodar ninguém. Nos intervalos, a sala de fumadores era o espaço mais animado da escola: enchia-se de sim- e não-fumadores. Não sei porquê, temos fama/proveito de mais animados, interessantes.. que querem, facto generalizado e quase indesmentível
:-) .. Naquele espaço a abarrotar púnhamos as notícias em dia, tratávamos de assuntos da escola e dos nossos alunos, encontrávamos os directores de turma e quem mais precisássemos, discutíamos políticas e politiquices, organizávamos eventos, resistências. O quadro branco da parede de entrada sempre colorido de
slogans poemas notícias bocas. Ríamo-nos muito, também. Do lado de lá do vidro, o protegido cinzentismo dos fundamentalistas saudáveis, o bar ao fundo, que invadíamos a espaços, demandando salgados e muitos cafés.
E de repente a ASAE e a proibição de se fumar no recinto escolar, dentro ou fora de paredes. Os alunos que não podem ser corrompidos pelo mau exemplo dos seus professores fumadores. A lei que , malgré nous, nos protege das nossas próprias fraquezas, zela pela nossa saúde. O pessoal que vai - todo - deixar de ser uma ameaça à saúde pública e aos bons costumes. Professor não fuma, ponto. Professor é role model, impoluto e perfeito. Queira ou não queira! A virginal existência dos nossos jovens enfim liberta de maus exemplos. Indigência poluente, focos inspiradores de banditismo, na escola, plus jamais! Bendita ASAE, e bendito o governo que a pariu, mais às suas imprescindíveis leis. Haja moralidade!
Pois.
Não..
Não completamente, apesar de muitos terem claudicado, deixado de fumar, aceite o seu novo, recomendável estado. Fixe, parabéns! Fico até contente com a vossa conversão.. Pena que comigo a coisa tenha funcionado ao contrário: tratam-me como se fosse criminosa? mas que é esta m*rda, esta perseguição aos fumadores - só? pois agora é que eu não deixo mesmo de fumar!, decidi - eu e outros como eu, 'ovelhas ranhosas' persistindo na sua ranhosice..
Então.. na minha escolinha cheia de espaços verdes onde continua a haver uma sala -separada por um vidro e uma porta de mola, com exaustor de fumos e duas amplas janelas - agora fuma-se ao portão, do lado de fora do recinto, ao sol à chuva à canícula ao vento ao frio.
Cá fora, partilhando fumos suores arrepios, professores e alunos do secundário em insaudável convivência de parabenos e dióxidos múltiplos.
Do lado de dentro os alunos mais novos, observando-nos, aparentemente desejando juntar-se ao grupo de dialogantes proscritos.
O privado vício tornado do mais público, para alunos, mães, pais, fornecedores, passantes, automobilistas, passageiros vários, o mundo todo.
A antiga sala de fumo, durante uns tempos praticamente 'desabitada', agora convertida em sala de trabalho que muito poucos usam, as quatro ocupadíssimas mesas redondas de antes reduzidas a uma. Muitos sofás vazios, a parede do fundo enfeitada com 3 computadores que alguém liga de vez em quando. O tal quadro branco, agora sempre branco. Do lado de lá do vidro, o bar que perdeu clientes para os cafés das redondezas, o cinzentismo carregado de ruído, insuportável no intervalo grande.
Quase não vou à sala de professores, dos que chegaram de novo só conheço os fumadores ou aqueles com quem tenho turmas em comum. Deixámos de nos encontrar, de trabalhar nas horas vazias, de falar das coisas da escola, dos nossos alunos. As políticas e politiquices discutem-se ao portão, meia dúzia de resistentes tolhidos de frio. Que se constipam e adoecem e depois faltam. Que fumam duas vezes mais, aproveitando cada segundo dos intervalos. Que às vezes ainda riem.