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19 setembro 2011

Os lambe-cus

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por Miguel Esteves Cardoso

"Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.

Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.

Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço».

Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os
alunos engraxavam os professores, os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc. ..

Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada.

O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.

Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se
irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu.

O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu.

Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.

(...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional.

O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês."

Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"
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24 fevereiro 2009

MEC e os palavrões

Para desanuviar, um texto de Miguel Esteves Cardoso que eu acho .. delicioso!

É claro que quem se sinta incomodado com o tipo de linguagem (absolutamente desbragada) deve abster-se de ler. Os outros, espero que se divirtam tanto como eu ao ler estas "explicações do português":


"Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar... mas dialogar com carácter! "

"O que se não deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto. Quando bem aplicado, é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária!"

"Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar. Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante. Dizer «Tenho uma verruga no caralho» é inadmissível. No entanto, dizer que a nova decoração adoptada para a CBR 900' 2000 não lembra ao 'caralho', não mete nojo a ninguém. "

"Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação. Quando uma esferográfica não escreve num exame de Estruturas «ah a grande puta... não escreve!», desagrava-se a mulher que se prostitui. "

"Em Portugal é muito raro usarem-se os palavrões literalmente. É saudável. Entre amigos, a exortação «Não sejas conas», significa que o parceiro pode não jogar um caralho de GT2. Nada tem a ver com o calão utilizado para 'vulva', palavra horrenda, que se evita a todo o custo nas conversas diárias. "

"Pessoalmente, gosto da expressão «É fodido...». Dito com satisfação até parece que liberta a alma! Do mesmo modo, quando dizemos «Foda-se!», é raro que a entidade que nos provocou a imprecação seja passível de ser sexualmente assaltada. Por ex.: quando o Mário Transalpino 'descia' os 8 andares para ir à garagem buscar a moto e verificava que se tinha esquecido de trazer as chaves... «Foda-se!!» . Não existe nada no vocabulário que dê tanta paz ao espírito como um tranquilo «Foda-se...!!». O léxico tem destas coisas, é erudito mas não liberta. "

"Os palavrões supostamente menos pesados como "chiça" e "porra", escandalizam-me. São violentos. Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar após três quartos de hora, «ai o caralho...», sem que daí venha grande mal à família, um chiça", sibilino e cheio, pode instalar o terror. "

"Quando o mesmo pai, recém-chegado do Kit-Market ou do Aki, perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe, de rabo para o ar, a perguntar «onde é que se meteu a puta da porca...?», está a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades. "

"Se há palavras realmente repugnantes, são as decentes como "vagina", "prepúcio", "glande", "vulva" e "escroto". São palavrões precisamente porque são demasiadamente inequívocos... para dizer que uma localidade fica fora de mão, não se pode dizer que «fica na vagina da mãe» ou «no ânus de Judas». "

"Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como "fellatio" e "cunnilingus"? Tira a vontade a qualquer um! Da mesma maneira, "masturbação" é pesado e maçudo, prestando-se pouco ao diálogo, enquanto o equivalente popular "esgalhar um pessegueiro", com a ressonância inocente que tem, de um treta que se faz com o punho, é agradavelmente infantil. "

"Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso. "


Miguel Esteves Cardoso in [Gosto muito de palavrões] in Explicações de Português